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Brasil não é um país carioca

Aconteceu de novo.... A Presidente Dilma estava em Madri na semana passada e o Brasil voltou à capa de todos os jornais do país. Abrindo a app do El País online, lá estava: Brasil, el país carioca decide....

Grrr! Outra vez!
Quando eu trabalhava como jornalista em um grupo de comunicação que insistia em chamar o Brasil de "país carioca", eu escrevi um post no meu falecido blog que gerou certa repercussão entre meus companheiros, e rendeu um orgulhoso primeiro lugar no Google para quem procurava por"País carioca".

Ressuscito o texto porque acho interessante a gente saber o pouco que eles conhecem sobre o nosso país por aqui. É normal, claro. Sei que tem muita gente que acha que os espanhóis comem paella e tomam sangria todos os dias. Infelizmente isso não é verdade :)
Esse foi o grãozinho de areia que eu tentei somar à desmistificação do nosso país. O link para o post original está aqui. Foi o primeiro e único que escrevi em dois idiomas.
Espero que gostem.


Brasil no es un "país carioca"

Decir que Brasil es un "país carioca" es como decir que España es un "país flamenco" o un "país madrileño". O decir que Francia es un "país parisino".

O Brasil não é um "país carioca"
Levo algum tempo publicando tuits com a intenção de transmitir aos jornalistas espanhóis que o conceito de "país carioca" não existe. Com as eleições no Brasil, os meios de comunicação estão dedicando mais tempo e espaço ao gigante sul americano e pensei que este seria o momento de publicar um post detalhando un pouco melhor o assunto.
Sempre tuiteo que dizer que Brasil é um "país carioca" é o mesmo que dizer que Espanha é un "país flamenco" ou um "país madrilenho". Ou que França é um "país parisino".
É absurdo e sem sentido.
Brasil é um país brasileiro! E o Rio de Janeiro é una província carioca. Ou melhor, cariocas são os que nascem na cidade do Rio.
Nasci no Brasil, lá tenho o meu coração e não, não sou carioca.
Aliás: sou brasileira e prefiro o whisky à caipirinha, o blues ao samba e as botas às havaianas. Não somos todos iguais... assim que por favor, não nos tratem como se fôssemos todos membros de uma escola de samba. O Brasil é muito mais do que isso. Com o bom e com o ruim, mas não generalizem.
Minha cidade vê mais nuvens e chuva do que sol. Não temos praia, não temos Carnaval e somos bastante conservadores. Sou de Curitiba, uma cidade que está ao sul do Brasil. Mais perto do Paraguai, da Argentina e do Uruguai do que do Rio. Dizemos "guria" (como os uruguaios) e não "garota" (como os cariocas).
Entre o nosso universo e o universo carioca existem tantas diferenças quanto entre a cultura da Andalucía e do País Vasco. Acredito que os espanhóis são os que melhor podem entender o que quero dizer, e os entendo perfeitamente quando se molestam com a caricatura de que eles são toreiros e sevilhanas dançando flamenco e tomando sangria pela rua... Então, vamos aprender juntos. Assim podemos crescer como "culturas maravilhosas" que somos. Por favor, deixem de nos chamar "cariocas". Somos bem mais do que isso. Somos 200.000.000 de pessoas - todas diferentes.
Curitiba - Paraná - Brasil

