Ontem eu estava aqui trabalhando enquanto o pessoal combinava de sair. Daí meu chefe disse pra menina nova: "você vem, né?". Ela disse que não podia. Como ele insistiu, ela respondeu educadamente: "é que eu e a minha namorada temos um compromisso neste fim de semana".
Meu chefe é meio certinho e sei que ficou chocado, mas não disse nada. Só cometou comigo depois: "você viu?" e deu uma risadinha meio nervosa. Eu respondi pra ele que achei muito legal: "o que você queria, que ela mentisse?".
Na verdade, eu fiquei muito orgulhosa. Pela menina, pela namorada dela, pela minha empresa, e por saber que uma sociedade pode chegar a ser tão civilizada.
Um aplauso para todos.
Este post é um comentário que eu pensei em escrever numa publicação feita no Facebook pelo jornal Gazeta do Povo. Trata-se de um editorial sobre a situação do direito ao aborto no Brasil.
Preferi não publicar o meu pensamento na publicação da Gazeta para me privar dos comentários preconceituosos que poderiam chover na maior rede social do mundo - que também é o maior reservatório de bobos de todo o planeta.
Aqui estão as 10 linhas sobre a minha opinião e experiência pessoal com o tema aqui na Espanha (o editorial da Gazeta vem logo abaixo).
"Na minha opinião a mulher deve ter o direito a decidir. Moro na Espanha há 5 anos, estou grávida de 4 meses e através do sistema público de saúde me fizeram todos os testes para saber se o meu neném tem síndrome de down ou de edwards. São exames que não são feitos nem sequer pelo sistema privado (ou planos de saúde) aí no Brasil. Conversei com médicos em Curitiba que me explicaram que se trata de "exames muito caros" e que por isso normalmente não se realizam.
Caso essas provas dessem positivo eu teria o direito de escolher. Teria o direito de fazer um aborto "gratuito", ou seja, pago pelo sistema público de saúde espanhol - isto sim, até a 21ª semana de gestação. Também teria o direito de seguir com a gravidez se assim eu e meu companheiro desejássemos.
Isso significa que eu teria direitos. Eu escolheria e poderia decidir- como mãe, mulher e cidadã - o meu futuro e o futuro do meu bebê.
De todas as formas, fico feliz com a notícia que motivou a Gazeta a escrever este editorial - uma prova de que evoluímos como sociedade democrática - apesar da postura tão conservadora deste meio de comunicação."
Aqui está o tal editorial da Gazeta do Povo
A Eugenia avança:
O Dia Internacional da Mulher já passou e apesar de ser um dia que nunca me chamou especial atenção, esse ano o 8 de março teve alguma relevância filosófica para mim.
Notei que se trata de uma data importante lá no Brasil, vi muita gente comentando nas redes sociais e muitas marcas utilizando o argumento para fazer publicidade.
Comecei a ver que o tom das declarações eram sempre parecidos: "Todos os dias são dias das mulheres", "Mulheres, vocês são lindas", "Vocês fazem nossa vida mais bonita"... muitos agiam como se fosse o dia dos namorados ou o dia das mães, e por outro lado, mulheres e meninas reforçavam que são elas que dão à luz, cozinham, lavam, passam e trabalham, e que, claro, por isso merecem o carinho e admiração de seus companheiros e da sociedade.
Na Espanha ouvi comentários como "e o dia do homem quando é? Se somos todos iguais....", e os dois únicos emails que recebi de parabéns começavam com "Feliz dia da mulher Trabalhadora", pois assim se chama o dia 8 de março por aqui.
Tamanha diferença me fez refletir e ter vontade de comentar nas publicações dos meus amigos do Facebook. Uma menina me etiquetou em um vídeo dedicado à beleza e sensualidade da mulher brasileira, "a mais bonita do mundo" (!!?). Tive vontade de responder, mas me auto-censurei. Sabia que por mais suave que eu fosse, soaria a "feminazi" para a maioria das pessoas nas minhas listas de contatos. Então resolvi ser objetiva... e com um pouco de receio disse:
"Vale lembrar que o dia da mulher existe para homenagear àquelas que lutaram pela melhoria das nossas condições de vida e de trabalho, para que nós pudéssemos participar, com igualdade, na sociedade e no seu desenvolvimento.
No dia 8 de março a gente deve lembrar de continuar dando sentido aos nossos direitos e ao nosso trabalho.
Ganhar flor é legal, mas a gente merece mesmo é "respeito".
Sendo assim: Feliz dia Internacional da Mulher pra todo mundo :)"
Não falei sobre alguns grandes problemas da sociedade brasileira que poderiam ser debatidos nessa data: o sexismo, a violência sexual, a prostituição infantil, o maltrato contra a mulher, o maltrato psicológico, além de todos os preconceitos que enfrentamos no mercado de trabalho. Eu queria falar, mas não disse nada porque acho que a nossa sociedade não está preparada para debater esses temas com maturidade. Se no Dia Internacional da Mulher eu me metesse a propor um debate sobre a diferença salarial entre homens e mulheres no Brasil por exemplo, eu seria taxada, no mínimo, de chata.
Mas tudo bem. A gente sabe que o Brasil ainda é um país muito machista e sobre o machismo eu vou escrever por aqui em algum momento. Enquanto isso, resumo meus pensamentos sobre o 8 de março com essas duas fotos - também vistas no Facebook de meninas que moram por aqui:

