Em outras oportunidades eu já escrevi e comentei sobre a minha positiva experiência com o sistema de saúde público espanhol. Nestes 6 anos de vida aqui, conversando com as mais diversas pessoas, entendi que "el público es mejor que el privado".
Tem gente que tem plano de saúde, mas pelo que elas me falaram o utilizam mais para exames e consultas de rotina, devido à praticidade e comodidade no atendimento. "Pero si es algo más grave, al público, directamente. Es mucho mejor".
Para mim, tão brasileira que sou, foi difícil de entender. Mas a analogia "universidade federal x universidade particular" que conheci lá em Curitiba, fez tudo ficar mais claro. É lógico: o público dá melhores condições de trabalho para os profissionais - logo é o sistema que concentra os melhores médicos. O investimento em I+D é grande e a infra-estrutura é boa. Portanto, público melhor que privado. Faz sentido.
Isso aprendi há uns 2 anos, mas agora com a crise, as coisas estão mudando. O novo partido político que está no governo quer privatizar a "sanidad", os médicos estão fazendo muitas greves, demora um pouco mais pra conseguir uma consulta, alguns centros estão fechados por corte de gastos e o investimento em I+D quase não existe. Mas, mesmo assim, todos dizem que o público ainda é superior e que as consequências reais desta crise, notaremos dentro de 2 ou 3 anos. E eu preferi acreditar, até porque, dentro de 1 mês eu dou a luz e vai ser tudo pelo público - como (quase) todo mundo faz.
Uma grávida amateur
Estou grávida há 8 meses e desde então, começou minha nova aventura pelo sistema de saúde espanhol e pelo desconhecido mundo da maternidade.De imediato, percebi mil coisas e experiências que poderia contar para as pessoas que sempre me perguntam como são as coisas por aqui. São muitas as diferencas no próprio sistema, na eficiência, na infra-estrutura e no tratamento, por exemplo. Mas para mim, o mais emocionante está sendo descobrir e conhecer o universo do parto em si, através do acesso à informação que o próprio sistema oferece aos papais.
É verdade que, comparando com países mais desenvolvidos como a Holanda, por exemplo, aqui o sistema para os partos ainda é bastante imperfeito e falta muito para que se aproxime ao recomendado pela Organização Mundial da Saúde e pela UNICEF. Segundo números de referência, a Espanha ainda está por cima do recomendado na média de cesáreas realizadas e de partos intervenidos.
Porém, para as minhas referências trazidas do Brasil, a Espanha está em um futuro distante, muito melhor do que tudo o quê conheci no meu país, e mais legal do que jamais poderia imaginar..
A história prévia da grávida em Madrid
Lembro de quando eu era mais jovem e perguntava para as mamães se os seus partos tinham sido normais ou cesárea. Quando respondiam "cesárea", sempre questionava "por quê?", tentando entender o quê teria ter acontecido... O fato é que eu sempre tive horror à cesariana, pelo próprio medo que tenho aos hospitais e médicos em si. Medo! pensar em uma agulha me bloqueia e aterroriza. Então, essa história de que mais de 80% dos partos brasileiros sejam feitos baixo intervenção cirúrgica sempre me pareceu uma aberração, porque fica claro que a grande maioria deles não eram realmente necessário. E me dava medo: vai que eu não posso escolher... Vai que me dizem que tem que ser cesárea e a coisa não é bem assim... Medo, meu medo, e falta de confiança nos médicos, que, em muitos casos estão mais preocupados com o seu conforto do que com as opções da mamãe e do bebê.
Quando eu e o Alberto decidimos ter um filho, fomos bem impulsivos. Não debatemos e nem pensamos muito. Nos olhamos nos olhos, conversamos 5 minutos e nos perguntamos: tem certeza? e assumimos o desafio. O Théo demorou pouco para nos surpreender e nem sequer nos deu tempo de planejar o futuro, de pensar onde ou como seriam as coisas, se ele nasceria no Brasil ou na Espanha. Tudo isso a gente foi pensando ao longo da gestação. Somos jovens e livres, poderíamos tomar qualquer decisão e eu acho que ter o nosso filho na Espanha foi a melhor entre todas elas.
