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¡Hace Calor!

Adoro estreiar seções. A de hoje é para a falar sobre música.
Tudo aquilo que eu conheci de melhor na Espanha, como recomendação para os leitores com ouvidos curiosos e ávidos de novidades. Claro, eu sou a melhor referência para isso (risadas!).

Nada melhor do que começar a falar sobre música no dia em que tenho uma alta carga de cafeína e açúcar no sangue. Un subidón, como dizem os espanhóis.

Tá calor! Sim, calor! Você que mora no Brasil talvez não saiba que aqui tava frio desde novembro do ano passado. Imagina? Pois finalmente eu tô de blusa de manga comprida e tô incômoda, suando, reclamando do clima, como faz todo chato, digo, curitibano que se preza. Lindo demais.


Dá vontade de tomar cerveja, de assumir meu lado mais volátil:
a veces estoy, mal, a veces estoy bien... 
Te doy mi corazón para que juegues con él!


...mais canalha:
yo estaba esperando que cantes mi canción
y que abras esa botella
y brindemos por ella
y hagamos el amor en el balcón


... e de dançar. Daquele jeito sabe? De quando é sexta-feira, quase uma da tarde. De quando soa como isso:
Iremos a un hotel, iremos a cenar
pero nunca iremos juntos al altar





Você pode gostar:
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PD. A intenção da "seção" de música é falar, de maneira erudita, séria e jornalística, de bons artistas e boas canções que conheci por aqui, Mas... qué coño?! Hoje é sexta-feira, tá calor e eu tô bêbada de café. bom fim de semana!

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A greve geral, os porteiros e as prostitutas

É a segunda greve geral que vivo na Espanha e dessa vez quase cheguei a vê-la, pois moro ao lado do trabalho e não uso o transporte público da cidade. Mas lembro muito bem da primeira - foi muito impactante para mim. Eu estava fazendo um curso fora da empresa onde trabalhava e tive que usar o metrô, que demorou muito para chegar. Os manifestantes faziam piquetes e senti um pouco de medo de que me dissesem alguma coisa por estar andando na rua, por não estar manifestando meu apoio a eles. Vi fábricas, lojas e restaurantes fechados e os trabalhadores segurando faixas e cartazes.

Naquela época eu trabalhava em um grupo de comunicação com postura bastante conservadora. Intereconomia era um dos alvos dos grevistas e naquele dia, o jornal La Gaceta nem sequer foi distribuído. Os piquetes impediram que os caminhões saíssem da gráfica.

Neste ano eu não posso dizer qual é o clima nas ruas, pois estou trabalhando e vendo tudo pela televisão. Não porque eu não apoie a greve, ao contrário: concordo com o quê os manifestantes e os trabalhadores dizem - apesar de estar contra os sindicatos.
Mas escrevo sobre a greve geral na Espanha porque é algo impressionante para uma pessoa que, como eu, vem de um país de apáticos que sempre diz que "sim" a tudo e não tem este espírito de coletividade para lutar pelos direitos de todos..

"O fracasso é um ponto de vista"

Esta manhã a oposição dizia que a greve foi um fracasso, com adesão de apenas 18 ou 20% da população. Você imagina uma manifestação na sua cidade em que 20% da população participe? Em Curitiba, cidade de onde venho, haveria mais de 50.000 pessoas na rua. Um amigo de lá me disse que na última manifestação contra a corrupção que ele foi não tinha nem 200 pessoas apoiando.

Por outro lado, os sindicatos dizem que mais ou menos 70% dos espanhóis aderiram à greve.

Foto publicada hoje no Twitter de @domigosanpedro, original de Gustavo Ribas. Mais e mais fotos aqui

Apesar de alguns distúrbios violentos e dos quase 60 presos (antes das 16hs), a greve é um direito e exercê-lo não está mal visto por aqui. Se respeita o "direito a fazer greve" ou o "direito a trabalhar" e isso foi uma das coisas que mais me chamaram a atenção. Na minha empresa, dias antes da greve, recebemos um e-mail do RH perguntando quem participaria da manifestação e quem trabalharia. Tudo bastante normal e sem pressão de nenhuma parte.