 Llevo tiempo publicando tuits con la intención de transmitir a los periodistas españoles que el concepto de "país carioca" no existe. Pero con las elecciones en Brasil, los medios están dedicando más tiempo y espacio para el gigante sudamericano, así que pensé que era el momento de publicar un post aclarando un poco mejor el tema.
Siempre tuiteo que decir que Brasil es un "país carioca" es como decir que España es un "país flamenco" o un "país madrileño". O que Francia es un "país parisino".
Es absurdo y no tiene ningún sentido.
¡Brasil es un país brasileño! Y Río de Janeiro es una ciudad carioca. De hecho, cariocas son los que nacen en la ciudad de Río.
Nací en Brasil, ahí tengo mi corazón y no, no soy carioca.
Por cierto: soy brasileira y prefiero el whisky a la caipirinha, el blues a la samba y las botas a las havaianas. No somos todos iguales... así que por favor, no nos tratéis como si así fuera. Brasil es mucho más que esto. Con lo bueno y lo malo, pero no generalicéis.
Mi ciudad ve más las nubes y la lluvia que el sol. No tenemos playa, no tenemos Carnaval y somos bastante conservadores. Soy de Curitiba. Una ciudad estupenda que está al sur de Brasil. Más cerca de Paraguay, de Argentina y de Uruguay que de Río. Entre nuestro universo y el carioca existen tantas diferencias cuanto la cultura andaluza y la cultura vasca. Creo que los españoles sois los que mejor pueden entender lo que quiero decir yyo os entiendo perfectamente cuando os enfadáis con la caricatura de que los españoles son toreros y sevillanas bailando flamenco y tomando sangría que se ha creado por ahí... Así que aprendamos entre nosotros, y crezcamos como culturas únicas e maravillosas que somos; respetándonos siempre.



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Culturas?


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A livraria de livros grátis

Este post poderia ser publicado num desses sites sobre boas notícias. Porém, eu prefiro tratá-lo a partir do ponto de vista do acesso à cultura, pois uma livraria que oferece livros grátis não é apenas uma boa notícia, mas um projeto baseado em uma filosofia consciente e coerente com o que já foi a política cultural da Espanha. Utilizo o verbo no passado (foi) porque um dia chegou a crise, e com ela os políticos de direita e os recortes sociais.

Mas tudo bem. Mesmo que falem que os espanhóis são preguiçosos, eu acho que eles reagem muito bem à atual política, que se dedica a ir matando a melhor parte deste país: a igualdade - no acesso à informação, saúde, cultura, educação... Esses espanhóis, que organizam manifestações multitudinárias (só em Madrid já foram mais de 2 mil neste ano) contra cada recorte e mudança nas leis trabalhistas, também empreendem. A própria sociedade começa a realizar mudanças que o Estado já não é capaz de oferecer.

A ONG espanhola Grupo 2013 juntava livros para enviar à América Latina, quando conheceu uma livraria gratuita nos Estados Unidos: The Book Thing of Baltimore. E em Madrid nasceu a "Libros Libres" - livraria onde qualquer pessoa pode "comprar" quantos livros grátis quiser.

Grátis e com sofá. O confortável mundo dos Libros Libres, no bairro de Chamberí, em Madri. FONTE: Clarin.com

Mas como assim?

A Libros Libres recebe uma média de 50 doações por dia. Além disso, algumas editora souberam do projeto e doaram exemplares novos. Segundo os responsáveis, a livraria tem entre 5 e 10 mil livros disponíveis no local, além das diversas caixas no depósito.

Para que o projeto seja sustentável a ONG conta com sócios que pagam 12 euros por ano e podem alugar filmes por 1 euro - ou comprá-los por 2. Mas paga quem puder, quanto e quando quiser, "o acesso sempre está aberto para quem necessite", dizem os responsáveis.


Parece sonho?

Com essa grana a ONG paga os 400 euros de aluguel do espaço em Madri, além do salário de quem trabalha nos finais de semana. Nos demais dias, o público é atendido por voluntários e livreiros do Grupo 2013.



Só pra constar:

A ONG calculou que para se manter durante o ano de 2013, precisava de 365 sócios até o final de 2012. Em 20 dias a Libros Libres chegou a 155: "muitos sócios nos doam mais do que os 12 euros", explicam.

A livraria conta com novelas, poesia, obras de teatro, literatura infantil e juvenil, catálogos de arte, fotografia, filosofia, política e textos jurídicos em perfeito estado.

Pra quem não sabe, a Espanha está atravessando a maior crise econômica da sua democracia: 50% dos jovens estão desempregados e o total do desemprego no país ultrapassa os 20%.

