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Ranking de corrupção mundial

Hoje, lendo uma reportagem sobre a corrupção na Espanha, encontrei esta informação. É um mapa-índice da percepção da corrupção apresentado pela "Transparência Internacional".

Atualmente se fala muito sobre o desenvolvimento do Brasil e sobre como ele é um dos países emergentes e prometedores para o futuro. Mas para mim, enquanto a gente tiver problemas de base como este, o Brasil vai continuar sendo aquele meu velho conhecido de sempre...

O BR está na posição 69 e a Espanha em 30º lugar no ranking de percepção da corrupção.
Interessante observar nossos vizinhos: Chile, Uruguai - França, Holanda... e meu favorito: Finlandia, em 1º.  Na próxima vida.. em alguma vida, eu nascerei Finlandesa.

Também impressiona Itália, na posição 72 e Nova Zelândia, também com um 1!



Entre as coisas interessantes que li no artigo que se chama "En política no existe la presunción de inocencia. Si te acusan, dimites", está resposta do especialista Manuel Villoria, professor e membro do Conselho de Direção de Transparência internacional:

A Espanha é um país corrupto?
Por natureza, não. É um país com bastante corrupção política, mas não com corrupção sistêmica. Um país com corrupção sistêmica é aquele onde para levar uma criança ao colégio, você tem que pagar um suborno.. Ou para poder ir ao médico, ou aos policiais...

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Brigas de vizinhos

Não gosto de generalizar, mas essa coisa almodovariana de espanhóis gritando e discutindo, utilizando palavras de baixo calão com naturalidade e ofendendo-se mutualmente pode ser bastante real.

Quem passa por este quase-blog sabe que eu sempre comento que aqui dizem "a tomar por culo" na TV, às 4 da tarde, sem pudor, medo ou vergonha. Eles falam "mierda" no ambiente de trabalho e utilizam expressões como "gilipollas" como quem diz que tá #chatiado. O volume médio da voz da galera também é bastante elevado, o que se nota imediatamente nos bares, restaurantes ou dentro do ônibus, quando você escuta a vida inteira da tiazona que tá falando pelo celular. Isso às vezes irrita, mas quando você acorda de bom humor, pode ser bem engraçado.

O legal é que eles expressam tudo, jogam pra fora, batem boca, lavam a roupa suja onde for. Gritaria e confusão no meio da avenida.

Hoje encontrei este post, que me fez, literalmente, chorar de rir. Talvez só seja engraçado pra quem mora ou morou aqui, porque é tão surreal que é até difícil acreditar que realmente acontece. Mas é assim: eles são tão, mas tão briguentos, que são capazes de dizer todos os palavrões e gritos para os seus vizinhos em pequenos cartazinhos colados nas paredes dos seus edifícios - além de destapar situações quase tão absurdas quanto os cartazes em si (clique nas imagens para poder vê-las em tamanho maior).




Para os ladrões de papel higiênico, desejamos.... (mas antes, contamos nossa vida...)


"Pues no me has pillado" - "Você não me pegou"



 


 
 
 
 
Pra quem gostou, tem mais neste Tãmbler
 
 

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Grávida em Madrid

Em outras oportunidades eu já escrevi e comentei sobre a minha positiva experiência com o sistema de saúde público espanhol. Nestes 6 anos de vida aqui, conversando com as mais diversas pessoas, entendi que "el público es mejor que el privado".
Tem gente que tem plano de saúde, mas pelo que elas me falaram o utilizam mais para exames e consultas de rotina, devido à praticidade e comodidade no atendimento. "Pero si es algo más grave, al público, directamente. Es mucho mejor".

Para mim, tão brasileira que sou, foi difícil de entender. Mas a analogia "universidade federal x universidade particular" que conheci lá em Curitiba, fez tudo ficar mais claro. É lógico: o público dá melhores condições de trabalho para os profissionais - logo é o sistema que concentra os melhores médicos. O investimento em I+D é grande e a infra-estrutura é boa. Portanto, público melhor que privado. Faz sentido.

Isso aprendi há uns 2 anos, mas agora com a crise, as coisas estão mudando. O novo partido político que está no governo quer privatizar a "sanidad", os médicos estão fazendo muitas greves, demora um pouco mais pra conseguir uma consulta, alguns centros estão fechados por corte de gastos e o investimento em I+D quase não existe. Mas, mesmo assim, todos dizem que o público ainda é superior e que as consequências reais desta crise, notaremos dentro de 2 ou 3 anos. E eu preferi acreditar, até porque, dentro de 1 mês eu dou a luz e vai ser tudo pelo público - como (quase) todo mundo faz.

Uma grávida amateur

Estou grávida há 8 meses e desde então, começou minha nova aventura pelo sistema de saúde espanhol e pelo desconhecido mundo da maternidade.

35 semanas, vulgo 8 meses de barriga. O tempo passa voando.


De imediato, percebi mil coisas e experiências que poderia contar para as pessoas que sempre me perguntam como são as coisas por aqui. São muitas as diferencas no próprio sistema, na eficiência, na infra-estrutura e no tratamento, por exemplo. Mas para mim, o mais emocionante está sendo descobrir e conhecer o universo do parto em si, através do acesso à informação que o próprio sistema oferece aos papais.

É verdade que, comparando com países mais desenvolvidos como a Holanda, por exemplo, aqui o sistema para os partos ainda é bastante imperfeito e falta muito para que se aproxime ao recomendado pela Organização Mundial da Saúde e pela UNICEF. Segundo números de referência, a Espanha ainda está por cima do recomendado na média de cesáreas realizadas e de partos intervenidos.

Na Holanda, o parto em casa é um direito coberto pela Saúde Pública, e opção mais normal e praticada pela sociedade


Porém, para as minhas referências trazidas do Brasil, a Espanha está em um futuro distante, muito melhor do que tudo o quê conheci no meu país, e mais legal do que jamais poderia imaginar..

 

A história prévia da grávida em Madrid


Lembro de quando eu era mais jovem e perguntava para as mamães se os seus partos tinham sido normais ou cesárea. Quando respondiam "cesárea", sempre questionava "por quê?", tentando entender o quê teria ter acontecido... O fato é que eu sempre tive horror à cesariana, pelo próprio medo que tenho aos hospitais e médicos em si. Medo! pensar em uma agulha me bloqueia e aterroriza. Então, essa história de que mais de 80% dos partos brasileiros sejam feitos baixo intervenção cirúrgica sempre me pareceu uma aberração, porque fica claro que a grande maioria deles não eram realmente necessário. E me dava medo: vai que eu não posso escolher... Vai que me dizem que tem que ser cesárea e a coisa não é bem assim... Medo, meu medo, e falta de confiança nos médicos, que, em muitos casos estão mais preocupados com o seu conforto do que com as opções da mamãe e do bebê.

Quando eu e o Alberto decidimos ter um filho, fomos bem impulsivos. Não debatemos e nem pensamos muito. Nos olhamos nos olhos, conversamos 5 minutos e nos perguntamos: tem certeza? e assumimos o desafio. O Théo demorou pouco para nos surpreender e nem sequer nos deu tempo de planejar o futuro, de pensar onde ou como seriam as coisas, se ele nasceria no Brasil ou na Espanha. Tudo isso a gente foi pensando ao longo da gestação. Somos jovens e livres, poderíamos tomar qualquer decisão e eu acho que ter o nosso filho na Espanha foi a melhor entre todas elas.