Aqui, com toda essa chuva de informações, a experiência do parto em si se tornou algo realmente importante para mim, a gravidez tem sido uma etapa especial, e eu acho que para a viver tudo isso, este país supre melhor as minhas necessidades do que o Brasil. Aqui, além de informação aberta eu tenho liberdade de escolha.. e sei que ela será respeitada, dentro do possível. Sei que se tiverem que me fazer uma cesárea, ela vai acontecer, mas só se for por necessidade. E logicamente estamos abertos à ela, ao fórceps e à anestesia :)
(vai, só estamos comparando diferenças)
Amateur, na España e ¡solita!
Eu estou encantada com, por exemplo, o acompanhamento da gravidez. As consultas com o obstetra são rápidas e muito práticas. Falamos sobre exames, resultados e datas. As dúvidas, sentimentos e o acompanhamento mais pessoal é feito com a "matrona" - a famosa "parteira". Inclusive é a parteira quem faz o parto: ela sozinha... ou ela com outra matrona.
Explico: aqui muitos hospitais já seguem a tendência da OMS de que os partos sejam o mais natural e o menos instrumentalizados possível, portanto não é necessário que um médico entre na sala de parto... Claro que os ginecologistas estão ali do lado, assim como a UTI pré-natal e toda a infra-estrutura e pessoal necessários... mas a filosofia do parto é diferente. O parto é da mulher e cada uma terá a oportunidade de vivê-lo como prefira - sempre que tudo corra bem e não seja necessária nenhuma intervenção... E por isso a informação é tão importante. Além do mais, as cesáreas não são "escolhíveis"... em alguns hospitais privados, às vezes pode ser que sim. Repito: em alguns hospitais privados - às vezes e pode ser que sim. Mas no geral: cesárea = necessidade ou casos especiais. É uma exceção e todo mundo deixa bem claro de que se trata de uma cirurgia...Não é visto nem como normal e nem como algo natural, nem pelos médicos, nem pela sociedade. Um UFA! bem grande para mim, que tenho absoluto pavor à facas e agulhas (tanto que estive a ponto de optar por um parto planejado em casa, mas acabei desistindo porque é caríssimo... e vai, o Alberto não queria concordar).
Partindo da filosofia de conversas diretamente com as parteiras, se valorizam as dúvidas, sentimentos, medos e preocupações da mamãe e do papai... muito mais do que a parte médica em si. Além disso, o SUS oferece cursos de pré-parto para os casais. Eu e o Alberto estamos fazendo e está sendo muito legal e tranquilizador! Todas as semanas temos uma hora de ginástica para grávidas e uma hora de aula teórica, em que nos explicam os tipos de parto que podemos ter, se queremos mais natural, com ou sem anestesia, quais são os seus efeitos, detalhes sobre a oxitocina artificial, a instrumentalização do parto, os casos que podem levar à cesárea, etc... Também explicam sobre contrações, dilatação, respiração, lactância, como cuidar do bebê nos primeiros dias, o umbigo que cai, troca de fralda, paternidade - hahaha - etc... Tenham em conta que nós somos "primerizos" (ou seja: A-MA-DO-RES) e estamos aqui sozinhos! Toda essa informação é extremamente valiosa para os dois.
¡El parto es nuestro!
Tudo isso me ajudou a decidir sobre que tipo de parto eu gostaria de ter, de maneira consciente, pensada e baseada em informações. Conversei com minha matrona e ela me recomendou visitar 2 ou 3 hospitais públicos para conhecer as suas filosofias e ver qual delas mais se aproxima à minha. Além disso, te recomendam fazer um "Plano de Parto", que é um documento oficial do Ministério da Saúde onde vc descreve as opções que você gostaria que fossem respeitadas no seu parto: métodos anestésicos, libertade de movimento durante a dilatação e o expulsório, se vc quer ou não dar o peito depois do nenem nascer, episiotomia, se vc quer poder beber e comer durante a fase prévia, etc... Tudo isso é levado em conta na hora do ingresso no hospital e será respeitado dentro do possível durante o seu parto.
Estivemos no XII de Octubre, hospital de referência na Espanha; um dos primeiros à seguir as recomendações da OMS de que o parto seja o mais natural e menos instrumentalizado possível.
