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Grávida em Madrid

Em outras oportunidades eu já escrevi e comentei sobre a minha positiva experiência com o sistema de saúde público espanhol. Nestes 6 anos de vida aqui, conversando com as mais diversas pessoas, entendi que "el público es mejor que el privado".
Tem gente que tem plano de saúde, mas pelo que elas me falaram o utilizam mais para exames e consultas de rotina, devido à praticidade e comodidade no atendimento. "Pero si es algo más grave, al público, directamente. Es mucho mejor".

Para mim, tão brasileira que sou, foi difícil de entender. Mas a analogia "universidade federal x universidade particular" que conheci lá em Curitiba, fez tudo ficar mais claro. É lógico: o público dá melhores condições de trabalho para os profissionais - logo é o sistema que concentra os melhores médicos. O investimento em I+D é grande e a infra-estrutura é boa. Portanto, público melhor que privado. Faz sentido.

Isso aprendi há uns 2 anos, mas agora com a crise, as coisas estão mudando. O novo partido político que está no governo quer privatizar a "sanidad", os médicos estão fazendo muitas greves, demora um pouco mais pra conseguir uma consulta, alguns centros estão fechados por corte de gastos e o investimento em I+D quase não existe. Mas, mesmo assim, todos dizem que o público ainda é superior e que as consequências reais desta crise, notaremos dentro de 2 ou 3 anos. E eu preferi acreditar, até porque, dentro de 1 mês eu dou a luz e vai ser tudo pelo público - como (quase) todo mundo faz.

Uma grávida amateur

Estou grávida há 8 meses e desde então, começou minha nova aventura pelo sistema de saúde espanhol e pelo desconhecido mundo da maternidade.

35 semanas, vulgo 8 meses de barriga. O tempo passa voando.


De imediato, percebi mil coisas e experiências que poderia contar para as pessoas que sempre me perguntam como são as coisas por aqui. São muitas as diferencas no próprio sistema, na eficiência, na infra-estrutura e no tratamento, por exemplo. Mas para mim, o mais emocionante está sendo descobrir e conhecer o universo do parto em si, através do acesso à informação que o próprio sistema oferece aos papais.

É verdade que, comparando com países mais desenvolvidos como a Holanda, por exemplo, aqui o sistema para os partos ainda é bastante imperfeito e falta muito para que se aproxime ao recomendado pela Organização Mundial da Saúde e pela UNICEF. Segundo números de referência, a Espanha ainda está por cima do recomendado na média de cesáreas realizadas e de partos intervenidos.

Na Holanda, o parto em casa é um direito coberto pela Saúde Pública, e opção mais normal e praticada pela sociedade


Porém, para as minhas referências trazidas do Brasil, a Espanha está em um futuro distante, muito melhor do que tudo o quê conheci no meu país, e mais legal do que jamais poderia imaginar..

 

A história prévia da grávida em Madrid


Lembro de quando eu era mais jovem e perguntava para as mamães se os seus partos tinham sido normais ou cesárea. Quando respondiam "cesárea", sempre questionava "por quê?", tentando entender o quê teria ter acontecido... O fato é que eu sempre tive horror à cesariana, pelo próprio medo que tenho aos hospitais e médicos em si. Medo! pensar em uma agulha me bloqueia e aterroriza. Então, essa história de que mais de 80% dos partos brasileiros sejam feitos baixo intervenção cirúrgica sempre me pareceu uma aberração, porque fica claro que a grande maioria deles não eram realmente necessário. E me dava medo: vai que eu não posso escolher... Vai que me dizem que tem que ser cesárea e a coisa não é bem assim... Medo, meu medo, e falta de confiança nos médicos, que, em muitos casos estão mais preocupados com o seu conforto do que com as opções da mamãe e do bebê.

Quando eu e o Alberto decidimos ter um filho, fomos bem impulsivos. Não debatemos e nem pensamos muito. Nos olhamos nos olhos, conversamos 5 minutos e nos perguntamos: tem certeza? e assumimos o desafio. O Théo demorou pouco para nos surpreender e nem sequer nos deu tempo de planejar o futuro, de pensar onde ou como seriam as coisas, se ele nasceria no Brasil ou na Espanha. Tudo isso a gente foi pensando ao longo da gestação. Somos jovens e livres, poderíamos tomar qualquer decisão e eu acho que ter o nosso filho na Espanha foi a melhor entre todas elas.

