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A política local e seus vermes mundiais

Hoje me contaram (sim, estou lendo poucas notícias) que saiu na Veja (¡uy!) que o Lula pediu para adiar a investigação sobre o mensalão. Minha primeira sensação foi (desculpem a sinceridade) de nojo. Um nojo cru, puro e sincero. É difícil você estar há tanto tempo longe, vendo todo mundo falando maravilhas do seu país e saber que na verdade nada mudou. Simplesmente existe mais dinheiro por lá e pronto. Tem trabalho pra todo mundo e os ricos que investirem por lá serão ainda mais ricos. Depois que eles arrancarem toda a grana do país, pegarão suas coisas, euros, dólares, ienes e reais e explorarão outros mercados.

Legal né, Lula?

Se impressionar com isso é ingenuidade e se deslumbrar chega a ser feio; coisa de novo rico que fica de nariz empinado, se sentindo o melhor do que os outros, que são como ele era, só porque agora tem mais grana. O dinheiro infla o ego das pessoas. Sabemos que é assim e isso está acontecendo com muitos brasileiros. Apesar de ser compreensível é um pouco triste e bastante chato.

Mas por quê estou falando tudo isso?
Porque depois desse sentimento inicial de desprezo aos políticos do meus país e à passividade da sociedade em geral, li uma notícia sobre a Espanha que me parece ainda pior: Um diretor do Bankia tem direito à 14 milhões de indenização.

Nos dan por todos los lados, en todos los países, siempre. Indignarse es poco.


A maioria do pessoal nem deve saber, mas com a tal da crise na Espanha, um banco privado foi resgatado com dinheiro público. Ou seja: com a minha grana, meus impostos, meu salário, meu trabalho.

O Estado pagou 23,5 bilhões de euros para salvar um banco privado, que foi nacionalizado, gerando um custo médio de €1.300 por contribuinte e que não sabemos se algum dia vai gerar algum benefício público. Com tudo isso, esse mesmo banco vai pagar 14 milhões de euros para um ex-diretor. Ficou indignado? Então...

Isso nem é tudo. Estamos vivendo um recorte completo em todo o estado de bem estar: aposentadorias, educação, saúde pública.. Pouco a pouco tudo isso vai pro brejo. Com muito esforço, podemos entender os recortes, mas essa injeção em um banco privado, não. Imagina saber que parte dessa grana vai pra pagar a indenização de um dos caras responsáveis pela quebra da instituição.

Eu precisava escrever estes parágrafos porque precisava ser justa e mostrar pra mim mesma e para todos os brasileiros infelizes com as grandes injustiças do nosso país, que aqui, onde eles chamam de "primeiro mundo", tem uma grande quantidade de merdas iguaizinhas às que estamos acostumados a jantar durante o Jornal Nacional.

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Mão na bunda

Lembro a primeira vez que um menino tocou na minha bunda. Eu quis matá-lo.
Lembro da segunda, numa festinha americana. Eu pensei que iria para o inferno, que minha alma se queimaria para sempre, que meu karma seria afetado e que minha mãe nunca mais voltaria a falar comigo.

Um par de décadas depois eu vim morar na Espanha e não sei muito bem o que as mães espanholas ensinam para as suas filhas. Logo que cheguei em Madrid percebi que menin@s das mais diversas idades e classes sociais vão pela vida com a mão d@s seus/suas respectiv@s marid@s, gatinh@s e namorad@s; bem colocadona encima de suas busanfas.

Aqui não rola agarra-agarra, sabe? É muito difícil ver um casal se beijando em público, mesmo se forem namorados ou casados, jovens ou maduros. Acho que quem faz isso é, assim, super mal visto. Mas é muito comum você ver pessoas andando ou abraçadas e uma com a mão na bunda da outra.

Eu aviso porque aqui a bunda tá bem desmistificada. Os espanhóis dizem "culo" como quem diz, "nádega" e até na televisão você pode ouvir, às 3 horas da tarde, um personagem de uma série dizendo "vete a tomar por culo" para o seu vizinho.

Aviso às amigas (e amigos) que vierem pra cá e ficarem com um(a) gatinh@: não precisa ficar histéric@ se a mão da pessoa baixar um pouquinho. Mas beijar na boca de língua, em lugar público, fica chato. Fica a dica, né? É bom pra não mal-interpretar ninguém e pra conhecer as diferenças culturais das bundas do mundo.

No Brasil dizem que opinião e bunda, cada um tem a sua. Na Espanha ela é bem menos importante do que um bom beijo na boca.



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Dançando no pensamento

Sinto saudades de dançar.
Gosto de sair e de balançar a cabeleira, as cadeiras e de dar risada.
Gosto de levantar o copo bem alto e que caia cerveja, sem querer, lá de cima.
Gosto de ver a galera se chacoalhando e de entrar no mesmo ritmo.
Gosto de abraçar o meu gatinho e de rodopiar.

Os espanhóis não gostam. Eles gostam de escutar a música. E eu acho que eles gostam de ver a gente dançando. Mas eles não dançam.

Não tenho certeza, mas acho que o espanhol é muito envergonhado. Eles não têm vergonha de gritar quando falam no telefone, nem de discutir alto, mandando quem está do lado prá-quele-lugar. Mas eles não se abraçam muito, não falam muito dos seus sentimentos, nem dançam.

Eles não se movem no ritmo da alma, não expressam o quê sentem rebolando e deixando os problemas pra lá.

Tenho saudades de ir num show e de ver todo mundo pulando, de ver os loucos dando mosh, de ficar com vontade de invadir o palco e de voltar pra casa sem voz.

Também sinto falta de ir em bar com música ao vivo. Aqui não tem muitos, sabe? Ou você vai num show, ou vai num bar. Bar, com mesinhas, música e que vc possa levantar pra dançar enquanto os outros pedem uma cerveja, faltam por aqui.

E me pergunto... Dançar no pensamento também se chama "saudade"?


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