Vimos muitas coisas legais e achamos que pode ser uma boa opção. Pra quem quer saber porquê: Eles foram os primeiros em Madrid a ganhar um prêmio da Unicef por estímulo à lactância: o neném sai de dentro de você e vai diretamente para a sua barriga. Eles esperam o cordão umbilical terminar de latir antes de cortar para que seja menos traumático possível para o pequeno. Daí o baby vai direto para o peito. Nada de pesar, nem limpar, nem colocar toquinha: Piel con Piel e pro peito mamar. Todos os outros processos podem esperar, o amor não, né gente? Eles explicaram que estudos científicos comprovaram que o piel con piel estabiliza e normaliza a temperatura do bebê, seu ritmo cardíaco e tranquiliza a criança, sendo mais eficiente que uma incubadora na maioria dos casos. Além do mais, é o melhor estímulo para a que o leite da mamãe desça e para que o neném mame. Esta primeira mamada ajuda na normalização do tamanho do útero da mulher, diminui riscos de hemorragia, depressão pós-parto e um monte de coisas chatas que podem acontecer.
Daí vem a parte mais legal: papai, mamãe e bebê vão pra um quarto e ficam ali durante 3 horas, sozinhos. Se namorando, mamando, se olhando e se conhecendo. É algo que poucos hospitais fazem aqui na Espanha e reforça os laços afetivos entre mãe e filho, algo que vai se refletir diretamente no tipo de relacionamento afetivo que essa criança vai desenvolver com outras pessoas ao longo dos próximos 5 anos de vida. Louco, né?
Também gostei das alternativas que eles dão à postura na hora do parto. Você pode dar a luz deitada, em uma cadeira, de cócoras, deitada de lado, etc... como você decidir na hora H, deixando a natureza agir e sentindo o quê é melhor para você e para o bebê. Na visita elas nos mostraram uma cartilha com exemplos e toda a equipe está preparada para ajudar a mãe a parir da maneira que ela achar mais cômoda. Também nos explicaram que, se tomarmos a epidural, dificilmente poderemos fazer algo além de deitar na cama e empurrar, porém, sem sentir dor :) !
Do meu ponto de vista, faltaram alternativas para a hora da dilatação e das contrações, que são as mais doloridas... Eles oferecem as bolas de dilatação (são como as de pilates), opção de caminhar e pouco mais.
Por isso, eu e o Alberto vamos conhecer o Hospital de Torrejón esta semana. Lá, a infra-estrutura para o parto natural é ainda maior. Cada casal tem um quarto onde ficam sozinhos no período de dilatação, com banheiro e chuveiro para ajudar a aguentar a dor, espaço para caminhar para acelerar a dilatação, eles animam a que os pais levem música para ajudar no relaxamento, também oferecem as bolas e TCHARAM! ... Têm piscina com água quente no paritório! Mas só para quem não quiser anestesia; coisa que não sei se vou agüentar.
Achei super super legal saber que existem todas estas alternativas no sistema PÚBLICO de saúde aqui em Madrid! Lembrando: não são todos os hospitais públicos que seguem estas tendências, porém, SIM, existem alternativas para que o seu parto seja o mais próximo possível do que você gostaria. E ressalto que este sistema, estas alternativas, o respeito e a humanização no trato - seja do parto normal, natural ou de cesárea (que são diferentes e que, por definição, não são necessariamente "respeitados" ou "humanizados") - são válidos para todas, TODAS as mulheres que buscarem caminhos e alternativas aqui na Espanha. Para mim, esta é a grande diferença. No Brasil, só quem tem dinheiro ou um plano de saúde bacana tem acesso à um trato respeituoso... e mesmo assim, dentro de certos limites, porque, por exemplo, minha escolha de provar o parto natural, seria ignorado (ou motivo de risadas pelos médicos e pelo sistema)... Isso para mim é o mais bonito por aqui, todas as mulheres podem viver um parto com dignidade - seja natural ou cesárea. A violência obstétrica não é um problema tão grave quanto a que existe no BR, principalmente para as camadas mais pobres da população, que são a maioria.
Os parteiros sempre falam: "si la cosa se tuerce, buscamos las alternativas: el parto es dinámico". Todos temos isso bem claro: cada um tem um modelo mais ou menos claro na cabeça, mas sabemos que o melhor parto é aquele possível, que traz o seu filho ao mundo com saúde e amor. Ter alternativas e opções é importante e por isso estou feliz de ter meu filho aqui: pela tranquilidade de saber que temos muitos caminhos, que eu sei qual eu gostaria que fosse o meu, e que dentro do possível ele será respeitado e bonito.
Faltam 4 semanas :) Obrigada a todos os que nos acompanharam até aqui.
