No sábado, muitas pessoas ficaram horrorizadas com a palavra "resgate".
No domingo tinha fila pra comprar jornais na banca. Lá pelas 16hs desse
mesmo domingo, pouco tempo depois da declaração do Rajoy, a maioria das
pessoas esqueceu toda a história que eu contei e foram para os bares e
praças, vestidos de vermelho, com a cara pintada e a bandeira em mãos,
no auge do seu patriotismo, para gritar: "Yo soy
español, español, español" - algo como "eu sou brasileiro, com muito
orgulho..."![]() |
| Fonte: Pinterest do Julian |
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Já adianto: a lista é infinita.
Eu tentei recuperar algumas reflexões no twitter, mas foi impossível encontrá-las (se alguém conhece um caminho fácil, que me avise). Mas essas "coisas" passeiam entre o assassinato de toros em praça pública, o hábito de jogar toco de cigarro e guardanapo no chão dos bares, e o bigode do ex-presidente Aznar - apesar de que ele já fez a barba e o bigode ficou no passado.
Mas hoje meu lisitado foi enriquecido com uma aportação que acredito ser insuperável. Atenção ao título da notícia:
O neto do Rei, ferido gravemente depois de disparar acidentalmente no próprio pé, se recupera
O neto mais velho do Rei, de apenas 13 anos, sofreu um acidente quando praticava tiro junto ao seu pai, na sua fazenda privada em Soria. O menino foi operado e está internado em um hospital madrilenho.
"Criança", "arma", "Rei" (com maiúscula), "disparo" "pai", "fazenda privada"... tudo isso em uma mesma notícia... Só faltou explicarem que o menino está utilizando sistema público de saúde para sua recuperação, mas isso é lógico.
Tivemos que esperar algumas horas para que os principais jornais da Espanha publicassem outra notícia, onde a Guarda Civil explicava que uma criança de 13 anos não pode disparar ou manejar uma arma de fogo, nem sequer uma pistola de ar comprimido.
Ninguém explicou nada. Nem o Rei, nem o pai do piazinho, nem a polícia. Aliás, polícia falou que é proibido... mas não disse se o pai do guri de 13 anos vai ser investigado e que tipo de pena ele pode ou deve sofrer.
Pra quem ainda não entendeu, dizem que a Espanha é um país desenvolvido. Mas com esse post quero dizer que aqui existem problemas bem parecidos com os que temos no Brasil. É claro que eu posso explicar alguns deles, mas em outros casos - como esse - a própria história é a meia palavra que basta.
Em alguns países da Europa o acesso à Internet é considerado um "direito fundamental", acredita?
É sério. Por isso, todos os temas relacionados às Leis SOPA, PIPA e agora ACTA são importantes e tratadas diariamente pelos meios de comunicação. Logicamente eu acompanho com curiosidade, atenção e cuidado todas as notícias e com surpresa a pouca repercussão que elas têm no Brasil.
A votação da Lei Sopa foi notícia nas terras tupiniquins apenas uma ou duas semanas antes do blackout promovido pela Wikipedia e adotado por mais de 7 mil sites ao redor do mundo.
Da mesma maneira, o fechamento do site de hospedagem Megaupload foi uma notícia super relevante aqui no velho mundo. E continua sendo. Faz um mês que o site foi fechado (nesse momento eu faço o meu jabá) e um portal de informação financeira e econômica aqui em Madrid, me pediu para escrever um artigo sobre o quê aconteceu, o quê está acontecendo e o quê vai acontecer no mercado de conteúdo audiovisual e cultural pela Internet. Se você se interessa pelo tema, o link está aqui: Un mes sin Megaupload.
Se você ficou se perguntando: "Como assim, Internet direito fundamental"?
Pois olha:
Na França isso aconteceu em 2009, quando o Conselho Constitucional da França decidiu que o acesso à internet era um direito humano fundamental. Segundo o Conselho, a publicação de opiniões na internet representa uma forma de liberdade de expressão.
Em junho de 2011 a ONU entendeu a mesma coisa. Mas o quê isso significa exatamente? Segundo o texto da ONU "os governos devem se esforçar para que a Internet seja amplamente disponível, acessível e "pagável" por todos. O acesso universal à Internet deve ser uma prioridade para os estados".
Os países mais desenvolvidos vão ainda mais longe: em 2009 a Finlândia decidiu que o acesso à internet banda larga (!) era um direito fundamental para os seus cidadãos.
Aqui em Madrid por exemplo, a maioria das praças públicas têm wi-fi grátis. Praticamente todos os restaurantes, cafeterias, bares e centros comerciais também. E no ano passado os ônibus públicos começaram a oferecer conexão gratuita pra todo mundo.
Duvida?
Então olha:
Falar sobre a programação da tv de um país, é falar sobre um povo... da sua educação, do seu nível intelectual, cultural, social e também do seu grau de exigência para esses valores.
Eu escrevi no Tãmbler que a tv na Espanha é muito, mas muito ruim. Os telejornais são uma porcaria, parciais, superficiais, comprometidos com seus próprios interesses. As séries espanholas são feias, má produzidas, os roteiros são penosos. Só existe uma exceção: a televisão pública. Os demais programas de entretenimento têm um ar entre Silvio Santos, Gugu Liberato e Passa ou Repassa. Tudo é meio show de calouros, meio reallity, meio exagerado e fake. Os programas repetem formatos, enjoam e deixam claro que falta dinheiro. É a crise. Mas a culpa não é só dela... antes também era assim. Menos monótono, quem sabe. Mas era.
Para os interessados, meus amigos que trabalham no setor dizem que os programas aqui se dividem em 3 categorias: "amarillo", "rosa" e "blanco". Os amarelos são os sensacionalistas, os rosas, também conhecidos como "de corazón", são os de fofoca e os brancos são mais objetivos e procuram aportar conteúdo de qualidade.
Entre os amarelos e rosas se destacam (como não?) os reallitys e sobretudo o BBB, que esse ano estreiou sua 13ª edição (!!), com récode de audiência. Ultimamente o "ibope" do programa tem caído, o quê não é necessariamente uma boa notícia, pois os produtores amarelo-rosas da indústria televisiva espanhola não desistem. Os espectadores estão emocionados com o último lançamento:
Sim. Dizer: "a tomar por culo" na televisão espanhola, é normal. Mas tem coisa pior! Nesse tal de programa tem uma possível sogra que vetou o namoro do filho com uma candidata porque ela era negra. Sim, porque era negra. A coisa vai por esse nível.
Conto tudo isso porque reclamamos da tv brasileira. O quê quero dizer é que a televisão comercial e aberta é assim. E já disse que aqui existe uma única excessão; a tv pública. Você acharia normal ligar a TV Cultura e ver A Vida de Brian do Monty Python numa quarta feira qualquer? Deveria ser, né?
Aqui é. Ver a 1 ou a 2 normalmente é encontrar um copo d´agua no deserto. Um deserto quente, infinito e internacional.

