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Os desconhecidos

Uma das coisas que eu mais gostei quando vim morar aqui, foi de me sentir uma desconhecida. Escutava a canção do Dylan, Like a Rolling Stone e cantava bem alto a parte que dizia: How does it feel, to be without a home, like a complete unknown, like a rolling stone?

Essa fase já passou. São 5 anos, trabalhei muito e conheci muitas pessoas.
Tive a oportunidade de me inventar e de criar a minha história. Aqui ninguém nunca me tratou diferente por eu ser filha, prima ou neta de alguém. Além do mais, o conceito de "classes sociais" é bem diferente do que estamos acostumados no Brasil, o que faz com que tenhamos mais valor como pessoas, definitivamente.

Me senti livre.
Livre não só para ser quem eu queria, sem ninguém me dizendo o quê era certo ou errado, mas também para me rodear das pessoas que gostavam de mim do jeito que eu era.

Lembro quando fui me despedir da tia Neusa, minha sábia tia-avó que em 2007 já somava mais de 90 anos de idade:
- Como você está, filha? Animada?
- Estou um pouco assustada, tia... Com um pouco de medo.
- Medo? Medo do quê?
- Medo de que não gostem de mim, de ficar sozinha, de não ter amigos.
- Pois então, faça-se gostar. 
 A tia Neusa abriu um sorriso que nunca esqueci e todo o medo foi embora.

Toda essa liberdade  me serviu para falar com quem eu quisesse, quando quisesse e como quisesse. Fiz amigos em barra de bar, na casa de outros amigos, no ônibus e na Internet.

Hoje li o post que a Bruna Castro escreveu no seu Abra a Janela: Converse com estranhos. Me fez pensar em todas as pessoas que eu conheci viajando dentro de um ônibus, comendo um sanduiche no parque ou pegando um avião. Fiz amigos, troquei confidências, dei beijo na boca em gente que nunca mais vi. Sempre aprendi muito com cada uma delas. Teve um cara que me deu uma ideia pra escrever um livro, outro que acabou me ajudando a conseguir o visto de estudantes que me permitiu estar aqui e gente que me fez entender o que é, realmente, sofrer preconceito por ser diferente.

Também tem os chatos: os inquisitores, os que falam sem parar, os que opinam demais sobre a sua vida. Nos dias em que eu tô curtindo o mau humor, sempre lembro deles e tento não falar com ninguém. Ou falo em outra língua, fingindo que sou de um país que eles não são e que por isso não podemos nos entender.

Numa dessas vezes, eu estava no avião indo pro Brasil e me sentei naqueles bancos gigantes do meio, que todo mundo odeia. Vi que todos os nipo-paulistas que estavam ao meu redor eram viajantes de primeira viagem e que me perguntariam de tudo.. desde se pollo é frango até como mudar o canal da televisãozinha do banco. Me fiz de gringa, ignorei as vovós fofinhas, respondi em espanhol pra aeromoça que falava em portugués e dormi. Dormi pesado e acordei com aquela linda senhorinha com olhos orientais e olhar brasileiro arrumando a coberta para tapar melhor minhas costas.
Sorri.
Me envergonhei. Me senti uma idiota! Nem podia dizer "obrigada".

Me dei conta de que nenhum mau humor é razão suficiente para perder a oportunidade de conhecer a uma grande pessoa - dessas que dão sentido às palavras do poeta que eu tanto gostava quando tinha 17 anos: "A vida é a arte do encontro, embora exista tanto desencontro pela vida".

E brindo os desconhecidos! Seres maravilhosos que dão asas à minha liberdade de ser quem eu mesma quero ser, sem rótulos nem embalagens.

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A volta ao Brasil I

Esse é daqueles assuntos sem fim. A história recorrente que sempre vem à tona, que sempre se debate em casal, constantemente questionado pelos amigos e calado pelos pais e pela família.
Mas é o tema que sempre existe dentro do expatriado. É como a saudade. Dorme, mas não desaparece.

Com a inversa situação econômica entre Brasil e Espanha, "a volta" é mais falada, perguntada, debatida.

Ontem eu estive em um evento onde conheci muitas brasileiras que estão na Espanha há diferentes
 períodos de tempo e por diferentes motivos. Todas temos vontade de voltar pro país onde nascemos e concordamos que o principal motivo que nos faz questionar sobre se "ir" é melhor do que "ficar", se resume em situações como essa:

Restaurantes da zona oeste de SP são alvos de arrastão


Fonte: Folha de SP


Arrastão? 

