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Almodóvar e a vida como ela é

Antes de vir morar na Espanha era uma grande fã do trabalho do Almodóvar. Utilizar o surrealismo como linha narrativa me parece sensacional. Lembro da cena de um dos seus filmes, quando um roteirista de cinema recortava notícias em um jornal para utilizá-las como argumentos para suas histórias. Ele procurava por temas curiosos, absurdos, intrigantes...

O modelo almodovariano de escrever e de conceptualizar histórias, normalmente são associados à Espanha e, por isso mesmo, muitos espanhóis não gostam do seu trabalho. Pelo que eu entendi, eles parecem pensar que relacionar a Espanha com o Almodóvar, é como relacionar o Brasil com a cultura do Rio de Janeiro, do samba e do Carnaval.

Mas o fato é que hoje, durante minha leitura matinal de blogs e notícias, encontrei uma história que deixaria as do Almodóvar no chinelo, e queria compartirlhá-la com vcs. Porque o naturalismo, o surrealismo e o absurdo não são exclusividades do cinema espanhol.... É só ligar a TV no Brasil, que a gente pode encontrar coisas muito mais bizarras ou divertidas do que vemos nas telas do excêntrico cinema europeu.

O texto é do jornalista Ricardo Aoki, catarinense de Itajaí, e dono do blog "Soco na Costela", um nome muito sugestivo.... Recomendo a navegação.


Ex-Pastor é ator de filme pornô gay

Ontem eu estava vendo o SBT Repórter que falava sobre a indústria do sexo. Confesso, só assisti ao programa por causa do tema, senão nem tinha perdido meu tempo. Pois bem, lá estou eu vendo o César Filho apresentar o programa quando ele anuncia a chamada de uma das matérias: "Pastor deixa igreja para virar estrela do cinemapornô". Fiquei interessado na matéria. O cara deixou de pregar a palavra de Deus para se dedicar a pegar a mulherada nos filmes eróticos. Grande sacada dele.
O programa segue, primeiro com uma matéria com a MárciaImperator. Para quem não sabe ela é uma das atrizes pornô mais bem pagas do Brasil. Ganha cerca de R$ 7 mil por filme e olha que tem jornalista que não ganha isso no ano. Mas isso é uma outra história. Depois vem uma matéria com uma superstar norte americana e finalmente a matéria com o pastor.
A entrevista começa com o repórter, que não me lembro o nome, andando em um jardim. De um lado o ex-pastor e do outro lado dorepórter a esposa do pastor. Mas para minha surpresa o cidadão, que também não me lembro o nome, deixou a igreja para virar atorpornô. Até ai tudo bem, mas o cara virou ator pornô gay. Tudo bem, não é preconceito, mas fiquei indignado com a esposa do cara, principalmente quando o cidadão disse que só faz filme passivo, e ela não tem ciúmes dele. Mas que não permitiria que ele fizesse filmes com mulheres.
Vejam que situação bizarra, a esposa deixa o cara fazer filme gaypassivo e diz que não sente ciúmes, porém se ele fizer filme com mulher ela fica com ciúmes. O repórter fica sem entender e pergunta várias vezes se ela não sente nada. A resposta é sempre que não. Dai o ex-pastor diz que é uma profissão e que o fato dele ser passivo não reduz sua heterossexualidade.????
Vai entender esse mundo. Tento não ser preconceituoso nesse blog, na verdade a crítica nem é preconceituosa. Parem o mundo que eu quero descer. Acho que são os fluídos de 2012 que já estão fazendo efeito na cabeça das pessoas. O que leva o cidadão a fazer mais de 300 filmes gays, na situação de passivo, ou seja, dando o toba e mesmo assim afirmar que não é gay? Por dinheiro? Acredito que o dinheiro, que nem é tanto assim, não é suficiente para uma pessoa se expor dessa forma. Está certo que muita gente vai dizer que éprofissional. Tudo bem, profissional que jeito? E olha que para me deixar surpreendido com as coisas mundanas é muito difícil. Mas essa, confesso que fiquei muito surpreso.
Afinal, ele faz o que bem entender com o seu . Faz parte, cada um sabe da sua vida. Mas se expor na televisão com a esposa e os filhos é demais. Quem está errado? Ele ou a emissora que mostra uma bizarrice dessas? Tem valor jornalístico? Eu tenho minhas dúvidas.