Mais Informação:
Quem estiver em Curitiba e quiser mais informações sobre o parto humanizado e respeitado, sugiro conhecer o Grupo UNA, o Blog Cientista que virou Mãe, o Grupo Infância Livre de Consumismo.
Aqui na Espanha, me apóio na associação El Parto es Nuestro, no movimento Crianza Natural - que tem um fórum excelente sobre todos os temas relacionados ao parto e no Grupo Genesis, que faz partos domiciliarios planejados e facilita muita info para as mamães curiosas e inquietas.
Este post poderia ser publicado num desses sites sobre boas notícias. Porém, eu prefiro tratá-lo a partir do ponto de vista do acesso à cultura, pois uma livraria que oferece livros grátis não é apenas uma boa notícia, mas um projeto baseado em uma filosofia consciente e coerente com o que já foi a política cultural da Espanha. Utilizo o verbo no passado (foi) porque um dia chegou a crise, e com ela os políticos de direita e os recortes sociais.
Mas tudo bem. Mesmo que falem que os espanhóis são preguiçosos, eu acho que eles reagem muito bem à atual política, que se dedica a ir matando a melhor parte deste país: a igualdade - no acesso à informação, saúde, cultura, educação... Esses espanhóis, que organizam manifestações multitudinárias (só em Madrid já foram mais de 2 mil neste ano) contra cada recorte e mudança nas leis trabalhistas, também empreendem. A própria sociedade começa a realizar mudanças que o Estado já não é capaz de oferecer.
A ONG espanhola Grupo 2013 juntava livros para enviar à América Latina, quando conheceu uma livraria gratuita nos Estados Unidos: The Book Thing of Baltimore. E em Madrid nasceu a "Libros Libres" - livraria onde qualquer pessoa pode "comprar" quantos livros grátis quiser.
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Grátis e com sofá. O confortável mundo dos Libros Libres, no bairro de Chamberí, em Madri. FONTE: Clarin.com |
Mas como assim?
A Libros Libres recebe uma média de 50 doações por dia. Além disso, algumas editora souberam do projeto e doaram exemplares novos. Segundo os responsáveis, a livraria tem entre 5 e 10 mil livros disponíveis no local, além das diversas caixas no depósito.Para que o projeto seja sustentável a ONG conta com sócios que pagam 12 euros por ano e podem alugar filmes por 1 euro - ou comprá-los por 2. Mas paga quem puder, quanto e quando quiser, "o acesso sempre está aberto para quem necessite", dizem os responsáveis.
Parece sonho?
Com essa grana a ONG paga os 400 euros de aluguel do espaço em Madri, além do salário de quem trabalha nos finais de semana. Nos demais dias, o público é atendido por voluntários e livreiros do Grupo 2013.Só pra constar:
A ONG calculou que para se manter durante o ano de 2013, precisava de 365 sócios até o final de 2012. Em 20 dias a Libros Libres chegou a 155: "muitos sócios nos doam mais do que os 12 euros", explicam.A livraria conta com novelas, poesia, obras de teatro, literatura infantil e juvenil, catálogos de arte, fotografia, filosofia, política e textos jurídicos em perfeito estado.
Pra quem não sabe, a Espanha está atravessando a maior crise econômica da sua democracia: 50% dos jovens estão desempregados e o total do desemprego no país ultrapassa os 20%.
"Trata-se de uma receita para a crise: que as pessoas continuem lendo e que se forme um povo intelectual", dizem os responsáveis pela ONG.
Estado pra quê, né? Se os ativistas fazem coisas muito mais legais!
Mais posts:
O acesso à Internet na Espanha
Que bom é encontrar pessoas que pensam como você e sabem como explicá-lo melhor.
Um copy + paste de um artigo, publicado no El País, por Carla Guimarães - uma escritora baiana muito madrilenha que conheci em uma cafeteria da rua Fuencarral.
El regreso de Daisy
Se fue de Brasil por la falta de oportunidades. En España empieza a pasar lo mismo
No sábado, muitas pessoas ficaram horrorizadas com a palavra "resgate".
