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A água é grátis

Uma das coisas que eu acho mais legais por aqui é poder pedir água grátis nos bares e restaurantes: "Y un vasito de água, si puede ser"- qualquer pedido sempre vai acompanhado desta frase no final. Nem precisa dizer que é "água de grifo" (de torneira); eles sabem e te trazem a água bem fresquinha.

Sempre fui da opinião de que a água é um bem público, um recurso vital da natureza e que, tá, até podem cobrar por ela, mas pô, negar água é sacanagem, né? Este era um dos grandes temas das minhas longas conversas vagabundas com o meu amigo Lalau nas tardes de sol do JP, o bairro onde crescemos.

Aqui na Espanha os donos dos bares e restaurantes pensam assim. Quando a gente vai em mais pessoas pedimos até uma "jarra de água de grifo". É normal, ninguém faz cara feia e até trazem a jarra com gelinho dentro.

Isso sim, vale a pena avisar que a água de Madri é "uma das melhores do mundo" (por quê todo mundo fala que as suas coisas estão entre as "melhores do mundo"?), mas existem outras comunidades autônomas (estados) onde a água não é tão gostosa. Em Barcelona, por exemplo, tem muito cálcio e fica com um sabor meio salgado... mas é potável e a cultura do copinho grátis também predomina.

Já aconteceu até de eu nem estar no bar e entrar só pra pedir um copo d´água pro garçom. Pode parecer cara de pau, mas é algo normal... tá calor lá fora, você tá morrendo, a água é grátis... por quê não?

Sempre comento com os amigos-turistas que passam pra me visitar: não gastem dinheiro com água - como diz a publicidade do Canal Izabel II (empresa de abastecimento de água de Madrid - que por sinal, está sendo privadizada), a água é um bem de todos!


E para os que têm um bar aí no Brasil, ofereçam alguma coisa grátis para os seus clientes: água, azeitona ou batatinha. Aqui todo mundo faz isso e é algo bastante comum, que acaba estimulando que o pessoal consuma mais. Além disso, o pessoal vai sair do seu estabelecimento muito mais felizes!

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Os bares de Madrid e a Taberna dos Conspiradores

Uma das melhores coisas de morar em Madrid é a quantidade, variedade e qualidade dos bares que a cidade oferece

Antes da chegada da crise econômica que nos assola, Madrid contava com 14.658 bares: um para cada 415 pessoas. Isso fazia com que fôssemos o país com mais bares, restaurantes e cafeterias de toda a Comunidade Européia. Com a crise, muitos fecharam, mas o espanhol, pela sua própria cultura, não deixa de ir ali na esquina tomar sua cervejinha no final da tarde nem de sair pra jantar no final de semana.

À noite a Espanha é mágica. Todo mundo está na rua comendo, bebendo, fumando, gritando e dando risada. É uma das coisas que eu mais gosto daqui: as pessoas não ficam dentro de casa, a vida está nas ruas. Por causa da tal da crise, temos saído menos e dado preferência a lugares que oferecem bom preço e qualidade.

Nesse fim de semana fomos jantar na Taberna dos Conspiradores, um bar-restaurante extremeño que fica no Barrio de las Letras, zona boêmia bem no centro cultural da cidade, entre os Museus do Prado, o Reina Sofia e o Thyssen Bornemisza. Um lugar com decoração autêntica, sem firulas para turistas, nem luxo desnecessário. Um bar com comida boa, preço acessível e gente agradável.

A cultura extremeña é pouco conhecida internacionalmente e menos valorizada internamente do que deveria. Extremadura é uma comunidad autónoma (estado) que está ao sudoeste da Espanha, fronteira com Portugal. Sua capital, a cidade de Mérida, foi fundada em 25a.c. e declarada Patrimônio Cultural pela Unesco, graças à conservação de um importante conjunto arqueológico de construções romanas.

Teatro Romano em Mérida - Extremadura

Palco do Teatro Romano de Mérida

A Gastronomia Extremeña

Apesar desse "esquecimento" turístico, Extremadura é reconhecida nacionalmente pela qualidade da sua gastronomia, conservando algumas tradições rurais muito importantes, que lhe garantem variedade no cultivo e tradição nos cuidados com a terra.