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A greve geral, os porteiros e as prostitutas

É a segunda greve geral que vivo na Espanha e dessa vez quase cheguei a vê-la, pois moro ao lado do trabalho e não uso o transporte público da cidade. Mas lembro muito bem da primeira - foi muito impactante para mim. Eu estava fazendo um curso fora da empresa onde trabalhava e tive que usar o metrô, que demorou muito para chegar. Os manifestantes faziam piquetes e senti um pouco de medo de que me dissesem alguma coisa por estar andando na rua, por não estar manifestando meu apoio a eles. Vi fábricas, lojas e restaurantes fechados e os trabalhadores segurando faixas e cartazes.

Naquela época eu trabalhava em um grupo de comunicação com postura bastante conservadora. Intereconomia era um dos alvos dos grevistas e naquele dia, o jornal La Gaceta nem sequer foi distribuído. Os piquetes impediram que os caminhões saíssem da gráfica.

Neste ano eu não posso dizer qual é o clima nas ruas, pois estou trabalhando e vendo tudo pela televisão. Não porque eu não apoie a greve, ao contrário: concordo com o quê os manifestantes e os trabalhadores dizem - apesar de estar contra os sindicatos.
Mas escrevo sobre a greve geral na Espanha porque é algo impressionante para uma pessoa que, como eu, vem de um país de apáticos que sempre diz que "sim" a tudo e não tem este espírito de coletividade para lutar pelos direitos de todos..

"O fracasso é um ponto de vista"

Esta manhã a oposição dizia que a greve foi um fracasso, com adesão de apenas 18 ou 20% da população. Você imagina uma manifestação na sua cidade em que 20% da população participe? Em Curitiba, cidade de onde venho, haveria mais de 50.000 pessoas na rua. Um amigo de lá me disse que na última manifestação contra a corrupção que ele foi não tinha nem 200 pessoas apoiando.

Por outro lado, os sindicatos dizem que mais ou menos 70% dos espanhóis aderiram à greve.

Foto publicada hoje no Twitter de @domigosanpedro, original de Gustavo Ribas. Mais e mais fotos aqui

Apesar de alguns distúrbios violentos e dos quase 60 presos (antes das 16hs), a greve é um direito e exercê-lo não está mal visto por aqui. Se respeita o "direito a fazer greve" ou o "direito a trabalhar" e isso foi uma das coisas que mais me chamaram a atenção. Na minha empresa, dias antes da greve, recebemos um e-mail do RH perguntando quem participaria da manifestação e quem trabalharia. Tudo bastante normal e sem pressão de nenhuma parte.

No Twitter, a apresentadora de um dos programas jornalísticos mais importantes do país, emitido pela televisão pública, explicava que hoje a TVE trabalhava com serviços mínimos: dois telediários emitidos ao longo do dia.

Por quê tudo isso? 

Existe uma motivação política que leva os Sindicatos a se posicionarem contra o governo. Mas os principais motivos da greve geral são as medidas austeras deste governo direitista com relação à política social do país (amigos residentes, me corrigam se eu estiver errada):
  1. Reforma Laboral
  2. Recortes na saúde pública
  3. Recortes na educação pública e diminuição dos salários de professores
  4. Possibilidade de privatição do Canal Isabel II, o serviço de água de Madri

Enquanto isso, a minha outra cidade, Curitiba, faz aniversário

São 319 anos e pelo menos os últimos 10, até onde minha memória alcança, são de desorganização, ignorância, marketing e corrupção. Tudo isso em uma cidade de quase 2 milhões de pessoas, onde muitos não têm acesso a serviços como saneamento básico e educação. Mesmo assim, o governo investe massivamente em publicidade para convencer todo mundo de que Curitiba é a Capital Ecológica, a Cidade Modelo do Brasil. Com tantos cartazes bonitos, os que têm educação e saneamento básico, parecem esquecer de que os demais são parte dessa mesma "cidade modelo".

Então, lá no "primeiro mundo brasileiro", só quem faz greve são porteiros e zeladores. Segundo a Gazeta do Povo, porteiros e demais funcionários dos condomínios de Curitiba pedem "reajuste de 15% e equiparação com os vencimentos dos profissionais do interior do estado". Como resposta, a presidente do Sindicato da Habitação e dos Condomínios, Liliana Ribas Tavarnaro, afirmou que não há condições para conceder reajuste, pois “condomínio não é empresa, não tem lucro”.

Enquanto a senhora Tavarnaro diz que condomínio não é empresa, a notícia que informa sobre a greve, acertadamente se refere aos zeladores e porteiros como profissionais e funcionários; portanto, pessoas que têm direito a exigir melhorias nas suas condições de trabalho - a escravidão acabou no Brasil lá por 1888 né? Mas parece que esqueceram de avisar à essa senhora que se ela não está disposta a pagar salários aceitáveis aos seus colaboradores, ela mesma pode abrir as portas do seu prédio e limpar o seu elevador. Tal e como fazem as pessoas nos países ela vai passar as férias com seu marido, achando tudo lindo, limpo e "exemplar".