No domingo tinha fila pra comprar jornais na banca. Lá pelas 16hs desse
mesmo domingo, pouco tempo depois da declaração do Rajoy, a maioria das
pessoas esqueceu toda a história que eu contei e foram para os bares e
praças, vestidos de vermelho, com a cara pintada e a bandeira em mãos,
no auge do seu patriotismo, para gritar: "Yo soy
español, español, español" - algo como "eu sou brasileiro, com muito
orgulho..."![]() |
| Fonte: Pinterest do Julian |
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O Real Madrid x Barça
A política local e seus vermes mundiais
Coisas que quem vem morar na Espanha nunca entenderá
A greve geral, os porteiros e as prostitutas
Uma das melhores coisas de morar em Madrid é a quantidade, variedade e qualidade dos bares que a cidade oferece
Antes da chegada da crise econômica que nos assola, Madrid contava com 14.658 bares: um para cada 415 pessoas. Isso fazia com que fôssemos o país com mais bares, restaurantes e cafeterias de toda a Comunidade Européia. Com a crise, muitos fecharam, mas o espanhol, pela sua própria cultura, não deixa de ir ali na esquina tomar sua cervejinha no final da tarde nem de sair pra jantar no final de semana.À noite a Espanha é mágica. Todo mundo está na rua comendo, bebendo, fumando, gritando e dando risada. É uma das coisas que eu mais gosto daqui: as pessoas não ficam dentro de casa, a vida está nas ruas. Por causa da tal da crise, temos saído menos e dado preferência a lugares que oferecem bom preço e qualidade.
Nesse fim de semana fomos jantar na Taberna dos Conspiradores, um bar-restaurante extremeño que fica no Barrio de las Letras, zona boêmia bem no centro cultural da cidade, entre os Museus do Prado, o Reina Sofia e o Thyssen Bornemisza. Um lugar com decoração autêntica, sem firulas para turistas, nem luxo desnecessário. Um bar com comida boa, preço acessível e gente agradável.
A cultura extremeña é pouco conhecida internacionalmente e menos valorizada internamente do que deveria. Extremadura é uma comunidad autónoma (estado) que está ao sudoeste da Espanha, fronteira com Portugal. Sua capital, a cidade de Mérida, foi fundada em 25a.c. e declarada Patrimônio Cultural pela Unesco, graças à conservação de um importante conjunto arqueológico de construções romanas.
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| Teatro Romano em Mérida - Extremadura |
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| Palco do Teatro Romano de Mérida |
A Gastronomia Extremeña
Apesar desse "esquecimento" turístico, Extremadura é reconhecida nacionalmente pela qualidade da sua gastronomia, conservando algumas tradições rurais muito importantes, que lhe garantem variedade no cultivo e tradição nos cuidados com a terra.Devido à sua geografia, que une amenas temperaturas durante todo o ano, com a passagem de alguns dos principais rios do país, essa região conta com agricultura de qualidade, além de prestigiados produtos como queijo, mel, vinho, azeite, jamón de bellota e embutidos, que levam um selo de qualidade com denominação de origem - reconhecido e respeitado em toda Espanha.
Entre os pratos mais conhecidos da gastronomia extremeña estão as migas (parecido com a farofa, mas feito com farinha de pão), os buñuelos (tipo de empanado), variedades de preparos de arroz com partes do porco e embutidos, os pimientos rellenos (normalmente de bacalhau ou carne picada) e algumas carnes de caça, como lebre, veado ou perdiz.
Por tudo isso, eu recomendo a Taberna dos Conspiradores. Lá, a gente pode sair um pouco da Espanha tão repetida nos roteiros turísticos e nas caricaturas mais tradicionais, sem gastar muito dinheiro.
Para duas pessoas
| Uma chique salada de pato com abobrinha e figo confeitado, de primeiro prato |
| Buñuelos de bacalhau, de segundo |
| Carrillada (carne cozida no molho de verduras com vinho branco), para terminar |
Para quem está em Madrid, é um lugar muito recomendável. Para quem não está, fica a dica para quando puder vir.
Tendo em conta que estamos em tempos de crise, é importante ressaltar: o jantar nos saiu por menos de 20€ por pessoa e poderia ter sido bem menos se a gente não tivese pedido comida para três.
Tendo em conta a inflação dos preços na minha cidade natal, 37€ para duas pessoas jantarem e beberem é uma dica econômica. Para mim, é mais barato jantar bem em Madrid do que em Curitiba. Só para comparar, outro dia estive na capital do Paraná e pra tomar uma meia dúzia de cerveja e um par de caipirinhas num buteco da moda, pagamos, os mesmos Alberto e eu, nada mais nada menos do que R$ 79,00 - uns 30€ ao cambio do dia.