Aqui, com toda essa chuva de informações, a experiência do parto em si se tornou algo realmente importante para mim, a gravidez tem sido uma etapa especial, e eu acho que para a viver tudo isso, este país supre melhor as minhas necessidades do que o Brasil. Aqui, além de informação aberta eu tenho liberdade de escolha.. e sei que ela será respeitada, dentro do possível. Sei que se tiverem que me fazer uma cesárea, ela vai acontecer, mas só se for por necessidade. E logicamente estamos abertos à ela, ao fórceps e à anestesia :)
(vai, só estamos comparando diferenças)

Amateur, na España e ¡solita!


Eu estou encantada com, por exemplo, o acompanhamento da gravidez. As consultas com o obstetra são rápidas e muito práticas. Falamos sobre exames, resultados e datas. As dúvidas, sentimentos e o acompanhamento mais pessoal é feito com a "matrona" - a famosa "parteira". Inclusive é a parteira quem faz o parto: ela sozinha... ou ela com outra matrona.

Explico: aqui muitos hospitais já seguem a tendência da OMS de que os partos sejam o mais natural e o menos instrumentalizados possível, portanto não é necessário que um médico entre na sala de parto... Claro que os ginecologistas estão ali do lado, assim como a UTI pré-natal e toda a infra-estrutura e pessoal necessários... mas a filosofia do parto é diferente. O parto é da mulher e cada uma terá a oportunidade de vivê-lo como prefira - sempre que tudo corra bem e não seja necessária nenhuma intervenção... E por isso a informação é tão importante. Além do mais, as cesáreas não são "escolhíveis"... em alguns hospitais privados, às vezes pode ser que sim. Repito: em alguns hospitais privados - às vezes e pode ser que sim. Mas no geral: cesárea = necessidade ou casos especiais. É uma exceção e todo mundo deixa bem claro de que se trata de uma cirurgia...Não é visto nem como normal e nem como algo natural, nem pelos médicos, nem pela sociedade. Um UFA! bem grande para mim, que tenho absoluto pavor à facas e agulhas (tanto que estive a ponto de optar por um parto planejado em casa, mas acabei desistindo porque é caríssimo... e vai, o Alberto não queria concordar).

Partindo da filosofia de conversas diretamente com as parteiras, se valorizam as dúvidas, sentimentos, medos e preocupações da mamãe e do papai... muito mais do que a parte médica em si. Além disso, o SUS oferece cursos de pré-parto para os casais. Eu e o Alberto estamos fazendo e está sendo muito legal e tranquilizador! Todas as semanas temos uma hora de ginástica para grávidas e uma hora de aula teórica, em que nos explicam os tipos de parto que podemos ter, se queremos mais natural, com ou sem anestesia, quais são os seus efeitos, detalhes sobre a oxitocina artificial, a instrumentalização do parto, os casos que podem levar à cesárea, etc... Também explicam sobre contrações, dilatação, respiração, lactância, como cuidar do bebê nos primeiros dias, o umbigo que cai, troca de fralda, paternidade - hahaha - etc... Tenham em conta que nós somos "primerizos" (ou seja: A-MA-DO-RES) e estamos aqui sozinhos! Toda essa informação é extremamente valiosa para os dois.

¡El parto es nuestro!


Tudo isso me ajudou a decidir sobre que tipo de parto eu gostaria de ter, de maneira consciente, pensada e baseada em informações. Conversei com minha matrona e ela me recomendou visitar 2 ou 3 hospitais públicos para conhecer as suas filosofias e ver qual delas mais se aproxima à minha. Além disso, te recomendam fazer um "Plano de Parto", que é um documento oficial do Ministério da Saúde onde vc descreve as opções que você gostaria que fossem respeitadas no seu parto: métodos anestésicos, libertade de movimento durante a dilatação e o expulsório, se vc quer ou não dar o peito depois do nenem nascer, episiotomia, se vc quer poder beber e comer durante a fase prévia, etc... Tudo isso é levado em conta na hora do ingresso no hospital e será respeitado dentro do possível durante o seu parto.

Estivemos no XII de Octubre, hospital de referência na Espanha; um dos primeiros à seguir as recomendações da OMS de que o parto seja o mais natural e menos instrumentalizado possível.