Aqui, com toda essa chuva de informações, a experiência do parto em si se tornou algo realmente importante para mim, a gravidez tem sido uma etapa especial, e eu acho que para a viver tudo isso, este país supre melhor as minhas necessidades do que o Brasil. Aqui, além de informação aberta eu tenho liberdade de escolha.. e sei que ela será respeitada, dentro do possível. Sei que se tiverem que me fazer uma cesárea, ela vai acontecer, mas só se for por necessidade. E logicamente estamos abertos à ela, ao fórceps e à anestesia :)
(vai, só estamos comparando diferenças)

Amateur, na España e ¡solita!


Eu estou encantada com, por exemplo, o acompanhamento da gravidez. As consultas com o obstetra são rápidas e muito práticas. Falamos sobre exames, resultados e datas. As dúvidas, sentimentos e o acompanhamento mais pessoal é feito com a "matrona" - a famosa "parteira". Inclusive é a parteira quem faz o parto: ela sozinha... ou ela com outra matrona.

Explico: aqui muitos hospitais já seguem a tendência da OMS de que os partos sejam o mais natural e o menos instrumentalizados possível, portanto não é necessário que um médico entre na sala de parto... Claro que os ginecologistas estão ali do lado, assim como a UTI pré-natal e toda a infra-estrutura e pessoal necessários... mas a filosofia do parto é diferente. O parto é da mulher e cada uma terá a oportunidade de vivê-lo como prefira - sempre que tudo corra bem e não seja necessária nenhuma intervenção... E por isso a informação é tão importante. Além do mais, as cesáreas não são "escolhíveis"... em alguns hospitais privados, às vezes pode ser que sim. Repito: em alguns hospitais privados - às vezes e pode ser que sim. Mas no geral: cesárea = necessidade ou casos especiais. É uma exceção e todo mundo deixa bem claro de que se trata de uma cirurgia...Não é visto nem como normal e nem como algo natural, nem pelos médicos, nem pela sociedade. Um UFA! bem grande para mim, que tenho absoluto pavor à facas e agulhas (tanto que estive a ponto de optar por um parto planejado em casa, mas acabei desistindo porque é caríssimo... e vai, o Alberto não queria concordar).

Partindo da filosofia de conversas diretamente com as parteiras, se valorizam as dúvidas, sentimentos, medos e preocupações da mamãe e do papai... muito mais do que a parte médica em si. Além disso, o SUS oferece cursos de pré-parto para os casais. Eu e o Alberto estamos fazendo e está sendo muito legal e tranquilizador! Todas as semanas temos uma hora de ginástica para grávidas e uma hora de aula teórica, em que nos explicam os tipos de parto que podemos ter, se queremos mais natural, com ou sem anestesia, quais são os seus efeitos, detalhes sobre a oxitocina artificial, a instrumentalização do parto, os casos que podem levar à cesárea, etc... Também explicam sobre contrações, dilatação, respiração, lactância, como cuidar do bebê nos primeiros dias, o umbigo que cai, troca de fralda, paternidade - hahaha - etc... Tenham em conta que nós somos "primerizos" (ou seja: A-MA-DO-RES) e estamos aqui sozinhos! Toda essa informação é extremamente valiosa para os dois.

¡El parto es nuestro!


Tudo isso me ajudou a decidir sobre que tipo de parto eu gostaria de ter, de maneira consciente, pensada e baseada em informações. Conversei com minha matrona e ela me recomendou visitar 2 ou 3 hospitais públicos para conhecer as suas filosofias e ver qual delas mais se aproxima à minha. Além disso, te recomendam fazer um "Plano de Parto", que é um documento oficial do Ministério da Saúde onde vc descreve as opções que você gostaria que fossem respeitadas no seu parto: métodos anestésicos, libertade de movimento durante a dilatação e o expulsório, se vc quer ou não dar o peito depois do nenem nascer, episiotomia, se vc quer poder beber e comer durante a fase prévia, etc... Tudo isso é levado em conta na hora do ingresso no hospital e será respeitado dentro do possível durante o seu parto.

Estivemos no XII de Octubre, hospital de referência na Espanha; um dos primeiros à seguir as recomendações da OMS de que o parto seja o mais natural e menos instrumentalizado possível.

Vimos muitas coisas legais e achamos que pode ser uma boa opção. Pra quem quer saber porquê: Eles foram os primeiros em Madrid a ganhar um prêmio da Unicef por estímulo à lactância: o neném sai de dentro de você e vai diretamente para a sua barriga. Eles esperam o cordão umbilical terminar de latir antes de cortar para que seja menos traumático possível para o pequeno. Daí o baby vai direto para o peito. Nada de pesar, nem limpar, nem colocar toquinha: Piel con Piel e pro peito mamar. Todos os outros processos podem esperar, o amor não, né gente? Eles explicaram que estudos científicos comprovaram que o piel con piel estabiliza e normaliza a temperatura do bebê, seu ritmo cardíaco e tranquiliza a criança, sendo mais eficiente que uma incubadora na maioria dos casos. Além do mais, é o melhor estímulo para a que o leite da mamãe desça e para que o neném mame. Esta primeira mamada ajuda na normalização do tamanho do útero da mulher, diminui riscos de hemorragia, depressão pós-parto e um monte de coisas chatas que podem acontecer.

Daí vem a parte mais legal: papai, mamãe e bebê vão pra um quarto e ficam ali durante 3 horas, sozinhos. Se namorando, mamando, se olhando e se conhecendo. É algo que poucos hospitais fazem aqui na Espanha e reforça os laços afetivos entre mãe e filho, algo que vai se refletir diretamente no tipo de relacionamento afetivo que essa criança vai desenvolver com outras pessoas ao longo dos próximos 5 anos de vida. Louco, né?

Também gostei das alternativas que eles dão à postura na hora do parto. Você pode dar a luz deitada, em uma cadeira, de cócoras, deitada de lado, etc... como você decidir na hora H, deixando a natureza agir e sentindo o quê é melhor para você e para o bebê. Na visita elas nos mostraram uma cartilha com exemplos e toda a equipe está preparada para ajudar a mãe a parir da maneira que ela achar mais cômoda. Também nos explicaram que, se tomarmos a epidural, dificilmente poderemos fazer algo além de deitar na cama e empurrar, porém, sem sentir dor :) !

Posições recomendadas para um parto natural e respeitado


Do meu ponto de vista, faltaram alternativas para a hora da dilatação e das contrações, que são as mais doloridas... Eles oferecem as bolas de dilatação (são como as de pilates), opção de caminhar e pouco mais.

Por isso, eu e o Alberto vamos conhecer o Hospital de Torrejón esta semana. Lá, a infra-estrutura para o parto natural é ainda maior. Cada casal tem um quarto onde ficam sozinhos no período de dilatação, com banheiro e chuveiro para ajudar a aguentar a dor, espaço para caminhar para acelerar a dilatação, eles animam a que os pais levem música para ajudar no relaxamento, também oferecem as bolas e TCHARAM! ... Têm piscina com água quente no paritório! Mas só para quem não quiser anestesia; coisa que não sei se vou agüentar.