No Twitter, a apresentadora de um dos programas jornalísticos mais importantes do país, emitido pela televisão pública, explicava que hoje a TVE trabalhava com serviços mínimos: dois telediários emitidos ao longo do dia.

Por quê tudo isso? 

Existe uma motivação política que leva os Sindicatos a se posicionarem contra o governo. Mas os principais motivos da greve geral são as medidas austeras deste governo direitista com relação à política social do país (amigos residentes, me corrigam se eu estiver errada):
  1. Reforma Laboral
  2. Recortes na saúde pública
  3. Recortes na educação pública e diminuição dos salários de professores
  4. Possibilidade de privatição do Canal Isabel II, o serviço de água de Madri

Enquanto isso, a minha outra cidade, Curitiba, faz aniversário

São 319 anos e pelo menos os últimos 10, até onde minha memória alcança, são de desorganização, ignorância, marketing e corrupção. Tudo isso em uma cidade de quase 2 milhões de pessoas, onde muitos não têm acesso a serviços como saneamento básico e educação. Mesmo assim, o governo investe massivamente em publicidade para convencer todo mundo de que Curitiba é a Capital Ecológica, a Cidade Modelo do Brasil. Com tantos cartazes bonitos, os que têm educação e saneamento básico, parecem esquecer de que os demais são parte dessa mesma "cidade modelo".

Então, lá no "primeiro mundo brasileiro", só quem faz greve são porteiros e zeladores. Segundo a Gazeta do Povo, porteiros e demais funcionários dos condomínios de Curitiba pedem "reajuste de 15% e equiparação com os vencimentos dos profissionais do interior do estado". Como resposta, a presidente do Sindicato da Habitação e dos Condomínios, Liliana Ribas Tavarnaro, afirmou que não há condições para conceder reajuste, pois “condomínio não é empresa, não tem lucro”.

Enquanto a senhora Tavarnaro diz que condomínio não é empresa, a notícia que informa sobre a greve, acertadamente se refere aos zeladores e porteiros como profissionais e funcionários; portanto, pessoas que têm direito a exigir melhorias nas suas condições de trabalho - a escravidão acabou no Brasil lá por 1888 né? Mas parece que esqueceram de avisar à essa senhora que se ela não está disposta a pagar salários aceitáveis aos seus colaboradores, ela mesma pode abrir as portas do seu prédio e limpar o seu elevador. Tal e como fazem as pessoas nos países ela vai passar as férias com seu marido, achando tudo lindo, limpo e "exemplar".

Mas em Curitiba ninguém nem lê a notícia. Só se darão conta da greve quando não encontrarem ninguém para abrir as portas dos seus prédios. Na cidade modelo, quem não é modelo é invisível. Ou algum de nós vai se unir para apoiar a classe dos porteiros, que nem sequer são considerados funcionários pela própria presidente do Sindicato da Habitação e dos Condomínios?

 

E as prostitutas?

Na Europa, o direito à greve é utilizado até por aquelas que no Brasil são motivos de risadas, como as prostitutas. 

Ontem, as prostitutas de luxo fecharam as pernas e iniciaram um protesto para conseguir linhas de créditos às famílias carentes (!). Elas decidiram que não vão mais fazer sexo com banqueiros, com a intenção de "pressionar o setor" e querem que eles "cumpram suas responsabilidades sociais".

Os bancos, maiores responsáveis pela crise européia, parecem ter os seus dirigentes nos postos de trabalho pior vistos da atualidade. Ser filho da puta já não tem problema, elas têm dignidade.... e não a vendem para um banqueiro qualquer.


As prostitutas do "primeiro mundo" fecham as pernas e os porteiros da "cidade modelo" não abrem as portas. Enquanto isso, parte de Curitiba aplaude a sua própria hipocrisia e falta de educação, na celebração do seu aniversário.

Greve? O Brasil parece ter problemas chiques demais para se preocupar com política, recortes púbicos, direitos sociais ou educação. Na minha cidade no sul do sul do mundo, estão mais ocupados em exibir vídeos publicitários, enquanto deveriam estar lendo um livro para entender que criticar e se indignar é uma prova de amor muito maior do que maquiar problemas

Curitiba, orgulhosa de sua ascendência européia, não tem motivos reais para festejar seus 319 anos. Nossa modelo deveria aprender com  as prostitutas, com os porteiros e com os mais velhos (e a Espanha está dando exemplo hoje), que exigir dignidade, respeito e qualidade de vida para todos sim é um motivo para comemorar.