Vimos muitas coisas legais e achamos que pode ser uma boa opção. Pra quem quer saber porquê: Eles foram os primeiros em Madrid a ganhar um prêmio da Unicef por estímulo à lactância: o neném sai de dentro de você e vai diretamente para a sua barriga. Eles esperam o cordão umbilical terminar de latir antes de cortar para que seja menos traumático possível para o pequeno. Daí o baby vai direto para o peito. Nada de pesar, nem limpar, nem colocar toquinha: Piel con Piel e pro peito mamar. Todos os outros processos podem esperar, o amor não, né gente? Eles explicaram que estudos científicos comprovaram que o piel con piel estabiliza e normaliza a temperatura do bebê, seu ritmo cardíaco e tranquiliza a criança, sendo mais eficiente que uma incubadora na maioria dos casos. Além do mais, é o melhor estímulo para a que o leite da mamãe desça e para que o neném mame. Esta primeira mamada ajuda na normalização do tamanho do útero da mulher, diminui riscos de hemorragia, depressão pós-parto e um monte de coisas chatas que podem acontecer.

Daí vem a parte mais legal: papai, mamãe e bebê vão pra um quarto e ficam ali durante 3 horas, sozinhos. Se namorando, mamando, se olhando e se conhecendo. É algo que poucos hospitais fazem aqui na Espanha e reforça os laços afetivos entre mãe e filho, algo que vai se refletir diretamente no tipo de relacionamento afetivo que essa criança vai desenvolver com outras pessoas ao longo dos próximos 5 anos de vida. Louco, né?

Também gostei das alternativas que eles dão à postura na hora do parto. Você pode dar a luz deitada, em uma cadeira, de cócoras, deitada de lado, etc... como você decidir na hora H, deixando a natureza agir e sentindo o quê é melhor para você e para o bebê. Na visita elas nos mostraram uma cartilha com exemplos e toda a equipe está preparada para ajudar a mãe a parir da maneira que ela achar mais cômoda. Também nos explicaram que, se tomarmos a epidural, dificilmente poderemos fazer algo além de deitar na cama e empurrar, porém, sem sentir dor :) !

Posições recomendadas para um parto natural e respeitado


Do meu ponto de vista, faltaram alternativas para a hora da dilatação e das contrações, que são as mais doloridas... Eles oferecem as bolas de dilatação (são como as de pilates), opção de caminhar e pouco mais.

Por isso, eu e o Alberto vamos conhecer o Hospital de Torrejón esta semana. Lá, a infra-estrutura para o parto natural é ainda maior. Cada casal tem um quarto onde ficam sozinhos no período de dilatação, com banheiro e chuveiro para ajudar a aguentar a dor, espaço para caminhar para acelerar a dilatação, eles animam a que os pais levem música para ajudar no relaxamento, também oferecem as bolas e TCHARAM! ... Têm piscina com água quente no paritório! Mas só para quem não quiser anestesia; coisa que não sei se vou agüentar.

Parto aquático na Maternidadede Torrejón, região metropolitana de Madrid


Achei super super legal saber que existem todas estas alternativas no sistema PÚBLICO de saúde aqui em Madrid! Lembrando: não são todos os hospitais públicos que seguem estas tendências, porém, SIM, existem alternativas para que o seu parto seja o mais próximo possível do que você gostaria. E ressalto que este sistema, estas alternativas, o respeito e a humanização no trato - seja do parto normal, natural ou de cesárea (que são diferentes e que, por definição, não são necessariamente "respeitados" ou "humanizados") - são válidos para todas, TODAS as mulheres que buscarem caminhos e alternativas aqui na Espanha. Para mim, esta é a grande diferença. No Brasil, só quem tem dinheiro ou um plano de saúde bacana tem acesso à um trato respeituoso... e mesmo assim, dentro de certos limites, porque, por exemplo, minha escolha de provar o parto natural, seria ignorado (ou motivo de risadas pelos médicos e pelo sistema)... Isso para mim é o mais bonito por aqui, todas as mulheres podem viver um parto com dignidade - seja natural ou cesárea. A violência obstétrica não é um problema tão grave quanto a que existe no BR, principalmente para as camadas mais pobres da população, que são a maioria.