"Trata-se de uma receita para a crise: que as pessoas continuem lendo e que se forme um povo intelectual", dizem os responsáveis pela ONG.



Estado pra quê, né? Se os ativistas fazem coisas muito mais legais!


Mais posts:

O acesso à Internet na Espanha


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Os bares de Madrid e a Taberna dos Conspiradores

Uma das melhores coisas de morar em Madrid é a quantidade, variedade e qualidade dos bares que a cidade oferece

Antes da chegada da crise econômica que nos assola, Madrid contava com 14.658 bares: um para cada 415 pessoas. Isso fazia com que fôssemos o país com mais bares, restaurantes e cafeterias de toda a Comunidade Européia. Com a crise, muitos fecharam, mas o espanhol, pela sua própria cultura, não deixa de ir ali na esquina tomar sua cervejinha no final da tarde nem de sair pra jantar no final de semana.

À noite a Espanha é mágica. Todo mundo está na rua comendo, bebendo, fumando, gritando e dando risada. É uma das coisas que eu mais gosto daqui: as pessoas não ficam dentro de casa, a vida está nas ruas. Por causa da tal da crise, temos saído menos e dado preferência a lugares que oferecem bom preço e qualidade.

Nesse fim de semana fomos jantar na Taberna dos Conspiradores, um bar-restaurante extremeño que fica no Barrio de las Letras, zona boêmia bem no centro cultural da cidade, entre os Museus do Prado, o Reina Sofia e o Thyssen Bornemisza. Um lugar com decoração autêntica, sem firulas para turistas, nem luxo desnecessário. Um bar com comida boa, preço acessível e gente agradável.

A cultura extremeña é pouco conhecida internacionalmente e menos valorizada internamente do que deveria. Extremadura é uma comunidad autónoma (estado) que está ao sudoeste da Espanha, fronteira com Portugal. Sua capital, a cidade de Mérida, foi fundada em 25a.c. e declarada Patrimônio Cultural pela Unesco, graças à conservação de um importante conjunto arqueológico de construções romanas.

Teatro Romano em Mérida - Extremadura

Palco do Teatro Romano de Mérida

A Gastronomia Extremeña

Apesar desse "esquecimento" turístico, Extremadura é reconhecida nacionalmente pela qualidade da sua gastronomia, conservando algumas tradições rurais muito importantes, que lhe garantem variedade no cultivo e tradição nos cuidados com a terra.

Devido à sua geografia, que une amenas temperaturas durante todo o ano, com a passagem de alguns dos principais rios do país, essa região conta com agricultura de qualidade, além de prestigiados produtos como queijo, mel, vinho, azeite, jamón de bellota e embutidos, que levam um selo de qualidade com denominação de origem - reconhecido e respeitado em toda Espanha.

Entre os pratos mais conhecidos da gastronomia extremeña estão as migas (parecido com a farofa, mas feito com farinha de pão), os buñuelos (tipo de empanado), variedades de preparos de arroz com partes do porco e embutidos, os pimientos rellenos (normalmente de bacalhau ou carne picada) e algumas carnes de caça, como lebre, veado ou perdiz.

Por tudo isso, eu recomendo a Taberna dos Conspiradores. Lá, a gente pode sair um pouco da Espanha tão repetida nos roteiros turísticos e nas caricaturas mais tradicionais, sem gastar muito dinheiro.

Para duas pessoas

Duas claras con limón, uma taça de vinho extremeño - gentilmente acompanhados de uma excelente tapa (porção) de arroz com frango e embutidos de porco (morcilla, chistorra e linguiça). "Gentilmente acompanhado" significa: por conta da casa.

Uma chique salada de pato com abobrinha e figo confeitado, de primeiro prato
Buñuelos de bacalhau, de segundo
Carrillada (carne cozida no molho de verduras com vinho branco), para terminar
Os pratos vieram nessa ordem e - na verdade - eu teria parado já na salada e o Alberto, nos buñuelos. Quero dizer que os pratos eram grandes e além de saborosos, bem servidos.

Para quem está em Madrid, é um lugar muito recomendável. Para quem não está, fica a dica para quando puder vir.

Tendo em conta que estamos em tempos de crise, é importante ressaltar: o jantar nos saiu por menos de 20€ por pessoa e poderia ter sido bem menos se a gente não tivese pedido comida para três.

Tendo em conta a inflação dos preços na minha cidade natal, 37€ para duas pessoas jantarem e beberem é uma dica econômica. Para mim, é mais barato jantar bem em Madrid do que em Curitiba. Só para comparar, outro dia estive na capital do Paraná e pra tomar uma meia dúzia de cerveja e um par de caipirinhas num buteco da moda, pagamos, os mesmos Alberto e eu, nada mais nada menos do que R$ 79,00 - uns 30€ ao cambio do dia.



Editado 12/06, às 17hs
Recomendo dois sites para os amantes dos bares e delícias da gastronomia espanhola e/ou internacionais:
Eu conheço um lugar
Comer con los ojos

Já escrevi sobre este tema. Talvez te interesse este post:
A baixa Gastronomia - Da coxinha à morcilla

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Fito Paez y su piano

No era día de escribir, pero escuchar a Fito Paez me hace tener ganas de contarle a todo el mundo lo maravilloso que es conocerle.

Fito é um cantor, compositor, pianista e intérprete argentino que morou muitos anos em Madri, um apaixonado pelo Brasil que entrou na minha vida lá pelo ano 2009, quando eu já morava na capital.

Tem umas 2 ou 3 canções suas que me geraram aquele sentimento de identidade, sabe? Em 2009 eu estava me conhecendo ao mesmo tempo que conhecia Madri, a independência de finalmente morar sozinha em um apartamento de 25 metros quadrados, sem elevador, sem forno, mas com a delícia de ser completamente independente. Eu morava na calle Princesa, ao lado da Gran Vía, quase na frente da Plaza España, e tinha meu primeiro trabalho legal pra caramba, do jeitinho que eu queria. Todos os dias conhecia pessoas novas e só conseguia olhar pra frente. E via um futuro brilhante e divertido.

Fito foi parte da época em que conheci o Alberto e andávamos juntos pela Gran Vía ouvindo as músicas que ele tinha no iPod. Era inverno, a gente andava rápido e abraçados, vendo as pessoas e sorrindo grátis para todo mundo.


Em 2011 eu ganhei um par de entradas em um sorteio (sou boa nisso!) para o show do Fito num teatro lá naquela mesma Gran Vía que tinha sido a minha estrada de todos os dias, apenas alguns anos antes.

O show do Fito foi tão legal quanto eu imaginava. Ele tem muita energia ao vivo e conta histórias com o seu piano. Mistura bossa, dor, alegria, rock, Titãs, Barão Vermelho, Calamaro, Caetano, música clássica e samba.

Naquela época, essas eram as canções dele que eu gostava de verdade, porque foram as músicas que me ajudaram a construir uma etapa da minha vida..

Mas hoje eu descobri esse disco (Canciones para Aliens), que tem um tango gravado com o Chico Buarque, uma versão fantástica de "Construção" e uma preciosa interpretação de Va, Pensiero, de Verdi. Na verdade é todo um álbum de versões, com uma interpretação absolutamente emocionante de Somebody to Love do Queen, que se chama Las dos caras del Amor.



Fito é desses artisas que surpreendem porque não se prendem a nenhum estilo, além do seu próprio. Mas mais do que isso, é desses intérpretes e compositores que te ensinam e mostram novos caminhos da música.