Devido à sua geografia, que une amenas temperaturas durante todo o ano, com a passagem de alguns dos principais rios do país, essa região conta com agricultura de qualidade, além de prestigiados produtos como queijo, mel, vinho, azeite, jamón de bellota e embutidos, que levam um selo de qualidade com denominação de origem - reconhecido e respeitado em toda Espanha.

Entre os pratos mais conhecidos da gastronomia extremeña estão as migas (parecido com a farofa, mas feito com farinha de pão), os buñuelos (tipo de empanado), variedades de preparos de arroz com partes do porco e embutidos, os pimientos rellenos (normalmente de bacalhau ou carne picada) e algumas carnes de caça, como lebre, veado ou perdiz.

Por tudo isso, eu recomendo a Taberna dos Conspiradores. Lá, a gente pode sair um pouco da Espanha tão repetida nos roteiros turísticos e nas caricaturas mais tradicionais, sem gastar muito dinheiro.

Para duas pessoas

Duas claras con limón, uma taça de vinho extremeño - gentilmente acompanhados de uma excelente tapa (porção) de arroz com frango e embutidos de porco (morcilla, chistorra e linguiça). "Gentilmente acompanhado" significa: por conta da casa.

Uma chique salada de pato com abobrinha e figo confeitado, de primeiro prato
Buñuelos de bacalhau, de segundo
Carrillada (carne cozida no molho de verduras com vinho branco), para terminar
Os pratos vieram nessa ordem e - na verdade - eu teria parado já na salada e o Alberto, nos buñuelos. Quero dizer que os pratos eram grandes e além de saborosos, bem servidos.

Para quem está em Madrid, é um lugar muito recomendável. Para quem não está, fica a dica para quando puder vir.

Tendo em conta que estamos em tempos de crise, é importante ressaltar: o jantar nos saiu por menos de 20€ por pessoa e poderia ter sido bem menos se a gente não tivese pedido comida para três.

Tendo em conta a inflação dos preços na minha cidade natal, 37€ para duas pessoas jantarem e beberem é uma dica econômica. Para mim, é mais barato jantar bem em Madrid do que em Curitiba. Só para comparar, outro dia estive na capital do Paraná e pra tomar uma meia dúzia de cerveja e um par de caipirinhas num buteco da moda, pagamos, os mesmos Alberto e eu, nada mais nada menos do que R$ 79,00 - uns 30€ ao cambio do dia.



Editado 12/06, às 17hs
Recomendo dois sites para os amantes dos bares e delícias da gastronomia espanhola e/ou internacionais:
Eu conheço um lugar
Comer con los ojos

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A baixa Gastronomia - Da coxinha à morcilla

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A baixa gastronomia. Da coxinha à morcilla.