Parto aquático na Maternidadede Torrejón, região metropolitana de Madrid


Achei super super legal saber que existem todas estas alternativas no sistema PÚBLICO de saúde aqui em Madrid! Lembrando: não são todos os hospitais públicos que seguem estas tendências, porém, SIM, existem alternativas para que o seu parto seja o mais próximo possível do que você gostaria. E ressalto que este sistema, estas alternativas, o respeito e a humanização no trato - seja do parto normal, natural ou de cesárea (que são diferentes e que, por definição, não são necessariamente "respeitados" ou "humanizados") - são válidos para todas, TODAS as mulheres que buscarem caminhos e alternativas aqui na Espanha. Para mim, esta é a grande diferença. No Brasil, só quem tem dinheiro ou um plano de saúde bacana tem acesso à um trato respeituoso... e mesmo assim, dentro de certos limites, porque, por exemplo, minha escolha de provar o parto natural, seria ignorado (ou motivo de risadas pelos médicos e pelo sistema)... Isso para mim é o mais bonito por aqui, todas as mulheres podem viver um parto com dignidade - seja natural ou cesárea. A violência obstétrica não é um problema tão grave quanto a que existe no BR, principalmente para as camadas mais pobres da população, que são a maioria.

Os parteiros sempre falam: "si la cosa se tuerce, buscamos las alternativas: el parto es dinámico". Todos temos isso bem claro: cada um tem um modelo mais ou menos claro na cabeça, mas sabemos que o melhor parto é aquele possível, que traz o seu filho ao mundo com saúde e amor. Ter alternativas e opções é importante e por isso estou feliz de ter meu filho aqui: pela tranquilidade de saber que temos muitos caminhos, que eu sei qual eu gostaria que fosse o meu, e que dentro do possível ele será respeitado e bonito.

Faltam 4 semanas :) Obrigada a todos os que nos acompanharam até aqui.


Mais Informação:


Quem estiver em Curitiba e quiser mais informações sobre o parto humanizado e respeitado, sugiro conhecer o Grupo UNA, o Blog Cientista que virou Mãe, o Grupo Infância Livre de Consumismo.

Aqui na Espanha, me apóio na associação El Parto es Nuestro, no movimento Crianza Natural - que tem um fórum excelente sobre todos os temas relacionados ao parto e no Grupo Genesis, que faz partos domiciliarios planejados e facilita muita info para as mamães curiosas e inquietas.


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A Caridade e a Justiça Social

"Mal vamos si nos acostumbramos a la caridad y no a la justicia."


Sempre digo que reclamamos das coisas erradas. Por exemplo: montar uma manifestação para pedir "paz" no Rio de Janeiro, é como ir para a rua pedir que as pessoas "votem consciente" num país de ignorantes. Como uma sociedade pode votar consciente se não tem acesso à educação? Como podemos pedir "Paz", assim, sem mais nem menos, se os policiais estão mal formados, mal pagados, mal educados, trabalham sem infra-estrutura e não têm o apoio de ninguém?

Nos assombramos com o Furacão Sandy nos Estados Unidos e ignoramos nossas próprias mazelas. Mentimos para nós mesmos e viramos a cara para a nossa realidade quando centenas - ou milhares - de pessoas morrem por causa das chuvas no nosso país. E não se trata de um furacão.... é sempre igual: no Brasil não pode nem chover. Se chove, morre gente.

Na minha cidade, Curitiba, cada chuva forte derruba árvores que fecham ruas, amassam carros, deixam casas sem eletricidade. Reclamamos, publicamos fotos no Facebook, lemos as repetitivas reportagens na Gazeta do Povo. Mas ninguém fala sobre as casas alagadas ou sobre as pessoas que perderam tudo, inclusive seus familiares, nos bairros afastados. Não nos importa a periferia, nem os pobres que morrem nos bairros suburbanos.

Essas criaturas da periferia só nos importam quando entram em nossos centros comerciais com suas roupas de mau gosto e seus perfumes de 15 reais. "O quê esta gente feia está fazendo aqui no nosso shopping?", nos perguntamos. "Deixem-nos em paz aqui no nosso aquário, na nossa bolha de vidro, comprando sapatos e colônias caras, que vocês nunca poderão ter."

Olhamos feio, viramos a cara, temos medo. Feios e pobres que matariam por um iPad... E nós, civilizados que somos, só pedimos PAZ.

Ligamos a TV e vemos a Regina Duarte e o Joãozinho 30 de mãos dadas e camiseta branca andando com uma bandeira, flores e velas, pela avenida de Copacabana, baixo o Cristo Redentor, pedindo PAZ. Vão acompanhados de milhares de pessoas. Cidadãos conscientes, votantes, artistas.. uma elite intelectual de primeira, que "luta pelo povo". Só que não.

Os brasileiros não vão pra rua pedir educação, pagamento digno para os professores, infra-estrutura nas escolas, salário decente para os policiais, nem hospitais públicos que funcionem bem com o dinheiro dos impostsos que pagamos. Dane-se o transporte público e seus usuários, os ciclistas e os pedestes. Que se ferrem e morram - os pobres e feios, que são os únicos que dependem dos serviços do Estado. Enquanto pudermos comprar carros novos, só o preço da gasolina nos importará. O preço da gasolina que sobe injustamente e nos transforma em vítimas de um sistema que nós mesmos criamos.
Mas deixa chover em Petrópolis! Deixa alagar tudo em SC! Deixa uma família "humilde" ir no Luciano Hulk pra ver quem não chora, quem não manda roupa e cesta básica pra ajudar... Quem não vai no Cotolengo dar uma mão no bingo? Todo mundo. Todo mundo faz caridade porque ninguém quer se sentir culpado. Afinal, os culpados são só os políticos, não é? Corruptos! Cadeia neles! - repetimos nos nossos discursos infames, na mesa dos bares, ou - mais recentemente - usando a internet.

Nós e nossa sociedade, a elite, os intelectuais, os que estudamos e nos preparamos pra sacar este país pra frente, só queremos paz. Até doamos nossa roupa usada e alguns kilos de alimentos para entrar em shows de rock de 700 reais. Mas que não venham nos falar dos outros, da justiça para as pessoas que estão do outro lado do muro e que só querem viver da teta do governo, sem saber nem escrever seu nome direito.

Por justiça a gente briga sim, mas pela nossa, pra quem está no mesmo patamar que a gente. E às vezes até pela dignidade dos mendigos... mas só se eles forem brancos, loiros, altos e de olhos claros. Lembram daquele mendigo-muso que apareceu na internet? Até na Espanha saiu a cara dele... Tem algumas coisas que não mudam de um país para outro... Mas pelo menos aqui, o povo vai para rua, pedindo pelo bem estar que é direito de todos.


Texto inspirado em uma coluna lida esta manhã no jornal El País.