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Expressões I

Adoro expressões, figuras de linguagens, onopatopéias e outras invenções fonético-idiomáticas. Por isso vou publicar uma lista das minhas favoritas aqui na Espanha. Como gosto de comparar, também vou escrever sobre as brasileiras que não têm tradução; mas isso em um outro dia.

Começo por uma expressão em castelhano e que é a minha favorita:

"Más raro que un perro verde"


Algo como: Mais estranho que um cachorro verde, em português.

[Atualização] Para os apaixonados pela lingüística, pelas palavras e pelo português, recomendo o Tãmbler da minha amiga Bruna Castro: O Melhor do Português (as palavras que os estrangeiros adoram). Tenho certeza que vc vai gostar.

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Quanto você ganha?

Em linhas gerais, os brasileiros e os espanhóis são culturalmente bem parecidos. Temos alguns pontos diferentes, como o temperamento, que do brasileiro é mais alegre. Mas no geral, brasileiros e espanhóis gostam de rir, comer, beber e estar rodeado de amigos e da família.

Mas tem uma coisa que é bem diferente e que, mesmo depois de 4 anos morando aqui, continua me chocando. É a pergunta "quanto você ganha?"
Não importa o nível de confiança, amizade ou intimidade que você tenha com uma pessoa. Que te perguntem "quanto você ganha", "quanto você paga de aluguel" ou "qual o salário do seu marido" é violento.

Todos os amigos que eu tenho na Europa estão na minha vida há não mais do que 4 anos. Construí relações sólidas que levarei para sempre com espanhóis, chilenos, argentinos, equatorianos, venezoelanos, italianos e também com muitos e muitas brasileiras, incluindo curitibanos.

Muitos dos meus amigos do Brasil o são desde antes de eu saber falar direito. Tem os piás lá da rua, a amiga que estudou comigo no Viva Vida, gente que eu conheci no Tistu, muitos amigos do Positivo, da Faculdade, da Pós, das épocas dos namorados ou trabalhos antigos. Nenhum deles nunca me perguntou quanto eu ganhava. Eu não sei quanto a maioria deles ganha. Na Espanha, em meia hora de conversa, alguém pode te lançar a pergunta que me deixa gelada e sem resposta.

Veja bem, se trata de algo tão intrigante que me fez escrever um até um post! Eu sei o salário de alguns dos meus amigos no Brasil e também de alguns espanhóis. Em todos os casos, e incluo minha irmã, meus pais e meu namorado-marido, foram eles que quiseram, de maneira natural, me contar.

Quanto você ganha? Mas e o aluguel, quanto é? Juro que nunca vou entender o quê leva uma pessoa a perguntar coisas assim e de onde ela tira coragem para tal questionamento inquisitório.

Deixo aberto os comentários para que vocês lancem suas apostas. E não, por favor, não precisam incluir números. O quanto cada um ganha é problema seu.

Os brasileiros que são demasiado púdicos e se sentem incômodos ao falar do seu dinheiro, os espanhóis serão muito abertos com o tema ou esse pessoal do lado de cá, simplesmente, quer argumentos para fofoca? :)

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Quando os elefantes sonham com a música

Ontem escrevi umas poucas linhas sobre o nosso ritmo: palavra-sentimento-sensação que nos identifica e nos une como brasileiros.


Mas tem muita gente que admira, sente e entende o ritmo brasileiro como nós. Pode ser que os extrangeiros abrasileirados não o dancem.. mas podem chegar a conhecê-lo até melhor do que a gente.


Foi aqui na Espanha que eu descobri o melhor programa de rádio de música Brasileira já ouvido! Aliás, foi aqui na Espanha que eu comecei a gostar de rádio de verdade, mas sobre isso eu vou escrever outro dia. Hoje, eu só quero deixar a recomendação do meu programa favorito, e que dá pra ser ouvido online: Cuando los elefantes sueñan con la música, da Radio 3.


http://www.rtve.es/alacarta/audios/cuando-los-elefantes-suenan-con-la-musica/cuando-elefantes-150212/1350227/

Música brasileira da melhor qualidade, informação e essa rara capacidade de fugir dos padrões de sempre. O programa viaja de Djavan à Hermeto Pasqual com toda a naturalidade do mundo.