Mas em Curitiba ninguém nem lê a notícia. Só se darão conta da greve quando não encontrarem ninguém para abrir as portas dos seus prédios. Na cidade modelo, quem não é modelo é invisível. Ou algum de nós vai se unir para apoiar a classe dos porteiros, que nem sequer são considerados funcionários pela própria presidente do Sindicato da Habitação e dos Condomínios?

 

E as prostitutas?

Na Europa, o direito à greve é utilizado até por aquelas que no Brasil são motivos de risadas, como as prostitutas. 

Ontem, as prostitutas de luxo fecharam as pernas e iniciaram um protesto para conseguir linhas de créditos às famílias carentes (!). Elas decidiram que não vão mais fazer sexo com banqueiros, com a intenção de "pressionar o setor" e querem que eles "cumpram suas responsabilidades sociais".

Os bancos, maiores responsáveis pela crise européia, parecem ter os seus dirigentes nos postos de trabalho pior vistos da atualidade. Ser filho da puta já não tem problema, elas têm dignidade.... e não a vendem para um banqueiro qualquer.


As prostitutas do "primeiro mundo" fecham as pernas e os porteiros da "cidade modelo" não abrem as portas. Enquanto isso, parte de Curitiba aplaude a sua própria hipocrisia e falta de educação, na celebração do seu aniversário.

Greve? O Brasil parece ter problemas chiques demais para se preocupar com política, recortes púbicos, direitos sociais ou educação. Na minha cidade no sul do sul do mundo, estão mais ocupados em exibir vídeos publicitários, enquanto deveriam estar lendo um livro para entender que criticar e se indignar é uma prova de amor muito maior do que maquiar problemas

Curitiba, orgulhosa de sua ascendência européia, não tem motivos reais para festejar seus 319 anos. Nossa modelo deveria aprender com  as prostitutas, com os porteiros e com os mais velhos (e a Espanha está dando exemplo hoje), que exigir dignidade, respeito e qualidade de vida para todos sim é um motivo para comemorar.

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A televisão na Espanha

Falar sobre a programação da tv de um país, é falar sobre um povo... da sua educação, do seu nível intelectual, cultural, social e também do seu grau de exigência para esses valores.

Eu escrevi no Tãmbler que a tv na Espanha é muito, mas muito ruim. Os telejornais são uma porcaria, parciais, superficiais, comprometidos com seus próprios interesses. As séries espanholas são feias, má produzidas, os roteiros são penosos. Só existe uma exceção: a televisão pública. Os demais programas de entretenimento têm um ar entre Silvio Santos, Gugu Liberato e Passa ou Repassa. Tudo é meio show de calouros, meio reallity, meio exagerado e fake. Os programas repetem formatos, enjoam e deixam claro que falta dinheiro. É a crise. Mas a culpa não é só dela... antes também era assim. Menos monótono, quem sabe. Mas era.

Para os interessados, meus amigos que trabalham no setor dizem que os programas aqui se dividem em 3 categorias: "amarillo", "rosa" e "blanco". Os amarelos são os sensacionalistas, os rosas, também conhecidos como "de corazón", são os de fofoca e os brancos são mais objetivos e procuram aportar conteúdo de qualidade.

Entre os amarelos e rosas se destacam (como não?) os reallitys e sobretudo o BBB, que esse ano estreiou sua 13ª edição (!!), com récode de audiência. Ultimamente o "ibope" do programa tem caído, o quê não é necessariamente uma boa notícia, pois os produtores amarelo-rosas da indústria televisiva espanhola não desistem. Os espectadores estão emocionados com o último lançamento:





Entre os participantes temos uma mãe que procura namorado para seu filho gay, uma ex prostituta que quer conquistar pacote gatinho + sogra e um monte de sogronas loucas para bater boca, lavar roupa suja e dizer palavrão na telinha.

Sim. Dizer: "a tomar por culo" na televisão espanhola, é normal. Mas tem coisa pior! Nesse tal de programa tem uma possível sogra que vetou o namoro do filho com uma candidata porque ela era negra. Sim, porque era negra. A coisa vai por esse nível.

Conto tudo isso porque reclamamos da tv brasileira. O quê quero dizer é que a televisão comercial e aberta é assim. E já disse que aqui existe uma única excessão; a tv pública. Você acharia normal ligar a TV Cultura e ver A Vida de Brian do Monty Python numa quarta feira qualquer? Deveria ser, né?
Aqui é. Ver a 1 ou a 2 normalmente é encontrar um copo d´agua no deserto. Um deserto quente, infinito e internacional.


(Mais? No Tãmbler!)