Por Caridad

Cómo no te va a partir el corazón esa pobre mujer que acude a la tele pidiendo asistencia para un hijo enfermo; cómo no va a provocar compasión quien cuenta a cámara que no trabaja desde hace años, tantos, que ya se le pasó la edad de resultar atractivo a una empresa; cómo no conmoverse si a un programa acude toda una familia que muestra su desgracia como un último recurso de salvación antes de que todo se derrumbe definitivamente. Tras una primera reacción de empatía y comprensión, hay una segunda, de rabia, no relacionada con los que movidos por una situación angustiosa acuden donde sea, sino con los que supuestamente animados por la bondad les empujan a convertirse en protagonistas de espacios televisivos cuyo objetivo es mostrar la cara de la desgracia.
Los entrevistados suelen mostrarse tímidos al principio, pero el conductor del programa se las apaña para ir hurgando en la herida hasta que se derrumban y lloran, a veces delante de una criaturilla de cinco o seis años que, con la seriedad propia de los niños que presencian a diario cómo sus padres sufren, se arrima aún más a ellos para aliviar su dolor. Es entonces cuando el entrevistador anuncia que hay una llamada, la llamada de alguien que está dispuesto a socorrer al hambriento, ofrecer trabajo al parado o un tratamiento al hijo enfermo. Llegados a este punto, los pobres desgraciados lloran aún más, el público aplaude conmovido esas lágrimas y este cuento navideño de Andersen acaba con un final feliz. El presentador añade, "ya nos gustaría hacer esto por todo el mundo".
Mal vamos si nos acostumbramos a la caridad y no a la justicia. La solidaridad, lo saben los voluntarios, es un parche. Los parados quieren trabajar; los enfermos, ser atendidos; los sincasa, un techo. Pero no gracias a la piedad de los desconocidos, sino porque tienen derecho. Lo tienen.

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A água é grátis

Uma das coisas que eu acho mais legais por aqui é poder pedir água grátis nos bares e restaurantes: "Y un vasito de água, si puede ser"- qualquer pedido sempre vai acompanhado desta frase no final. Nem precisa dizer que é "água de grifo" (de torneira); eles sabem e te trazem a água bem fresquinha.

Sempre fui da opinião de que a água é um bem público, um recurso vital da natureza e que, tá, até podem cobrar por ela, mas pô, negar água é sacanagem, né? Este era um dos grandes temas das minhas longas conversas vagabundas com o meu amigo Lalau nas tardes de sol do JP, o bairro onde crescemos.

Aqui na Espanha os donos dos bares e restaurantes pensam assim. Quando a gente vai em mais pessoas pedimos até uma "jarra de água de grifo". É normal, ninguém faz cara feia e até trazem a jarra com gelinho dentro.

Isso sim, vale a pena avisar que a água de Madri é "uma das melhores do mundo" (por quê todo mundo fala que as suas coisas estão entre as "melhores do mundo"?), mas existem outras comunidades autônomas (estados) onde a água não é tão gostosa. Em Barcelona, por exemplo, tem muito cálcio e fica com um sabor meio salgado... mas é potável e a cultura do copinho grátis também predomina.

Já aconteceu até de eu nem estar no bar e entrar só pra pedir um copo d´água pro garçom. Pode parecer cara de pau, mas é algo normal... tá calor lá fora, você tá morrendo, a água é grátis... por quê não?

Sempre comento com os amigos-turistas que passam pra me visitar: não gastem dinheiro com água - como diz a publicidade do Canal Izabel II (empresa de abastecimento de água de Madrid - que por sinal, está sendo privadizada), a água é um bem de todos!


E para os que têm um bar aí no Brasil, ofereçam alguma coisa grátis para os seus clientes: água, azeitona ou batatinha. Aqui todo mundo faz isso e é algo bastante comum, que acaba estimulando que o pessoal consuma mais. Além disso, o pessoal vai sair do seu estabelecimento muito mais felizes!

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O taxista de Madri e seu presépio de natal

No táxi que me levava para a estação de trem de Atocha, o motorista me contava sobre o enorme 'Belén de Navidad' que ele monta todos os anos na sua casa em Madri.

- Mas o senhor continua usando o boi e a mula que o Papa disse pra tirar?
- Claro, minha filha... eu não sou 'creyente'.
- É só pela tradição então?
- Isso... O Natal é como um jogo, uma época pra gente brincar. Aliás, qualquer pessoa com o mínimo de instrução sabe que Deus não existe! Para mim, nem os padres nem os bispos acreditam em Deus. Eles são muito estudados e formados pra acreditarem nisso! São trabalhadores de uma empresa, simplesmente.
- Será? E por quê o senhor tem essa opinião?
- Simplesmente porque Deus não existe! - e uma encorpada gargalhada encheu o carro.

Ri com ele e lembrei de um texto que li na coluna da Eliane Brum, na Revista Época, que contava como ela tinha sido demonizada pelo taxista paulistano quando disse que era ateia (A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico).

Optei por escutá-lo falar e opinar sobre a importância do comércio natalino para o sistema capitalista no lugar de tentar contar para ele que eu sim acredito em Deus, que sou religiosa, mas que não gosto do Papa - nem do sistema.

Mas não deu tempo... a estação de Atocha era perto demais pra gente ficar amigo. Desci do táxi feliz; contente por saber que tem gente que pensa diferente e tem suficiente bom humor pra fazer a gente rir das divergências, ver que nas diferenças sempre existem similitudes e que delas, junto com as risadas, pode nascer a simpatia - um dos princípios da tolerância.

Fiquei feliz em conhecer o taxista que fala de religião e de educação, que é ateu e que foi gentil e risonho durante toda a viagem. Lembrei dos evangélicos e dos taxistas brasileiros....


*Belén de Navidad =  presépio

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Sorria (de verdade)! Você pode estar sendo filmado

Uma reclamação constante aqui em Madri é sobre a quantidade de câmeras de "segurança" que se multiplicam pelas ruas e demais espaços públicos da cidade.
Eu, particularmente, sou contra a presença delas e entendo que são uma invasão à nossa privacidade e ao nosso direito de ir e vir no anonimato (este grande prazer cada vez mais esquecido e menos valorizado entre os amantes da internet). Além disso, elas impõe a política do medo e do controle... Nada de segurança de verdade, só ilusória.

Avisos pelas ruas de Madri


Mas como ando grávida-sensível, compartilho com os não-leitores deste não-blog um vídeo lindo que encontrei no Facebook dozamigo. Fala sobre as coisas fofas que acontecem todos os dias nas ruas de qualquer cidade e conta um pouco da poesia da vida e da capacidade de sermos humanos, quando achamos que estamos em pleno anonimato.



Sometimes, security cameras catch something totally different




Tá, vai, é uma campanha da Coca-Cola. Mas publicidade também pode - e deve - ser bonitinha.
E danem-se as câmeras. Se elas existem, que seja para ver a nossa cara feliz.

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Brasil não é um país carioca

Aconteceu de novo.... A Presidente Dilma estava em Madri na semana passada e o Brasil voltou à capa de todos os jornais do país. Abrindo a app do El País online, lá estava: Brasil, el país carioca decide....

Grrr! Outra vez!
Quando eu trabalhava como jornalista em um grupo de comunicação que insistia em chamar o Brasil de "país carioca", eu escrevi um post no meu falecido blog que gerou certa repercussão entre meus companheiros, e rendeu um orgulhoso primeiro lugar no Google para quem procurava por"País carioca".