Editado 12/06, às 17hs
Recomendo dois sites para os amantes dos bares e delícias da gastronomia espanhola e/ou internacionais:
Eu conheço um lugar
Comer con los ojos
Já escrevi sobre este tema. Talvez te interesse este post:
A baixa Gastronomia - Da coxinha à morcilla
Esse é daqueles assuntos sem fim. A história recorrente que sempre vem à tona, que sempre se debate em casal, constantemente questionado pelos amigos e calado pelos pais e pela família.
Mas é o tema que sempre existe dentro do expatriado. É como a saudade. Dorme, mas não desaparece.
Com a inversa situação econômica entre Brasil e Espanha, "a volta" é mais falada, perguntada, debatida.
Ontem eu estive em um evento onde conheci muitas brasileiras que estão na Espanha há diferentes
períodos de tempo e por diferentes motivos. Todas temos vontade de voltar pro país onde nascemos e concordamos que o principal motivo que nos faz questionar sobre se "ir" é melhor do que "ficar", se resume em situações como essa:
Restaurantes da zona oeste de SP são alvos de arrastão
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| Fonte: Folha de SP |
Arrastão?
Sério. Eu não sou muito exigente com a vida.Um dia eu vou voltar ao Brasil, todo mundo volta. Mas talvez seja por isso que a gente demore tanto em dar esse passo.
Hoje me contaram (sim, estou lendo poucas notícias) que saiu na Veja (¡uy!) que o Lula pediu para adiar a investigação sobre o mensalão. Minha primeira sensação foi (desculpem a sinceridade) de nojo. Um nojo cru, puro e sincero. É difícil você estar há tanto tempo longe, vendo todo mundo falando maravilhas do seu país e saber que na verdade nada mudou. Simplesmente existe mais dinheiro por lá e pronto. Tem trabalho pra todo mundo e os ricos que investirem por lá serão ainda mais ricos. Depois que eles arrancarem toda a grana do país, pegarão suas coisas, euros, dólares, ienes e reais e explorarão outros mercados.
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| Legal né, Lula? |
Se impressionar com isso é ingenuidade e se deslumbrar chega a ser feio; coisa de novo rico que fica de nariz empinado, se sentindo o melhor do que os outros, que são como ele era, só porque agora tem mais grana. O dinheiro infla o ego das pessoas. Sabemos que é assim e isso está acontecendo com muitos brasileiros. Apesar de ser compreensível é um pouco triste e bastante chato.
Mas por quê estou falando tudo isso?
Porque depois desse sentimento inicial de desprezo aos políticos do meus país e à passividade da sociedade em geral, li uma notícia sobre a Espanha que me parece ainda pior: Um diretor do Bankia tem direito à 14 milhões de indenização.
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| Nos dan por todos los lados, en todos los países, siempre. Indignarse es poco. |
A maioria do pessoal nem deve saber, mas com a tal da crise na Espanha, um banco privado foi resgatado com dinheiro público. Ou seja: com a minha grana, meus impostos, meu salário, meu trabalho.
O Estado pagou 23,5 bilhões de euros para salvar um banco privado, que foi nacionalizado, gerando um custo médio de €1.300 por contribuinte e que não sabemos se algum dia vai gerar algum benefício público. Com tudo isso, esse mesmo banco vai pagar 14 milhões de euros para um ex-diretor. Ficou indignado? Então...
Isso nem é tudo. Estamos vivendo um recorte completo em todo o estado de bem estar: aposentadorias, educação, saúde pública.. Pouco a pouco tudo isso vai pro brejo. Com muito esforço, podemos entender os recortes, mas essa injeção em um banco privado, não. Imagina saber que parte dessa grana vai pra pagar a indenização de um dos caras responsáveis pela quebra da instituição.
Eu precisava escrever estes parágrafos porque precisava ser justa e mostrar pra mim mesma e para todos os brasileiros infelizes com as grandes injustiças do nosso país, que aqui, onde eles chamam de "primeiro mundo", tem uma grande quantidade de merdas iguaizinhas às que estamos acostumados a jantar durante o Jornal Nacional.
Naquela época eu trabalhava em um grupo de comunicação com postura bastante conservadora. Intereconomia era um dos alvos dos grevistas e naquele dia, o jornal La Gaceta nem sequer foi distribuído. Os piquetes impediram que os caminhões saíssem da gráfica.