Um argentino, com alma brasileira, espanhola, sul-americana, européia. Quem o conhece como é "estar ao lado do caminho, inalando a fumaça enquanto tudo acontece.. que gosta de abrir os olhos, estar vivo e encarar a ressaca".... Mas mais do que isso... Paez foi o único cara que conseguiu traduzir o sentimento de "voltar do esquecimento para lembrar dos sonhos da minha casa, da criança que jogava bola"... E escutar o que Fito fala sobre mim mesma, sempre me emociona.

si alguna vez me cruzas por la calle
regálame tu beso y no te aflijas
si ves que estoy pensando en otra cosa
no es nada malo, es que pasó una brisa
la brisa de la muerte enamorada
que ronda como un ángel asesino
mas no te asustes siempre se me pasa
es solo la intuición de mi destino

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El Spanglish

Tal e como nós temos o portunhol e não nos envergonhamos dele, os espanhóis têm o spanglish. A verdade é que eles não falam inglês e a maioria dos espanhóis que diz que fala, fala mal.

Existem algumas coisas chochantes, como por exemplo escutá-los dizer "Udos", no lugar de "Iutchu", ou "Wifi", em vez de "Uaifai". Mas mais chocante ainda é você dizer "Aipéd" e as pessoas ficarem te olhando com cara de "hummmm olha essa querendo mostrar que sabe", ou combinar de ir em um "Airish Pãb" e ver a caras deles de "hein, o quê"? E vc repetir Airish Airish Airish até que o cabra diga: "Ahhhhh, Irish Pub", com o I sendo I e o U sendo U.

Essas coisas são complexas. Tem gente que diz que é de propósito, mas temos que lembrar que eles viveram em uma ditadura militar durante muitos anos e o inglês não era um idioma necessário, cotidiano, nem usual para os espanhóis. Além disso, antes da ditadura franquista, que terminou em 1975, eles viveram uma Guerra Civil, que terminou em 1939. Depois que Franco morreu, veio o Rei que provavelmente só fale espanhol mesmo, e bom... o inglês é algo que deve existir por aqui há pouquíssimo tempo.

Por causa do protecionismo cultural normal nas ditaduras, a música, o cinema ou os livros americanos (e de qualquer outro país) não eram comuns e muitos deles chegavam à Espanha através de civis que viajavam e traziam as novidades nas suas malas. O cinema até hoje é dublado, e para nós, que gostamos dos filmes em versão original, acaba sendo complicado encontrar salas onde vê-los. É sério, até nos cinemas os filmes são dublados. E o mais estranho é que a maioria dos espanhóis defendem a dublagem, até aquela pessoa bem legal que você imagina como o cool de plantão. E o pior é que vários estão orgulhosos da dublagem espanhola: "Temos os melhores dubladores do mundo"... já cansei de ouvir. E de discutir também, né? Deixa eles...

O fato é que por causa de tudo isso, os espanhóis têm bem pouco contato com a língua do Tio Sam. E com a cultura também. Claro que existem Mc Donald´s e Starbucks por aqui, mas a maioria dos espanhóis vão preferir as suas cafeterias de bairro e o bocadillo de calamares do boteco da esquina.

Claro que as coisas estão mudando devagarzinho e o inglês pouco a pouco vai fazendo parte do cotidiano. Por exemplo, ontem fui almoçar no Vip´s com o Alberto e ele pediu o prato "Vips Club", eu pedi o "Vips Club Neiture".
O mocinho anotou o pedido dizendo: "Media ensalada Siciliana, un Vips Club y un Vips Club Na-tu-re". Nature, com o A, o U, e o R bem pronunciadinhos como se fosse em espanhol.

É que dá a impressão de que eles estão se abrindo e que querem aprender... mas quando você fala diferente, o orgulho espanhol parece ficar ferido. Por causa disso, nessa minha aventura imigrante, eu sou dessas que começou a falar Ratón mesmo sentindo dor de ouvido e a delícia (?) ao escutá-los dizer que adoraram el concierto del ACÊ/DÊCÊ.

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Almodóvar e a vida como ela é

Antes de vir morar na Espanha era uma grande fã do trabalho do Almodóvar. Utilizar o surrealismo como linha narrativa me parece sensacional. Lembro da cena de um dos seus filmes, quando um roteirista de cinema recortava notícias em um jornal para utilizá-las como argumentos para suas histórias. Ele procurava por temas curiosos, absurdos, intrigantes...