Ressuscito o texto porque acho interessante a gente saber o pouco que eles conhecem sobre o nosso país por aqui. É normal, claro. Sei que tem muita gente que acha que os espanhóis comem paella e tomam sangria todos os dias. Infelizmente isso não é verdade :)
Esse foi o grãozinho de areia que eu tentei somar à desmistificação do nosso país. O link para o post original está aqui. Foi o primeiro e único que escrevi em dois idiomas.
Espero que gostem.


Brasil no es un "país carioca"

Decir que Brasil es un "país carioca" es como decir que España es un "país flamenco" o un "país madrileño". O decir que Francia es un "país parisino".

O Brasil não é um "país carioca"
Levo algum tempo publicando tuits com a intenção de transmitir aos jornalistas espanhóis que o conceito de "país carioca" não existe. Com as eleições no Brasil, os meios de comunicação estão dedicando mais tempo e espaço ao gigante sul americano e pensei que este seria o momento de publicar um post detalhando un pouco melhor o assunto.
Sempre tuiteo que dizer que Brasil é um "país carioca" é o mesmo que dizer que Espanha é un "país flamenco" ou um "país madrilenho". Ou que França é um "país parisino".
É absurdo e sem sentido.
Brasil é um país brasileiro! E o Rio de Janeiro é una província carioca. Ou melhor, cariocas são os que nascem na cidade do Rio.
Nasci no Brasil, lá tenho o meu coração e não, não sou carioca.
Aliás: sou brasileira e prefiro o whisky à caipirinha, o blues ao samba e as botas às havaianas. Não somos todos iguais... assim que por favor, não nos tratem como se fôssemos todos membros de uma escola de samba. O Brasil é muito mais do que isso. Com o bom e com o ruim, mas não generalizem.
Minha cidade vê mais nuvens e chuva do que sol. Não temos praia, não temos Carnaval e somos bastante conservadores. Sou de Curitiba, uma cidade que está ao sul do Brasil. Mais perto do Paraguai, da Argentina e do Uruguai do que do Rio. Dizemos "guria" (como os uruguaios) e não "garota" (como os cariocas).
Entre o nosso universo e o universo carioca existem tantas diferenças quanto entre a cultura da Andalucía e do País Vasco. Acredito que os espanhóis são os que melhor podem entender o que quero dizer, e os entendo perfeitamente quando se molestam com a caricatura de que eles são toreiros e sevilhanas dançando flamenco e tomando sangria pela rua... Então, vamos aprender juntos. Assim podemos crescer como "culturas maravilhosas" que somos. Por favor, deixem de nos chamar "cariocas". Somos bem mais do que isso. Somos 200.000.000 de pessoas - todas diferentes.
Curitiba - Paraná - Brasil

 Llevo tiempo publicando tuits con la intención de transmitir a los periodistas españoles que el concepto de "país carioca" no existe. Pero con las elecciones en Brasil, los medios están dedicando más tiempo y espacio para el gigante sudamericano, así que pensé que era el momento de publicar un post aclarando un poco mejor el tema.
Siempre tuiteo que decir que Brasil es un "país carioca" es como decir que España es un "país flamenco" o un "país madrileño". O que Francia es un "país parisino".
Es absurdo y no tiene ningún sentido.
¡Brasil es un país brasileño! Y Río de Janeiro es una ciudad carioca. De hecho, cariocas son los que nacen en la ciudad de Río.
Nací en Brasil, ahí tengo mi corazón y no, no soy carioca.
Por cierto: soy brasileira y prefiero el whisky a la caipirinha, el blues a la samba y las botas a las havaianas. No somos todos iguales... así que por favor, no nos tratéis como si así fuera. Brasil es mucho más que esto. Con lo bueno y lo malo, pero no generalicéis.
Mi ciudad ve más las nubes y la lluvia que el sol. No tenemos playa, no tenemos Carnaval y somos bastante conservadores. Soy de Curitiba. Una ciudad estupenda que está al sur de Brasil. Más cerca de Paraguay, de Argentina y de Uruguay que de Río. Entre nuestro universo y el carioca existen tantas diferencias cuanto la cultura andaluza y la cultura vasca. Creo que los españoles sois los que mejor pueden entender lo que quiero decir yyo os entiendo perfectamente cuando os enfadáis con la caricatura de que los españoles son toreros y sevillanas bailando flamenco y tomando sangría que se ha creado por ahí... Así que aprendamos entre nosotros, y crezcamos como culturas únicas e maravillosas que somos; respetándonos siempre.



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... e daí a menina disse: "é que a minha namorada"...

Ontem eu estava aqui trabalhando enquanto o pessoal combinava de sair. Daí meu chefe disse pra menina nova: "você vem, né?". Ela disse que não podia. Como ele insistiu, ela respondeu educadamente: "é que eu e a minha namorada temos um compromisso neste fim de semana".

Meu chefe é meio certinho e sei que ficou chocado, mas não disse nada. Só cometou comigo depois:  "você viu?" e deu uma risadinha meio nervosa. Eu respondi pra ele que achei muito legal: "o que você queria, que ela mentisse?".

Na verdade, eu fiquei muito orgulhosa. Pela menina, pela namorada dela, pela minha empresa, e por saber que uma sociedade pode chegar a ser tão civilizada.

Um aplauso para todos.

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Culturas?


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Eu não quero ter carro


A subida de preço da gasolina em Curitiba teve mais repercusão nas redes sociais do que a chegada do calor "insuportável" de 30º (!) na cidade sorriso.

Como decidi parar de reclamar no Facebook - para ser um pouco diferente das pessoas comuns -, transferi minha frustração-expatriada para este blog, onde comentarei com os meus caros não-leitores, o quê eu penso sobre o tal assunto:

... válido é reclamar da falta de qualidade do transporte público da cidade em vez de queixar-se do preço da gasolina.

Lembrem que o transporte público é público e exigir melhoras ao Estado é um direito (eu diria até mesmo "dever") do cidadão. O posto de gasolina é uma entidade privada de algum cara que quer ficar rico às custas de um Governo que não faz bem o seu trabalho. O posto não tem nenhuma razão para cobrar um preço justo pelo seu produto ou serviço.

É claro que você pode fazer uma reclamação no Procon.. mas você sempre vai ser vítima de um empresário oportunista - nenhum Procon pode nos salvar disso.

O sistema público sempre será público, e nosso. É a diferença entre "público" e "privado". Só por isso deveríamos nos apropriar dele para sempre - ou pelo menos enquanto somos obrigados a pagar os impostos que mantém - ou deveriam manter - estes serviços vivos.


Das coisas que mais gosto de morar aqui desse lado do mundo é de ter a opção de não ter um carro. Reforço: não tê-lo como uma opção e não por falta dela. E isso só acontece porque os cidadãos espanhóis exigem os seus direitos e fazem com que os políticos cumpram os seus deveres.

Bem mais simples do que exigir que o dono do posto te venda gasolina barata. Não deveria ser?

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Que não decidam por você

Este post é um comentário que eu pensei em escrever numa publicação feita no Facebook pelo jornal Gazeta do Povo. Trata-se de um editorial sobre a situação do direito ao aborto no Brasil.
Preferi não publicar o meu pensamento na publicação da Gazeta para me privar dos comentários preconceituosos que poderiam chover na maior rede social do mundo - que também é o maior reservatório de bobos de todo o planeta.
Aqui estão as 10 linhas sobre a minha opinião e experiência pessoal com o tema aqui na Espanha (o editorial da Gazeta vem logo abaixo).