Neste ano eu não posso dizer qual é o clima nas ruas, pois estou trabalhando e vendo tudo pela televisão. Não porque eu não apoie a greve, ao contrário: concordo com o quê os manifestantes e os trabalhadores dizem - apesar de estar contra os sindicatos.
Mas escrevo sobre a greve geral na Espanha porque é algo impressionante para uma pessoa que, como eu, vem de um país de apáticos que sempre diz que "sim" a tudo e não tem este espírito de coletividade para lutar pelos direitos de todos..
"O fracasso é um ponto de vista"
Esta manhã a oposição dizia que a greve foi um fracasso, com adesão de apenas 18 ou 20% da população. Você imagina uma manifestação na sua cidade em que 20% da população participe? Em Curitiba, cidade de onde venho, haveria mais de 50.000 pessoas na rua. Um amigo de lá me disse que na última manifestação contra a corrupção que ele foi não tinha nem 200 pessoas apoiando.Por outro lado, os sindicatos dizem que mais ou menos 70% dos espanhóis aderiram à greve.
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| Foto publicada hoje no Twitter de @domigosanpedro, original de Gustavo Ribas. Mais e mais fotos aqui |
Apesar de alguns distúrbios violentos e dos quase 60 presos (antes das 16hs), a greve é um direito e exercê-lo não está mal visto por aqui. Se respeita o "direito a fazer greve" ou o "direito a trabalhar" e isso foi uma das coisas que mais me chamaram a atenção. Na minha empresa, dias antes da greve, recebemos um e-mail do RH perguntando quem participaria da manifestação e quem trabalharia. Tudo bastante normal e sem pressão de nenhuma parte.
No Twitter, a apresentadora de um dos programas jornalísticos mais importantes do país, emitido pela televisão pública, explicava que hoje a TVE trabalhava com serviços mínimos: dois telediários emitidos ao longo do dia.
Por quê tudo isso?
Existe uma motivação política que leva os Sindicatos a se posicionarem contra o governo. Mas os principais motivos da greve geral são as medidas austeras deste governo direitista com relação à política social do país (amigos residentes, me corrigam se eu estiver errada):- Reforma Laboral
- Recortes na saúde pública
- Recortes na educação pública e diminuição dos salários de professores
- Possibilidade de privatição do Canal Isabel II, o serviço de água de Madri
Enquanto isso, a minha outra cidade, Curitiba, faz aniversário
São 319 anos e pelo menos os últimos 10, até onde minha memória alcança, são de desorganização, ignorância, marketing e corrupção. Tudo isso em uma cidade de quase 2 milhões de pessoas, onde muitos não têm acesso a serviços como saneamento básico e educação. Mesmo assim, o governo investe massivamente em publicidade para convencer todo mundo de que Curitiba é a Capital Ecológica, a Cidade Modelo do Brasil. Com tantos cartazes bonitos, os que têm educação e saneamento básico, parecem esquecer de que os demais são parte dessa mesma "cidade modelo".Então, lá no "primeiro mundo brasileiro", só quem faz greve são porteiros e zeladores. Segundo a Gazeta do Povo, porteiros e demais funcionários dos condomínios de Curitiba pedem "reajuste de 15% e equiparação com os vencimentos dos profissionais do interior do estado". Como resposta, a presidente do Sindicato da Habitação e dos Condomínios, Liliana Ribas Tavarnaro, afirmou que não há condições para conceder reajuste, pois “condomínio não é empresa, não tem lucro”.
Enquanto a senhora Tavarnaro diz que condomínio não é empresa, a notícia que informa sobre a greve, acertadamente se refere aos zeladores e porteiros como profissionais e funcionários; portanto, pessoas que têm direito a exigir melhorias nas suas condições de trabalho - a escravidão acabou no Brasil lá por 1888 né? Mas parece que esqueceram de avisar à essa senhora que se ela não está disposta a pagar salários aceitáveis aos seus colaboradores, ela mesma pode abrir as portas do seu prédio e limpar o seu elevador. Tal e como fazem as pessoas nos países ela vai passar as férias com seu marido, achando tudo lindo, limpo e "exemplar".