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O Ritmo

Por mais coisas lindas, ritmos, canções, artistas e pessoas maravilhosas que existam por aqui, existe algo que os espanhóis, por mais abrasileiradas que cheguem a ter suas almas, jamais chegarão a ter:



(Especial atenção às palavras de abertura do vídeo. "(...) Na televisão de hoje em dia e na música, quanto menos conteúdo tiver, melhor... mas eu vejo que o público está carente de artistas que traduzam suas emoções". Grande Geraldo Azevedo.... isso é igualzinho na Espanha, no Brasil e na maioria de países do mundo. Obrigada velho Geraldo, por me recordar como é ter a alma leve e aquele brilho no rosto, com cheiro de praia, fruta e protetor solar).

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O Sorvete do ambulante da minha rua

Hoje no trabalho, eu ouvi, depois de muito tempo, aquelas gaitinhas de plástico que fazem: fluuuuulilllflululu! A típica gaitinha de bolso de vendedor de sorvete na rua. Me lembrei da minha infância e dos dias de férias no verão, quando todas as crianças saiam correndo descalças com moedinhas na mão ao escutar a gaita do tiozinho.

Lembrei do Maionese e do irmão dele, que sempre ganhavam um picolé extra, porque compravam uma bacia inteira de sorvete.


Lembrei que o vendedor sorteava um picolé, jogando-o para cima e todo mundo saía correndo para pegá-lo. Dependendo do vizinho que conseguisse, o sorvete era dividido com todo mundo.


 Lembrei dos sabores: maracujá, morango, abacaxi, uva, milho verde e os mais caros: mini-saia e esquimó. Esses a gente só podia comprar às vezes, porque normalmente as moedas não eram suficientes. O mini-saia se chamava assim porque a metade de cima era de creme e a de baixo era de alguma coisa rosa choque. O Esquimó era de alguma coisa branca, com uma casquinha de chocolate por cima. Comprar o Esquimó era quase sinônimo de status na nossa rua e tinha que dar um pedaço pra todo mundo.


Recordei tudo isso porque aqui não tem ambulante, praticamente não existe comércio informal e as crianças não saem na rua correndo descalças. 
Tampouco ficam amigas do vendedor de sorvete, comem sonho do carro do sonho que vai passando para a freguesia, ou curau de milho cozido. Aliás, essas coisas nem existem por aqui.


Aqui é tudo diferente. Tudo é industrial e tudo está controlado. Mesmo que o desemprego esteja chegando aos 25%, o Estado não deixa ninguém abrir um postinho de algodão doce na rua, nem de pipoca ou de cachorro quente. A rua é de todos, mas não é de ninguém. Existe liberdade e a liberdade não existe.

Ninguém aqui quer sair para vender picolé na rua e nenhum pai, em sã consciência, deixaria seu filho tomar um sorvete "de água de esgoto", como diria o "S"Ernesto.


Aqui tudo é melhor, mas mais chato. Tudo está certo e tudo está feito. Aqui nem sequer  sabem do quê eu estou falando, porque muitas vezes não entendem minhas palavras. Aqui eles falam de nostalgia e provavelmente não entendam o que significa 
saudades....

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Dia Internacional da Mulher Trabalhadora

O Dia Internacional da Mulher já passou e apesar de ser um dia que nunca me chamou especial atenção, esse ano o 8 de março teve alguma relevância filosófica para mim. 


Notei que se trata de uma data importante lá no Brasil, vi muita gente comentando nas redes sociais e muitas marcas utilizando o argumento para fazer publicidade. 


Comecei a ver que o tom das declarações eram sempre parecidos: "Todos os dias são dias das mulheres", "Mulheres, vocês são lindas", "Vocês fazem nossa vida mais bonita"... muitos agiam como se fosse o dia dos namorados ou o dia das mães, e por outro lado, mulheres e meninas reforçavam que são elas que dão à luz, cozinham, lavam, passam e trabalham, e que, claro, por isso merecem o carinho e admiração de seus companheiros e da sociedade.