"Na minha opinião a mulher deve ter o direito a decidir. Moro na Espanha há 5 anos, estou grávida de 4 meses e através do sistema público de saúde me fizeram todos os testes para saber se o meu neném tem síndrome de down ou de edwards. São exames que não são feitos nem sequer pelo sistema privado (ou planos de saúde) aí no Brasil. Conversei com médicos em Curitiba que me explicaram que se trata de "exames muito caros" e que por isso normalmente não se realizam.
Caso essas provas dessem positivo eu teria o direito de escolher. Teria o direito de fazer um aborto "gratuito", ou seja, pago pelo sistema público de saúde espanhol - isto sim, até a 21ª semana de gestação. Também teria o direito de seguir com a gravidez se assim eu e meu companheiro desejássemos.
Isso significa que eu teria direitos. Eu escolheria e poderia decidir- como mãe, mulher e cidadã -  o meu futuro e o futuro do meu bebê.
De todas as formas, fico feliz com a notícia que motivou a Gazeta a escrever este editorial - uma prova de que evoluímos como sociedade democrática - apesar da postura tão conservadora deste meio de comunicação."

Aqui está o tal editorial da Gazeta do Povo


A Eugenia avança:
Um novo retrocesso no reconhecimento da dignidade humana dos não nascidos foi dado no fim de agosto, quando o Tribunal de Justiça de São Paulo autorizou que uma jovem realize o aborto de um feto de 16 semanas. A criança não foi concebida em um estupro, nem é anencéfala: ela sofre de síndrome de Edwards, doença causada pela existência de um cromossomo extra e que provoca uma série de problemas de saúde para o portador; apenas uma minoria dos bebês com esse problema chega a nascer com vida; desses, 90% morrem ainda no primeiro ano.
A solicitação de aborto havia sido acertadamente recusada na primeira instância, mas o caso foi levado ao TJ-SP, onde o desembargador Ricardo Tucanduva concedeu a liminar permitindo a eliminação da criança, pois a jovem alegava que a continuação da gravidez colocaria a vida da gestante em risco – uma alegação no mínimo controversa, tratando-se de gestações de filhos com síndrome de Edwards. O desembargador justificou sua decisão afirmando que o artigo 128 do Código Penal, que trata do crime de aborto, deveria ser interpretado com “flexibilidade” por estar em vigor há cerca de sete décadas.
Diante da falta de literatura médica (atestada inclusive pelo Instituto Nacional de Saúde norte-americano) que comprove a ligação entre a doença no feto e o risco de vida para a mãe durante a gravidez, resta a forte suspeita de que a motivação para o aborto seria mesmo a própria doença da criança, e não possíveis ameaças à integridade física da jovem – até mesmo porque, em caso de risco de vida para a mãe, a autorização judicial nem seria necessária. Um caso semelhante já havia ocorrido em Goiás, no ano passado, com uma gestante de 41 anos que também recebeu permissão para abortar após o diagnóstico de que seu filho tinha a síndrome de Edwards. É assustador perceber que, mesmo sem haver certeza absoluta sobre a ameaça à vida da mãe, nos dois casos decidiu-se pela eliminação da criança.
Também percebe-se que, apesar de o artigo 128 do Código Penal não ter sofrido alterações no Congresso Nacional, o Poder Judiciário vem tomando para si a atribuição de legislar sobre o tema, abrindo brechas no sentido de tornar a legislação cada vez mais permissiva. Com a ADPF 54, julgada no início de 2012, o aborto de anencéfalos passou a ser aceito; agora, eliminam-se crianças com outras anomalias genéticas graves; a julgar pelo ritmo de aceitação da eugenia intrauterina, é possível imaginar um futuro no qual passe a ser legal negar o direito à vida de crianças diagnosticadas com outras doenças e deficiências menos graves.
Na realidade, a perspectiva pode ser ainda pior, pois a proposta de reforma do Código Penal em avaliação atualmente no Senado prevê a liberação do aborto, em qualquer momento da gestação, nos casos em que a legislação atual já não pune a prática, com o acréscimo de situações em que o feto padeça de “incuráveis anomalias que inviabilizem a vida extrauterina”; e, até a 12.ª semana de gestação, o aborto ficaria liberado “quando o médico ou psicólogo constatar que a mulher não apresenta condições psicológicas de arcar com a maternidade” – critérios puramente subjetivos e que, na prática, dão margem à legalização ampla da eliminação de nascituros. Em entrevista ao canal Globo News no início de setembro, o procurador Luiz Carlos Gonçalves, coordenador da comissão de juristas que elaborou o projeto de reforma do Código Penal, admitiu abertamente seu orgulho – e o de seus pares – em propor a legalização do aborto em termos tão amplos.
Além disso, segundo a proposta de Código Penal, nos casos em que a prática continua sendo crime, a pena deverá variar de seis meses a dois anos de prisão, contra os dois a quatro anos da legislação atual. Crimes ambientais contra animais silvestres ou de laboratório, no entanto, seriam punidos com prisão de dois a quatro anos. Uma legislação em que eliminar seres humanos ainda por nascer é uma falta considerada menos grave que a destruição de um ninho de pássaros revela, na melhor das hipóteses, uma falta de critério assombrosa – ou, na pior delas, um desprezo deliberado pela vida humana.
É fundamental que o Congresso rejeite a proposta de legalização do aborto feita pelos juristas coordenados por Gonçalves, e ao mesmo tempo também é urgente que o Poder Judiciário deixe de promover a eugenia e esticar a lei atual para além dos limites de sua interpretação. A vida dos seres humanos mais inocentes e indefesos precisa é de mais proteção, e não de novas ameaças movidas por uma mentalidade que só reserva o direito à vida aos “perfeitos” e “desejados”.

Quem quiser o link para o texto original, está aqui.


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A livraria de livros grátis

Este post poderia ser publicado num desses sites sobre boas notícias. Porém, eu prefiro tratá-lo a partir do ponto de vista do acesso à cultura, pois uma livraria que oferece livros grátis não é apenas uma boa notícia, mas um projeto baseado em uma filosofia consciente e coerente com o que já foi a política cultural da Espanha. Utilizo o verbo no passado (foi) porque um dia chegou a crise, e com ela os políticos de direita e os recortes sociais.

Mas tudo bem. Mesmo que falem que os espanhóis são preguiçosos, eu acho que eles reagem muito bem à atual política, que se dedica a ir matando a melhor parte deste país: a igualdade - no acesso à informação, saúde, cultura, educação... Esses espanhóis, que organizam manifestações multitudinárias (só em Madrid já foram mais de 2 mil neste ano) contra cada recorte e mudança nas leis trabalhistas, também empreendem. A própria sociedade começa a realizar mudanças que o Estado já não é capaz de oferecer.

A ONG espanhola Grupo 2013 juntava livros para enviar à América Latina, quando conheceu uma livraria gratuita nos Estados Unidos: The Book Thing of Baltimore. E em Madrid nasceu a "Libros Libres" - livraria onde qualquer pessoa pode "comprar" quantos livros grátis quiser.

Grátis e com sofá. O confortável mundo dos Libros Libres, no bairro de Chamberí, em Madri. FONTE: Clarin.com

Mas como assim?