Os parteiros sempre falam: "si la cosa se tuerce, buscamos las alternativas: el parto es dinámico". Todos temos isso bem claro: cada um tem um modelo mais ou menos claro na cabeça, mas sabemos que o melhor parto é aquele possível, que traz o seu filho ao mundo com saúde e amor. Ter alternativas e opções é importante e por isso estou feliz de ter meu filho aqui: pela tranquilidade de saber que temos muitos caminhos, que eu sei qual eu gostaria que fosse o meu, e que dentro do possível ele será respeitado e bonito.

Faltam 4 semanas :) Obrigada a todos os que nos acompanharam até aqui.


Mais Informação:


Quem estiver em Curitiba e quiser mais informações sobre o parto humanizado e respeitado, sugiro conhecer o Grupo UNA, o Blog Cientista que virou Mãe, o Grupo Infância Livre de Consumismo.

Aqui na Espanha, me apóio na associação El Parto es Nuestro, no movimento Crianza Natural - que tem um fórum excelente sobre todos os temas relacionados ao parto e no Grupo Genesis, que faz partos domiciliarios planejados e facilita muita info para as mamães curiosas e inquietas.


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A Caridade e a Justiça Social

"Mal vamos si nos acostumbramos a la caridad y no a la justicia."


Sempre digo que reclamamos das coisas erradas. Por exemplo: montar uma manifestação para pedir "paz" no Rio de Janeiro, é como ir para a rua pedir que as pessoas "votem consciente" num país de ignorantes. Como uma sociedade pode votar consciente se não tem acesso à educação? Como podemos pedir "Paz", assim, sem mais nem menos, se os policiais estão mal formados, mal pagados, mal educados, trabalham sem infra-estrutura e não têm o apoio de ninguém?

Nos assombramos com o Furacão Sandy nos Estados Unidos e ignoramos nossas próprias mazelas. Mentimos para nós mesmos e viramos a cara para a nossa realidade quando centenas - ou milhares - de pessoas morrem por causa das chuvas no nosso país. E não se trata de um furacão.... é sempre igual: no Brasil não pode nem chover. Se chove, morre gente.

Na minha cidade, Curitiba, cada chuva forte derruba árvores que fecham ruas, amassam carros, deixam casas sem eletricidade. Reclamamos, publicamos fotos no Facebook, lemos as repetitivas reportagens na Gazeta do Povo. Mas ninguém fala sobre as casas alagadas ou sobre as pessoas que perderam tudo, inclusive seus familiares, nos bairros afastados. Não nos importa a periferia, nem os pobres que morrem nos bairros suburbanos.

Essas criaturas da periferia só nos importam quando entram em nossos centros comerciais com suas roupas de mau gosto e seus perfumes de 15 reais. "O quê esta gente feia está fazendo aqui no nosso shopping?", nos perguntamos. "Deixem-nos em paz aqui no nosso aquário, na nossa bolha de vidro, comprando sapatos e colônias caras, que vocês nunca poderão ter."

Olhamos feio, viramos a cara, temos medo. Feios e pobres que matariam por um iPad... E nós, civilizados que somos, só pedimos PAZ.

Ligamos a TV e vemos a Regina Duarte e o Joãozinho 30 de mãos dadas e camiseta branca andando com uma bandeira, flores e velas, pela avenida de Copacabana, baixo o Cristo Redentor, pedindo PAZ. Vão acompanhados de milhares de pessoas. Cidadãos conscientes, votantes, artistas.. uma elite intelectual de primeira, que "luta pelo povo". Só que não.

Os brasileiros não vão pra rua pedir educação, pagamento digno para os professores, infra-estrutura nas escolas, salário decente para os policiais, nem hospitais públicos que funcionem bem com o dinheiro dos impostsos que pagamos. Dane-se o transporte público e seus usuários, os ciclistas e os pedestes. Que se ferrem e morram - os pobres e feios, que são os únicos que dependem dos serviços do Estado. Enquanto pudermos comprar carros novos, só o preço da gasolina nos importará. O preço da gasolina que sobe injustamente e nos transforma em vítimas de um sistema que nós mesmos criamos.
Mas deixa chover em Petrópolis! Deixa alagar tudo em SC! Deixa uma família "humilde" ir no Luciano Hulk pra ver quem não chora, quem não manda roupa e cesta básica pra ajudar... Quem não vai no Cotolengo dar uma mão no bingo? Todo mundo. Todo mundo faz caridade porque ninguém quer se sentir culpado. Afinal, os culpados são só os políticos, não é? Corruptos! Cadeia neles! - repetimos nos nossos discursos infames, na mesa dos bares, ou - mais recentemente - usando a internet.