Na Espanha ouvi comentários como "e o dia do homem quando é? Se somos todos iguais....", e os dois únicos emails que recebi de parabéns começavam com "Feliz dia da mulher Trabalhadora", pois assim se chama o dia 8 de março por aqui.



Tamanha diferença me fez refletir e ter vontade de comentar nas publicações dos meus amigos do Facebook. Uma menina me etiquetou em um vídeo dedicado à beleza e sensualidade da mulher brasileira, "a mais bonita do mundo" (!!?).  Tive vontade de responder, mas me auto-censurei. Sabia que por mais suave que eu fosse, soaria a "feminazi" para a maioria das pessoas nas minhas listas de contatos. Então resolvi ser objetiva... e com um pouco de receio disse:


"Vale lembrar que o dia da mulher existe para homenagear àquelas que lutaram pela melhoria das nossas condições de vida e de trabalho, para que nós pudéssemos participar, com igualdade, na sociedade e no seu desenvolvimento.
No dia 8 de março a gente deve lembrar de continuar dando sentido aos nossos direitos e ao nosso trabalho.
Ganhar flor é legal, mas a gente merece mesmo é "respeito".
Sendo assim: Feliz dia Internacional da Mulher pra todo mundo :)"


Não falei sobre alguns grandes problemas da sociedade brasileira que poderiam ser debatidos nessa data: o sexismo, a violência sexual, a prostituição infantil, o maltrato contra a mulher, o maltrato psicológico, além de todos os preconceitos que enfrentamos no mercado de trabalho. Eu queria falar, mas não disse nada porque acho que a nossa sociedade não está preparada para debater esses temas com maturidade. Se no Dia Internacional da Mulher eu me metesse a propor um debate sobre a diferença salarial entre homens e mulheres no Brasil por exemplo, eu seria taxada, no mínimo, de chata.


Mas tudo bem. A gente sabe que o Brasil ainda é um país muito machista e sobre o machismo eu vou escrever por aqui em algum momento. Enquanto isso, resumo meus pensamentos sobre o 8 de março com essas duas fotos - também vistas no Facebook de meninas que moram por aqui:




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A baixa gastronomia. Da coxinha à morcilla.