A Libros Libres recebe uma média de 50 doações por dia. Além disso, algumas editora souberam do projeto e doaram exemplares novos. Segundo os responsáveis, a livraria tem entre 5 e 10 mil livros disponíveis no local, além das diversas caixas no depósito.

Para que o projeto seja sustentável a ONG conta com sócios que pagam 12 euros por ano e podem alugar filmes por 1 euro - ou comprá-los por 2. Mas paga quem puder, quanto e quando quiser, "o acesso sempre está aberto para quem necessite", dizem os responsáveis.


Parece sonho?

Com essa grana a ONG paga os 400 euros de aluguel do espaço em Madri, além do salário de quem trabalha nos finais de semana. Nos demais dias, o público é atendido por voluntários e livreiros do Grupo 2013.



Só pra constar:

A ONG calculou que para se manter durante o ano de 2013, precisava de 365 sócios até o final de 2012. Em 20 dias a Libros Libres chegou a 155: "muitos sócios nos doam mais do que os 12 euros", explicam.

A livraria conta com novelas, poesia, obras de teatro, literatura infantil e juvenil, catálogos de arte, fotografia, filosofia, política e textos jurídicos em perfeito estado.

Pra quem não sabe, a Espanha está atravessando a maior crise econômica da sua democracia: 50% dos jovens estão desempregados e o total do desemprego no país ultrapassa os 20%.

"Trata-se de uma receita para a crise: que as pessoas continuem lendo e que se forme um povo intelectual", dizem os responsáveis pela ONG.



Estado pra quê, né? Se os ativistas fazem coisas muito mais legais!


Mais posts:

O acesso à Internet na Espanha


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Os desconhecidos

Uma das coisas que eu mais gostei quando vim morar aqui, foi de me sentir uma desconhecida. Escutava a canção do Dylan, Like a Rolling Stone e cantava bem alto a parte que dizia: How does it feel, to be without a home, like a complete unknown, like a rolling stone?

Essa fase já passou. São 5 anos, trabalhei muito e conheci muitas pessoas.
Tive a oportunidade de me inventar e de criar a minha história. Aqui ninguém nunca me tratou diferente por eu ser filha, prima ou neta de alguém. Além do mais, o conceito de "classes sociais" é bem diferente do que estamos acostumados no Brasil, o que faz com que tenhamos mais valor como pessoas, definitivamente.

Me senti livre.
Livre não só para ser quem eu queria, sem ninguém me dizendo o quê era certo ou errado, mas também para me rodear das pessoas que gostavam de mim do jeito que eu era.

Lembro quando fui me despedir da tia Neusa, minha sábia tia-avó que em 2007 já somava mais de 90 anos de idade:
- Como você está, filha? Animada?
- Estou um pouco assustada, tia... Com um pouco de medo.
- Medo? Medo do quê?
- Medo de que não gostem de mim, de ficar sozinha, de não ter amigos.
- Pois então, faça-se gostar. 
 A tia Neusa abriu um sorriso que nunca esqueci e todo o medo foi embora.

Toda essa liberdade  me serviu para falar com quem eu quisesse, quando quisesse e como quisesse. Fiz amigos em barra de bar, na casa de outros amigos, no ônibus e na Internet.

Hoje li o post que a Bruna Castro escreveu no seu Abra a Janela: Converse com estranhos. Me fez pensar em todas as pessoas que eu conheci viajando dentro de um ônibus, comendo um sanduiche no parque ou pegando um avião. Fiz amigos, troquei confidências, dei beijo na boca em gente que nunca mais vi. Sempre aprendi muito com cada uma delas. Teve um cara que me deu uma ideia pra escrever um livro, outro que acabou me ajudando a conseguir o visto de estudantes que me permitiu estar aqui e gente que me fez entender o que é, realmente, sofrer preconceito por ser diferente.

Também tem os chatos: os inquisitores, os que falam sem parar, os que opinam demais sobre a sua vida. Nos dias em que eu tô curtindo o mau humor, sempre lembro deles e tento não falar com ninguém. Ou falo em outra língua, fingindo que sou de um país que eles não são e que por isso não podemos nos entender.

Numa dessas vezes, eu estava no avião indo pro Brasil e me sentei naqueles bancos gigantes do meio, que todo mundo odeia. Vi que todos os nipo-paulistas que estavam ao meu redor eram viajantes de primeira viagem e que me perguntariam de tudo.. desde se pollo é frango até como mudar o canal da televisãozinha do banco. Me fiz de gringa, ignorei as vovós fofinhas, respondi em espanhol pra aeromoça que falava em portugués e dormi. Dormi pesado e acordei com aquela linda senhorinha com olhos orientais e olhar brasileiro arrumando a coberta para tapar melhor minhas costas.
Sorri.
Me envergonhei. Me senti uma idiota! Nem podia dizer "obrigada".

Me dei conta de que nenhum mau humor é razão suficiente para perder a oportunidade de conhecer a uma grande pessoa - dessas que dão sentido às palavras do poeta que eu tanto gostava quando tinha 17 anos: "A vida é a arte do encontro, embora exista tanto desencontro pela vida".

E brindo os desconhecidos! Seres maravilhosos que dão asas à minha liberdade de ser quem eu mesma quero ser, sem rótulos nem embalagens.

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El regreso de Daisy

Que bom é encontrar pessoas que pensam como você e sabem como explicá-lo melhor.
Um copy + paste de um artigo, publicado no El País, por Carla Guimarães - uma escritora baiana muito madrilenha que conheci em uma cafeteria da rua Fuencarral.


El regreso de Daisy

Se fue de Brasil por la falta de oportunidades. En España empieza a pasar lo mismo