Nós e nossa sociedade, a elite, os intelectuais, os que estudamos e nos preparamos pra sacar este país pra frente, só queremos paz. Até doamos nossa roupa usada e alguns kilos de alimentos para entrar em shows de rock de 700 reais. Mas que não venham nos falar dos outros, da justiça para as pessoas que estão do outro lado do muro e que só querem viver da teta do governo, sem saber nem escrever seu nome direito.

Por justiça a gente briga sim, mas pela nossa, pra quem está no mesmo patamar que a gente. E às vezes até pela dignidade dos mendigos... mas só se eles forem brancos, loiros, altos e de olhos claros. Lembram daquele mendigo-muso que apareceu na internet? Até na Espanha saiu a cara dele... Tem algumas coisas que não mudam de um país para outro... Mas pelo menos aqui, o povo vai para rua, pedindo pelo bem estar que é direito de todos.


Texto inspirado em uma coluna lida esta manhã no jornal El País.


Por Caridad

Cómo no te va a partir el corazón esa pobre mujer que acude a la tele pidiendo asistencia para un hijo enfermo; cómo no va a provocar compasión quien cuenta a cámara que no trabaja desde hace años, tantos, que ya se le pasó la edad de resultar atractivo a una empresa; cómo no conmoverse si a un programa acude toda una familia que muestra su desgracia como un último recurso de salvación antes de que todo se derrumbe definitivamente. Tras una primera reacción de empatía y comprensión, hay una segunda, de rabia, no relacionada con los que movidos por una situación angustiosa acuden donde sea, sino con los que supuestamente animados por la bondad les empujan a convertirse en protagonistas de espacios televisivos cuyo objetivo es mostrar la cara de la desgracia.
Los entrevistados suelen mostrarse tímidos al principio, pero el conductor del programa se las apaña para ir hurgando en la herida hasta que se derrumban y lloran, a veces delante de una criaturilla de cinco o seis años que, con la seriedad propia de los niños que presencian a diario cómo sus padres sufren, se arrima aún más a ellos para aliviar su dolor. Es entonces cuando el entrevistador anuncia que hay una llamada, la llamada de alguien que está dispuesto a socorrer al hambriento, ofrecer trabajo al parado o un tratamiento al hijo enfermo. Llegados a este punto, los pobres desgraciados lloran aún más, el público aplaude conmovido esas lágrimas y este cuento navideño de Andersen acaba con un final feliz. El presentador añade, "ya nos gustaría hacer esto por todo el mundo".
Mal vamos si nos acostumbramos a la caridad y no a la justicia. La solidaridad, lo saben los voluntarios, es un parche. Los parados quieren trabajar; los enfermos, ser atendidos; los sincasa, un techo. Pero no gracias a la piedad de los desconocidos, sino porque tienen derecho. Lo tienen.

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Eu não quero ter carro


A subida de preço da gasolina em Curitiba teve mais repercusão nas redes sociais do que a chegada do calor "insuportável" de 30º (!) na cidade sorriso.

Como decidi parar de reclamar no Facebook - para ser um pouco diferente das pessoas comuns -, transferi minha frustração-expatriada para este blog, onde comentarei com os meus caros não-leitores, o quê eu penso sobre o tal assunto:

... válido é reclamar da falta de qualidade do transporte público da cidade em vez de queixar-se do preço da gasolina.

Lembrem que o transporte público é público e exigir melhoras ao Estado é um direito (eu diria até mesmo "dever") do cidadão. O posto de gasolina é uma entidade privada de algum cara que quer ficar rico às custas de um Governo que não faz bem o seu trabalho. O posto não tem nenhuma razão para cobrar um preço justo pelo seu produto ou serviço.

É claro que você pode fazer uma reclamação no Procon.. mas você sempre vai ser vítima de um empresário oportunista - nenhum Procon pode nos salvar disso.

O sistema público sempre será público, e nosso. É a diferença entre "público" e "privado". Só por isso deveríamos nos apropriar dele para sempre - ou pelo menos enquanto somos obrigados a pagar os impostos que mantém - ou deveriam manter - estes serviços vivos.