Há alguns meses nasceu no Facebook o grupo "Curitiba - Baixa Gastronomia". Me uni quando ainda não eram nem 100 os membros registrados e aí fiquei como uma observadora, comentadora e apoiadora do movimento. Me parece genial que um grupo de pessoas se una para defender o valor do que existe de mais autêntico na culinária de um país. Hoje, além de ter um mapa onde os participantes podem marcar com um pin o endereço dos melhores bares, butecos e restaurantes da cidade, o BG também tem um blog em um jornal de Curitiba, onde desenvolve ainda mais as suas idéias puristas de defesa às "mesas boas, baratas e sem frescura da cidade".
Eu gostei tanto do grupo do BG, que no programa de rádio que colaboro falando sobre cultura digital (Cultura.es), apresentei a idéia junto com meu querido argentino Julian Irusta (link clicar em ver parte 1, executar a aplicação e ir direto pro minuto 20, mais ou menos), e não custa dizer que foi uma das minhas intervenções mais celebradas pelos ouvintes.
Aqui em Madri sinto saudades da comida da minha terra e nesses 3 anos namorando com o Alberto já o levei para degustar as maiores maravilhas da culinária brasileira. Desde moqueca baiana até churrasco gaúcho, barreado paranaense ou feijoada carioca. Mas para o meu espanhol, nada bate a boa e velha coxinha de frango. Ele ama, adora, delira com a coxinha.
No começo eu dizia: mas Alberto, isso é comida de rodoviária barata! "Me dá igual, me encanta". Me fez refletir. Querem que a gente pense que caviar é melhor do que coxinha ou que esgargott é melhor do que bauru. Mas não é. Isso se chama classismo, elitismo gastronômico. Não quero dizer que o x-salada do Beto Lanches é melhor do que o strogonoff de camarão do Ille de France. Só acho que cada um prefere o quê o seu paladar definir, que devemos ter a mente aberta, e não podemos classificar nem etiquetar as comidas e as culinárias por preço ou valor. Não podemos ter preconceito com a baixa gastronomia, porque mais baixa gastronomia do que a feijoada, não existe. E quem não gosta de feijoada?
Me identifiquei muito com o Baixa de Curitiba. Sempre adorei os butecos brasileiros e depois de algum tempo em Madrid, comecei a ter os meus.
Primeiro foi o Pepe. Um bar que servia a melhor fritura da cidade, quando eu ainda morava com o Feli, a Lore e o Zé numa zona perdida lá no norte de Madri.
Depois chegou a descoberta das orelhas de porco e eu andava pelo centro da cidade procurando as melhores tabernas que servissem essa iguaria histórica na culinária castelhana.
Quando me mudei com o Alberto, adotamos o Cortijo do Lorenzo como nossa segunda casa: boas tapas grátis com cada cerveja pedida. Como carro chefe, o Loren tem no cardápio os melhores huevos estrellados con patatas que já provei. Se trata de um prato de batatas com ovo frito, pimientos del padrón e jamón. É fantástico! O ovo tem que vir com a gema muito molinha, com o garfo e a faca você corta tudo e mistura tipo arroz com feijão. Uma bomba calórica de sabor insuperável!
Mas o melhor ainda estava por vir. Nos mudamos e ao lado da nossa nova casa eu encontrei a glória. Literalmente: o La Glória é o melhor refúgio da baixa gastronomia madrilenha. Nas palavras de um espanhol no Foursquare: "Tasca típica madrileña de esa especie en peligro de extinción donde se bordan los platos, las mollejas, los boquerones, el entrecot.... a precios asequibles".
Não tenho fotos das minhas visitas ao La Glória, mas garanto que os melhores pratos desse antro da Baixa são os callos (dobradinha), os judiones del huerto, o ovo cozido recheado com molho rosé e aspargos, as beringelas rebozadas e as mollejas.


Ainda perto de casa, no conceito: uma tapa grátis para cada bebida pedida- estratégia definitiva dos bares madrilenhos para te embebedar fácil, está o Nanis Vinateria. Do lado de casa e minha iguaria favorita da atualidade: a Morcilla de Burgos:
Na primeira foto uma porção de Cecina e outra de Morcilla - só para os fortes.
Na segunda a clarita con limón que minha irmã adora e as tapas grátis: azeitonas com azeite e mortadela quentinha.
O Nanis Vinateria. Um ponto de encontro das famílias do bairro.


O legal é que o conceito da Baixa gastronomia se repete em Curitiba, em Madri ou em Sevilha. 
Entrar em um refúgio da BG, é como um voltar à casa constante.


Estatuto da Baixa Gastronomia, adaptado da definição dada pelo André Barcinski para "Culinária Ogra": http://bit.ly/jwCopf
1 - Não pode ter nome com “Chez” ou “Bistrô”
2 - A comida precisa ocupar ao menos 85% da área total do prato
3 – Não pode ter “chef”, e sim “cozinheiro”
4 – Não pode ter “menu”, e sim “cardápio”
5 – Algumas palavras proibidas nos cardápios: “nouvelle”, “brûlée”, “pupunha”, “espuma”, “lâmina”, “lascas” e “contemporânea”
6 – Não pode ter filiais
7 - Os garçons não podem ser modelos, manequins ou atores, com preferência para garçons velhos e feios
8 – Os garçons precisam passar no teste da colherzinha, que consiste em servir arroz com uma só mão, juntando duas colheres, sem derramar um grão sequer
9 – Não pode estar localizado no Batel
10 – Teste final: se o garçom, ao ser perguntando “o que é ‘El Bulli’?”, responder qualquer coisa que não seja “é onde eu sirvo o café”, o restaurante está eliminado.


Aproveito esse post para retomar uma ideia que trabalhava no meu antigo e falecido blog: a categoria "Coolritiba", uma curadoria muito pessoal das coisas, projetos e pessoas legais da minha cidade. A galera do Baixa, sem dúvidas, são parte disso.


Mais sobre as diferenças gastronômicas Brasil-Espanha, no Tãmbler.



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