Mas em Curitiba ninguém nem lê a notícia. Só se darão conta da greve quando não encontrarem ninguém para abrir as portas dos seus prédios. Na cidade modelo, quem não é modelo é invisível. Ou algum de nós vai se unir para apoiar a classe dos porteiros, que nem sequer são considerados funcionários pela própria presidente do Sindicato da Habitação e dos Condomínios?
E as prostitutas?
Na Europa, o direito à greve é utilizado até por aquelas que no Brasil são motivos de risadas, como as prostitutas.Ontem, as prostitutas de luxo fecharam as pernas e iniciaram um protesto para conseguir linhas de créditos às famílias carentes (!). Elas decidiram que não vão mais fazer sexo com banqueiros, com a intenção de "pressionar o setor" e querem que eles "cumpram suas responsabilidades sociais".
Os bancos, maiores responsáveis pela crise européia, parecem ter os seus dirigentes nos postos de trabalho pior vistos da atualidade. Ser filho da puta já não tem problema, elas têm dignidade.... e não a vendem para um banqueiro qualquer.
As prostitutas do "primeiro mundo" fecham as pernas e os porteiros da "cidade modelo" não abrem as portas. Enquanto isso, parte de Curitiba aplaude a sua própria hipocrisia e falta de educação, na celebração do seu aniversário.
Hoje no trabalho, eu ouvi, depois de muito tempo, aquelas gaitinhas de plástico que fazem: fluuuuulilllflululu! A típica gaitinha de bolso de vendedor de sorvete na rua. Me lembrei da minha infância e dos dias de férias no verão, quando todas as crianças saiam correndo descalças com moedinhas na mão ao escutar a gaita do tiozinho.
Lembrei do Maionese e do irmão dele, que sempre ganhavam um picolé extra, porque compravam uma bacia inteira de sorvete.
Lembrei que o vendedor sorteava um picolé, jogando-o para cima e todo mundo saía correndo para pegá-lo. Dependendo do vizinho que conseguisse, o sorvete era dividido com todo mundo.
Lembrei dos sabores: maracujá, morango, abacaxi, uva, milho verde e os mais caros: mini-saia e esquimó. Esses a gente só podia comprar às vezes, porque normalmente as moedas não eram suficientes. O mini-saia se chamava assim porque a metade de cima era de creme e a de baixo era de alguma coisa rosa choque. O Esquimó era de alguma coisa branca, com uma casquinha de chocolate por cima. Comprar o Esquimó era quase sinônimo de status na nossa rua e tinha que dar um pedaço pra todo mundo.
Recordei tudo isso porque aqui não tem ambulante, praticamente não existe comércio informal e as crianças não saem na rua correndo descalças. Tampouco ficam amigas do vendedor de sorvete, comem sonho do carro do sonho que vai passando para a freguesia, ou curau de milho cozido. Aliás, essas coisas nem existem por aqui.
Aqui é tudo diferente. Tudo é industrial e tudo está controlado. Mesmo que o desemprego esteja chegando aos 25%, o Estado não deixa ninguém abrir um postinho de algodão doce na rua, nem de pipoca ou de cachorro quente. A rua é de todos, mas não é de ninguém. Existe liberdade e a liberdade não existe.
Ninguém aqui quer sair para vender picolé na rua e nenhum pai, em sã consciência, deixaria seu filho tomar um sorvete "de água de esgoto", como diria o "S"Ernesto.
Aqui tudo é melhor, mas mais chato. Tudo está certo e tudo está feito. Aqui nem sequer sabem do quê eu estou falando, porque muitas vezes não entendem minhas palavras. Aqui eles falam de nostalgia e provavelmente não entendam o que significa saudades....
Entre as grandes lendas sobre a Espanha, está a Siesta.
Eu lembro quando a Marian, amiga da minha irmã, veio me visitar...
- A siesta é real?
- Não.
- Ahh sério? Você acabou de assassinar um mito! Acreditar na siesta era como acreditar em um conto de fadas!
Mas eu escrevo este post para me redimir. As coisas não são bem assim.
Em uma cidade como Madri, onde o ritmo de vida é frenético e o dia a dia é movido pelo dinheiro, alguns costumes tão enraizados como a siesta, perdem força. Você vai ao centro de Madri qualquer domingo, e todas as lojas estão abertas e as pessoas comprando feito loucas (em plena crise). Mas você anda meia hora e entra em qualquer bairro e encontra isso - em plena crise e sem nenhuma preocupação.


