Das coisas que mais gosto de morar aqui desse lado do mundo é de ter a opção de não ter um carro. Reforço: não tê-lo como uma opção e não por falta dela. E isso só acontece porque os cidadãos espanhóis exigem os seus direitos e fazem com que os políticos cumpram os seus deveres.

Bem mais simples do que exigir que o dono do posto te venda gasolina barata. Não deveria ser?

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A política local e seus vermes mundiais

Hoje me contaram (sim, estou lendo poucas notícias) que saiu na Veja (¡uy!) que o Lula pediu para adiar a investigação sobre o mensalão. Minha primeira sensação foi (desculpem a sinceridade) de nojo. Um nojo cru, puro e sincero. É difícil você estar há tanto tempo longe, vendo todo mundo falando maravilhas do seu país e saber que na verdade nada mudou. Simplesmente existe mais dinheiro por lá e pronto. Tem trabalho pra todo mundo e os ricos que investirem por lá serão ainda mais ricos. Depois que eles arrancarem toda a grana do país, pegarão suas coisas, euros, dólares, ienes e reais e explorarão outros mercados.

Legal né, Lula?

Se impressionar com isso é ingenuidade e se deslumbrar chega a ser feio; coisa de novo rico que fica de nariz empinado, se sentindo o melhor do que os outros, que são como ele era, só porque agora tem mais grana. O dinheiro infla o ego das pessoas. Sabemos que é assim e isso está acontecendo com muitos brasileiros. Apesar de ser compreensível é um pouco triste e bastante chato.

Mas por quê estou falando tudo isso?
Porque depois desse sentimento inicial de desprezo aos políticos do meus país e à passividade da sociedade em geral, li uma notícia sobre a Espanha que me parece ainda pior: Um diretor do Bankia tem direito à 14 milhões de indenização.

Nos dan por todos los lados, en todos los países, siempre. Indignarse es poco.


A maioria do pessoal nem deve saber, mas com a tal da crise na Espanha, um banco privado foi resgatado com dinheiro público. Ou seja: com a minha grana, meus impostos, meu salário, meu trabalho.

O Estado pagou 23,5 bilhões de euros para salvar um banco privado, que foi nacionalizado, gerando um custo médio de €1.300 por contribuinte e que não sabemos se algum dia vai gerar algum benefício público. Com tudo isso, esse mesmo banco vai pagar 14 milhões de euros para um ex-diretor. Ficou indignado? Então...

Isso nem é tudo. Estamos vivendo um recorte completo em todo o estado de bem estar: aposentadorias, educação, saúde pública.. Pouco a pouco tudo isso vai pro brejo. Com muito esforço, podemos entender os recortes, mas essa injeção em um banco privado, não. Imagina saber que parte dessa grana vai pra pagar a indenização de um dos caras responsáveis pela quebra da instituição.

Eu precisava escrever estes parágrafos porque precisava ser justa e mostrar pra mim mesma e para todos os brasileiros infelizes com as grandes injustiças do nosso país, que aqui, onde eles chamam de "primeiro mundo", tem uma grande quantidade de merdas iguaizinhas às que estamos acostumados a jantar durante o Jornal Nacional.

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O futebol. Ou melhor: o Real Madrid x Barcelona

* Continuação do post publicado no blog do jornalista Napoleão Almeida
 
Não era a primeira vez que eu ia a um estádio de futebol. Muito pelo contrário, eu cresci indo aos jogos do meu time junto com o meu pai. Sei como nos sentimos no campo... a emoção de gritar Gol, a raiva do juiz, a cumplicidade com o torcedor ao lado.

Lembro-me da preparação: a cervejinha antes, o cigarrinho ou os amendoins durante, e a alegria – ou tristeza – depois. Mas nunca tinha ido ver a “outro” time que não fosse o Coxa.

Em janeiro de 2012 eu fiz isso. Fui a um dos maiores estádios do mundo, ver dois dos maiores clubes da atualidade jogando um clássico histórico: Real Madrid x Barcelona, no Santiago Bernabéu.