Há alguns meses nasceu no Facebook o grupo "Curitiba - Baixa Gastronomia". Me uni quando ainda não eram nem 100 os membros registrados e aí fiquei como uma observadora, comentadora e apoiadora do movimento. Me parece genial que um grupo de pessoas se una para defender o valor do que existe de mais autêntico na culinária de um país. Hoje, além de ter um mapa onde os participantes podem marcar com um pin o endereço dos melhores bares, butecos e restaurantes da cidade, o BG também tem um blog em um jornal de Curitiba, onde desenvolve ainda mais as suas idéias puristas de defesa às "mesas boas, baratas e sem frescura da cidade".
Eu gostei tanto do grupo do BG, que no programa de rádio que colaboro falando sobre cultura digital (Cultura.es), apresentei a idéia junto com meu querido argentino Julian Irusta (link clicar em ver parte 1, executar a aplicação e ir direto pro minuto 20, mais ou menos), e não custa dizer que foi uma das minhas intervenções mais celebradas pelos ouvintes.
Aqui em Madri sinto saudades da comida da minha terra e nesses 3 anos namorando com o Alberto já o levei para degustar as maiores maravilhas da culinária brasileira. Desde moqueca baiana até churrasco gaúcho, barreado paranaense ou feijoada carioca. Mas para o meu espanhol, nada bate a boa e velha coxinha de frango. Ele ama, adora, delira com a coxinha.
No começo eu dizia: mas Alberto, isso é comida de rodoviária barata! "Me dá igual, me encanta". Me fez refletir. Querem que a gente pense que caviar é melhor do que coxinha ou que esgargott é melhor do que bauru. Mas não é. Isso se chama classismo, elitismo gastronômico. Não quero dizer que o x-salada do Beto Lanches é melhor do que o strogonoff de camarão do Ille de France. Só acho que cada um prefere o quê o seu paladar definir, que devemos ter a mente aberta, e não podemos classificar nem etiquetar as comidas e as culinárias por preço ou valor. Não podemos ter preconceito com a baixa gastronomia, porque mais baixa gastronomia do que a feijoada, não existe. E quem não gosta de feijoada?
Me identifiquei muito com o Baixa de Curitiba. Sempre adorei os butecos brasileiros e depois de algum tempo em Madrid, comecei a ter os meus.
Primeiro foi o Pepe. Um bar que servia a melhor fritura da cidade, quando eu ainda morava com o Feli, a Lore e o Zé numa zona perdida lá no norte de Madri.
Depois chegou a descoberta das orelhas de porco e eu andava pelo centro da cidade procurando as melhores tabernas que servissem essa iguaria histórica na culinária castelhana.
Quando me mudei com o Alberto, adotamos o Cortijo do Lorenzo como nossa segunda casa: boas tapas grátis com cada cerveja pedida. Como carro chefe, o Loren tem no cardápio os melhores huevos estrellados con patatas que já provei. Se trata de um prato de batatas com ovo frito, pimientos del padrón e jamón. É fantástico! O ovo tem que vir com a gema muito molinha, com o garfo e a faca você corta tudo e mistura tipo arroz com feijão. Uma bomba calórica de sabor insuperável!
Mas o melhor ainda estava por vir. Nos mudamos e ao lado da nossa nova casa eu encontrei a glória. Literalmente: o La Glória é o melhor refúgio da baixa gastronomia madrilenha. Nas palavras de um espanhol no Foursquare: "Tasca típica madrileña de esa especie en peligro de extinción donde se bordan los platos, las mollejas, los boquerones, el entrecot.... a precios asequibles".
Não tenho fotos das minhas visitas ao La Glória, mas garanto que os melhores pratos desse antro da Baixa são os callos (dobradinha), os judiones del huerto, o ovo cozido recheado com molho rosé e aspargos, as beringelas rebozadas e as mollejas.


Ainda perto de casa, no conceito: uma tapa grátis para cada bebida pedida- estratégia definitiva dos bares madrilenhos para te embebedar fácil, está o Nanis Vinateria. Do lado de casa e minha iguaria favorita da atualidade: a Morcilla de Burgos:
Na primeira foto uma porção de Cecina e outra de Morcilla - só para os fortes.
Na segunda a clarita con limón que minha irmã adora e as tapas grátis: azeitonas com azeite e mortadela quentinha.
O Nanis Vinateria. Um ponto de encontro das famílias do bairro.


O legal é que o conceito da Baixa gastronomia se repete em Curitiba, em Madri ou em Sevilha. 
Entrar em um refúgio da BG, é como um voltar à casa constante.


Estatuto da Baixa Gastronomia, adaptado da definição dada pelo André Barcinski para "Culinária Ogra": http://bit.ly/jwCopf
1 - Não pode ter nome com “Chez” ou “Bistrô”
2 - A comida precisa ocupar ao menos 85% da área total do prato
3 – Não pode ter “chef”, e sim “cozinheiro”
4 – Não pode ter “menu”, e sim “cardápio”
5 – Algumas palavras proibidas nos cardápios: “nouvelle”, “brûlée”, “pupunha”, “espuma”, “lâmina”, “lascas” e “contemporânea”
6 – Não pode ter filiais
7 - Os garçons não podem ser modelos, manequins ou atores, com preferência para garçons velhos e feios
8 – Os garçons precisam passar no teste da colherzinha, que consiste em servir arroz com uma só mão, juntando duas colheres, sem derramar um grão sequer
9 – Não pode estar localizado no Batel
10 – Teste final: se o garçom, ao ser perguntando “o que é ‘El Bulli’?”, responder qualquer coisa que não seja “é onde eu sirvo o café”, o restaurante está eliminado.


Aproveito esse post para retomar uma ideia que trabalhava no meu antigo e falecido blog: a categoria "Coolritiba", uma curadoria muito pessoal das coisas, projetos e pessoas legais da minha cidade. A galera do Baixa, sem dúvidas, são parte disso.


Mais sobre as diferenças gastronômicas Brasil-Espanha, no Tãmbler.