Hace un par de meses mi amiga Daisy tuvo una cita muy importante. Como si de un truco de magia se tratara, entró en el registro de la Calle Pradillo de Madrid como brasileña y salió como española. ¡Tachaaaan! Parece fácil, pero es un truco muy complicado. Fueron demasiados los años de espera para tener los mismos derechos que un ciudadano que nació aquí, a pesar de tener, desde hace mucho, las mismas responsabilidades. Minutos después de jurar fidelidad al Rey y a la Constitución, mientras miraba el noticiero de la tele tomándose un café en un bar cerca del registro, Daisy se percató de algo que la dejó sin palabras.
Cuando llegó a Madrid, fueron muchas las cosas que llamaron la atención de Daisy: la manera como la gente hablaba, muy alto y de forma muy directa, lo mucho que fumaban, hasta en los ascensores y en el metro, lo fuerte que sabía el café, incluso si lo pedías con leche, la inmensa cantidad de bares, casi todos con el suelo repleto de servilletas, huesos de aceitunas y colillas, y lo tímidos que eran los hombres, que tardaban siglos en ligar. Antes de venir, había visto la película Ay Carmela e imaginaba al hombre español como el soldado republicano que aparecía al principio de la cinta, preguntando a Carmela si podía calentarse las manos en su escote. Le encantó el descaro del soldado, influido seguramente por la soledad de la guerra o la ginebra. Los hombres que Daisy conoció tardaban tanto en dar el primer paso, que ella misma tenía que preguntarles si les apetecía calentarse las manos. En eso, todo hay que decirlo, los brasileños son más rápidos y ya vienen con las manos calientes.
Después de esta primera impresión, donde asentamos la mirada en las diferencias cotidianas y las hacemos mayores de lo que realmente son, poco a poco, Daisy empezó a darse cuenta de lo que era realmente diferente, y a apreciarlo. Por ejemplo: la inmensa clase media española, y esa sensación de que aquí las diferencias sociales no son tan grandes. La primera vez que llamó un fontanero a su casa y él la trató de igual a igual, Daisy se quedó anonadada. En Brasil no era así, el clasismo imperaba. Aquí casi todos se trataban de tú a tú, y eso significa algo más que el simple uso o desuso de ciertos pronombres personales. Otra cosa que le impresionó a Daisy fue el sistema público de salud. Hace no mucho tuvo que ser operada dos veces por una hernia. En Brasil, Daisy jamás confió en la salud pública, y la privada, después de dos cirugías y varios días hospitalizada, sangraría de tal manera su cuenta bancaria que su mejor opción sería morir en la mesa de operaciones. Pero lo que más le chocaba, sin embargo, era la sensación de seguridad. Que cualquier latinoamericano me corrija si me equivoco, pero eso de regresar a casa de madrugada caminando por las calles y que no te pase nada… Eso es un lujo. No está pagado con dinero. Bueno, sí lo está. Esto ocurre en España justamente porque la gente tiene una mejor división del dinero, no hay tanto en manos de tan pocos como pasa en Brasil.
También es cierto que Brasil cambió mucho en esos años. 30 millones de brasileños salieron de la pobreza, el país pasó de deudor a acreedor del Fondo Monetario Internacional y es actualmente la sexta economía mundial. Daisy nunca tuvo ínfulas nacionalistas, sino todo lo contrario. Consideraba el nacionalismo como algo negativo, que impedía a los brasileños ver el país como realmente era. Pero estaba claro para ella que las políticas sociales de los últimos gobiernos le permitieron volver a tener orgullo de un Brasil que la desterró por falta de oportunidades. Por eso, mientras veía el catastrófico noticiero de la tele española en el bar cerca del registro, Daisy pensó en Brasil y en España, en cómo han cambiado las cosas estos últimos años. Y encontró un símil entre los dos. Algo que le aterrorizó.
Hace 12 años, Daisy se fue de un país en crisis, gobernado por neoliberales que priorizaban las medidas económicas por encima de las sociales y que creían en un desarrollo dependiente de los países más ricos de la zona. Un país que llevaba a cabo una fuerte política de privatizaciones y que consideraba las inversiones en salud y educación como meros gastos públicos. Se creía y se decía que la administración privada sería más eficaz que la pública. Sin embargo, la misión de cualquier empresa privada es obtener beneficios, lo que en demasiadas ocasiones prevalecía sobre el bienestar de los ciudadanos. Daisy se fue de un país que ya no creía en su clase política y donde la corrupción imperaba impunemente, ya que muchos de los procesos judiciales a los corruptos, como se decía en Brasil: terminaban “en pizza”. Algo termina en pizza cuando se habla mucho, no se llega a ninguna parte y después, ya cansados, los interlocutores piden una pizza. Durante mucho tiempo Daisy creyó que el propio Brasil terminaría en pizza, y justamente por eso partió. Se fue de un país que no juzgó los crímenes cometidos durante la dictadura, dejando impunes las torturas y asesinatos sufridos por más de 20.000 presos políticos. Un país cuya ya escasa clase media desaparecía, absorbida por una galopante crisis social. Un país cuyo gran triunfo nacional era ganar mundiales de fútbol.

Se fue de un país en crisis, donde los  neoliberales  priorizaban las medidas económicas por encima de las sociales
De alguna manera, y sin saber muy bien cómo, al aceptar la nacionalidad española, Daisy pensó que estaba regresando a este mismo país.
Carla Guimarães es escritora, guionista de televisión y de cine.

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Resgatados pela Eurocopa

Mais do que crise ou recessão, as palavras do momento por aqui são "Resgate Económico". 
Rapidamente: o sistema bancário espanhol foi resgatado pelo Eurogrupo, com um financiamento em forma de empréstimo de €100 bilhões. A partir de agora, a Espanha está baixo supervisão, não só da Comunidade Européia, mas também do FMI. Deixamos de ser um país soberano, pelo menos economicamente e teremos que prestar contas periódicas à Comunidade Européia (recomendo o Blog da Karla Mendes, no Estadão).

Tudo isso aconteceu neste final de semana: o rumor apareceu na sexta-feira, apenas uma semana depois do presidente Mariano Rajoy garantir a todos os espanhóis, pela televisão, que a Espanha não seria resgatada. No sábado de manhã o Ministro da Economia deu uma coletiva de imprensa confirmando que tínhamos aceitado a "ajuda econômica oferecida pela Comunidade Européia". Luis de Guindos não utilizou a palavra "resgate" e insistiu - em outra palavras - que a Espanha tinha tido "muita sorte", já que a Comunidade Européia fez uma oferta irrecusável para apoiar a nossa economia. De Guindos também disse que Rajoy não falaria com a imprensa, pois o presidente estava viajando à Polônia para ver a estreia da Espanha na Eurocopa. Em plana crise. No meio do que muitos jornalistas chamaram de pior momento económico do país desde a Transição pós-Franco.

Claro que isso gerou histeria coletiva e o presidente teve que voltar láááááá da Polônia pra dar uma entrevista e uma explicação aos espanhóis. Depois, Rajoy voltou à Polônia para, como a maioria dos espanhóis, ver a Seleção Espanhola empatar com a Itália.

A teoria da conspiração diz que tudo já estava planejado. Eles já tinham calculado tudo minuciosamente e o anuncio foi feito, de propósito, um dia antes do começo da Eurocopa. Com isso, eles abafariam o caso e desviariam a atenção da população.

 


 No sábado, muitas pessoas ficaram horrorizadas com a palavra "resgate". No domingo tinha fila pra comprar jornais na banca. Lá pelas 16hs desse mesmo domingo, pouco tempo depois da declaração do Rajoy, a maioria das pessoas esqueceu toda a história que eu contei e foram para os bares e praças, vestidos de vermelho, com a cara pintada e a bandeira em mãos, no auge do seu patriotismo, para gritar: "Yo soy español, español, español" - algo como "eu sou brasileiro, com muito orgulho..."
Lembrei do Brasil. Vi todo aquele espetáculo com tristeza. Me uni à teoria da conspiração. Lembrei do Julian Irusta. Pensei nas grandes manifestações populares que vivi na Espanha e me perguntei se todos aqueles ativistas também tinham se esquecido do restate económico e da política. Torci pela Espanha e pensei que não podemos estar condicionados pelos governantes, que o povo é soberano e merece seu divertimento. Entendi que esta é a desculpa que usamos para nós mesmos.... E que tem coisas que não mudam entre um país e outro.

Fonte: Pinterest do Julian

Esta semana vi no Facebook de algum amigo a imagem que publico no final deste post - e dei "like". Vi a publicidade da Coca-Cola na TV e me pareceu de péssimo gosto. Fiquei indignada, fiz um discurso demagógico na mesa do almoço, perdi o apetite e dei piti - apenas poucos minutos antes de começar os Simpsons e da gente tomar nossa anestesia diária de risada. E logo pensei: merecemos.






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