10 horas da noite: o horário mais tarde do mundo para se começar um jogo de liga oficial. Às 20 horas já estávamos lá, meus amigos madridistas e eu, para fazer um esquenta sentindo o ambiente. Até aí nada muda: gentarada, ruas fechadas para o trânsito e muita movimentação.




Fomos a uma rua lateral buscar uma cerveja. Justo quando voltávamos, o ônibus do Real Madrid chegava passando no meio da galera. Bengalas vermelhas, bombas e gritos de “Puta Barça” com muita fumaça e nervosismo no ar. Depois meu amigo me confessou que ali era o lugar onde os “ultras” se reuniam. Sim, eles também existem por aqui e são bastante radicais.


Mas a violência terminou por ali.  Entramos no estádio e nos preparamos para o começo do show.
Sim, do show. Quando você vai a um evento desse porte, já sabe o quê te espera. Não é à toa que encontrei entradas de até 1.000€ sendo vendidas pela internet. A minha custou 50€ (preço especial para profissionais do setor) e seguramente ninguém se arrependeu.

É assim: você chega ao estádio e ao entrar já fica impactado: o Santiago Bernabéu suporta quase 86 mil pessoas (!) e é tão grande que chega a dar vertigem. A infra-estrutura é absolutamente incrível, com um gramado brilhante e um sistema de calefação especial, que não nos deixou sentir o frio de 5ºC.

Mas vamos ao que interessa: o futebol
Não adianta... nós já não temos o melhor futebol do mundo. Temos a maior tradição em mundo e podemos ter o melhor campeonato – por ser o mais emocionante. Mas viver uma experiência como um Madrid x Barça faz você perceber que as coisas por aqui estão em um outro nível.
O futebol europeu não se resume a "ópio do povo". O futebol aqui é negócio – maduro e rentável
O evento começa com uma canção de Plácido Domingo – em lugar de um provável Michel Teló no Brasil. A polarização política é clara mesmo em um esporte tido como alienante por definição – o Barcelona é uma equipe Catalã, região tradicionalmente separatista, e o Real Madrid era a equipe de Franco, ditador espanhol. Só com isso, o prato da polêmica já está servido.
Fora de campo, com algumas exceções, vemos uma sociedade civilizada
Não existe fosso em volta do gramado, algo que o Grêmio já está implantando em sua nova arena, e não vi polícia federal, apenas seguranças privados. É claro que a torcida é exigente, mas ninguém joga pilha e nem copo na cabeça dos outros. Aliás, duas filas atrás da minha, estava um casal com a camisa do Barcelona. Nos estádios europeus, apesar de existirem pequenas áreas reservadas para os visitantes, muitos deles se misturam com torcedores da outra equipe.
Dentro de campo, um jogo muito agressivo, de corpo a corpo direto, velocidade e passes objetivos
Cada toque é como um corte preciso de um cirurgião profissional. Por exemplo, só vi o Cristiano Ronaldo errar um único passe durante todo o jogo.

E a partida foi assim: um primeiro tempo do Real Madrid com um gol de Cristiano Ronaldo, uma reação rápida do Barcelona e um segundo tempo de violência brutal vinda dos merengues nervosos. O jogo acabou em 1 x 2 aumentando as críticas ao técnico do Real, que é questionado há algum tempo pelos torcedores e pela imprensa. O português Mourinho prepara uma surpresa diferente para cada jogo e nunca sabemos que time vai entrar em campo. Falta entrosamento.

Uma estratégia contrária ao Barcelona que leva anos jogando o mesmo futebol. Não importa a partida, o adversário ou o lugar, sempre sabemos o que vamos ver: o Messi metendo gols, o Xavi fazendo seus passes milagrosos, Puyol brigando como um Golias na defesa, e o toque de bola mais bonito da atualidade. Talvez você ache que não seja o mais bonito, mas, com certeza é o mais eficiente.

O que o Barcelona faz é o futebol por definição. Todos se apoiam e jogam juntos. O resultado é a vitória frequente. O Barça nos ensina o que é o espírito de equipe. Os Blaugranas nos ensinam o que é o futebol... tanto que o Xavi saiu de campo aplaudido do estádio do seu arqui-rival.

“Que levem Mourinho e nos tragam Deus! Isso é um banho, como Deus manda!” foi o que eu ouvi na arquibancada. É o que os torcedores do Real estão falando do cara que era considerado o melhor treinador do mundo, até conhecer o Barcelona.