Sério. Eu não sou muito exigente com a vida.
Só quero poder passear em paz por uma cidade, tomar um vinho com meu namorado, uma cerveja com meus amigos e uma cocada com meus pais. E voltar pra casa de madrugada andando e sem sentir medo. Mais nada.
Um dia eu vou voltar ao Brasil, todo mundo volta. Mas talvez seja por isso que a gente demore tanto em dar esse passo.

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Dançando no pensamento

Sinto saudades de dançar.
Gosto de sair e de balançar a cabeleira, as cadeiras e de dar risada.
Gosto de levantar o copo bem alto e que caia cerveja, sem querer, lá de cima.
Gosto de ver a galera se chacoalhando e de entrar no mesmo ritmo.
Gosto de abraçar o meu gatinho e de rodopiar.

Os espanhóis não gostam. Eles gostam de escutar a música. E eu acho que eles gostam de ver a gente dançando. Mas eles não dançam.

Não tenho certeza, mas acho que o espanhol é muito envergonhado. Eles não têm vergonha de gritar quando falam no telefone, nem de discutir alto, mandando quem está do lado prá-quele-lugar. Mas eles não se abraçam muito, não falam muito dos seus sentimentos, nem dançam.

Eles não se movem no ritmo da alma, não expressam o quê sentem rebolando e deixando os problemas pra lá.

Tenho saudades de ir num show e de ver todo mundo pulando, de ver os loucos dando mosh, de ficar com vontade de invadir o palco e de voltar pra casa sem voz.

Também sinto falta de ir em bar com música ao vivo. Aqui não tem muitos, sabe? Ou você vai num show, ou vai num bar. Bar, com mesinhas, música e que vc possa levantar pra dançar enquanto os outros pedem uma cerveja, faltam por aqui.

E me pergunto... Dançar no pensamento também se chama "saudade"?


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O Sorvete do ambulante da minha rua

Hoje no trabalho, eu ouvi, depois de muito tempo, aquelas gaitinhas de plástico que fazem: fluuuuulilllflululu! A típica gaitinha de bolso de vendedor de sorvete na rua. Me lembrei da minha infância e dos dias de férias no verão, quando todas as crianças saiam correndo descalças com moedinhas na mão ao escutar a gaita do tiozinho.

Lembrei do Maionese e do irmão dele, que sempre ganhavam um picolé extra, porque compravam uma bacia inteira de sorvete.


Lembrei que o vendedor sorteava um picolé, jogando-o para cima e todo mundo saía correndo para pegá-lo. Dependendo do vizinho que conseguisse, o sorvete era dividido com todo mundo.


 Lembrei dos sabores: maracujá, morango, abacaxi, uva, milho verde e os mais caros: mini-saia e esquimó. Esses a gente só podia comprar às vezes, porque normalmente as moedas não eram suficientes. O mini-saia se chamava assim porque a metade de cima era de creme e a de baixo era de alguma coisa rosa choque. O Esquimó era de alguma coisa branca, com uma casquinha de chocolate por cima. Comprar o Esquimó era quase sinônimo de status na nossa rua e tinha que dar um pedaço pra todo mundo.


Recordei tudo isso porque aqui não tem ambulante, praticamente não existe comércio informal e as crianças não saem na rua correndo descalças. 
Tampouco ficam amigas do vendedor de sorvete, comem sonho do carro do sonho que vai passando para a freguesia, ou curau de milho cozido. Aliás, essas coisas nem existem por aqui.


Aqui é tudo diferente. Tudo é industrial e tudo está controlado. Mesmo que o desemprego esteja chegando aos 25%, o Estado não deixa ninguém abrir um postinho de algodão doce na rua, nem de pipoca ou de cachorro quente. A rua é de todos, mas não é de ninguém. Existe liberdade e a liberdade não existe.

Ninguém aqui quer sair para vender picolé na rua e nenhum pai, em sã consciência, deixaria seu filho tomar um sorvete "de água de esgoto", como diria o "S"Ernesto.


Aqui tudo é melhor, mas mais chato. Tudo está certo e tudo está feito. Aqui nem sequer  sabem do quê eu estou falando, porque muitas vezes não entendem minhas palavras. Aqui eles falam de nostalgia e provavelmente não entendam o que significa 
saudades....