O modelo almodovariano de escrever e de conceptualizar histórias, normalmente são associados à Espanha e, por isso mesmo, muitos espanhóis não gostam do seu trabalho. Pelo que eu entendi, eles parecem pensar que relacionar a Espanha com o Almodóvar, é como relacionar o Brasil com a cultura do Rio de Janeiro, do samba e do Carnaval.

Mas o fato é que hoje, durante minha leitura matinal de blogs e notícias, encontrei uma história que deixaria as do Almodóvar no chinelo, e queria compartirlhá-la com vcs. Porque o naturalismo, o surrealismo e o absurdo não são exclusividades do cinema espanhol.... É só ligar a TV no Brasil, que a gente pode encontrar coisas muito mais bizarras ou divertidas do que vemos nas telas do excêntrico cinema europeu.

O texto é do jornalista Ricardo Aoki, catarinense de Itajaí, e dono do blog "Soco na Costela", um nome muito sugestivo.... Recomendo a navegação.


Ex-Pastor é ator de filme pornô gay

Ontem eu estava vendo o SBT Repórter que falava sobre a indústria do sexo. Confesso, só assisti ao programa por causa do tema, senão nem tinha perdido meu tempo. Pois bem, lá estou eu vendo o César Filho apresentar o programa quando ele anuncia a chamada de uma das matérias: "Pastor deixa igreja para virar estrela do cinemapornô". Fiquei interessado na matéria. O cara deixou de pregar a palavra de Deus para se dedicar a pegar a mulherada nos filmes eróticos. Grande sacada dele.
O programa segue, primeiro com uma matéria com a MárciaImperator. Para quem não sabe ela é uma das atrizes pornô mais bem pagas do Brasil. Ganha cerca de R$ 7 mil por filme e olha que tem jornalista que não ganha isso no ano. Mas isso é uma outra história. Depois vem uma matéria com uma superstar norte americana e finalmente a matéria com o pastor.
A entrevista começa com o repórter, que não me lembro o nome, andando em um jardim. De um lado o ex-pastor e do outro lado dorepórter a esposa do pastor. Mas para minha surpresa o cidadão, que também não me lembro o nome, deixou a igreja para virar atorpornô. Até ai tudo bem, mas o cara virou ator pornô gay. Tudo bem, não é preconceito, mas fiquei indignado com a esposa do cara, principalmente quando o cidadão disse que só faz filme passivo, e ela não tem ciúmes dele. Mas que não permitiria que ele fizesse filmes com mulheres.
Vejam que situação bizarra, a esposa deixa o cara fazer filme gaypassivo e diz que não sente ciúmes, porém se ele fizer filme com mulher ela fica com ciúmes. O repórter fica sem entender e pergunta várias vezes se ela não sente nada. A resposta é sempre que não. Dai o ex-pastor diz que é uma profissão e que o fato dele ser passivo não reduz sua heterossexualidade.????
Vai entender esse mundo. Tento não ser preconceituoso nesse blog, na verdade a crítica nem é preconceituosa. Parem o mundo que eu quero descer. Acho que são os fluídos de 2012 que já estão fazendo efeito na cabeça das pessoas. O que leva o cidadão a fazer mais de 300 filmes gays, na situação de passivo, ou seja, dando o toba e mesmo assim afirmar que não é gay? Por dinheiro? Acredito que o dinheiro, que nem é tanto assim, não é suficiente para uma pessoa se expor dessa forma. Está certo que muita gente vai dizer que éprofissional. Tudo bem, profissional que jeito? E olha que para me deixar surpreendido com as coisas mundanas é muito difícil. Mas essa, confesso que fiquei muito surpreso.
Afinal, ele faz o que bem entender com o seu . Faz parte, cada um sabe da sua vida. Mas se expor na televisão com a esposa e os filhos é demais. Quem está errado? Ele ou a emissora que mostra uma bizarrice dessas? Tem valor jornalístico? Eu tenho minhas dúvidas.

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¡Hace Calor!

Adoro estreiar seções. A de hoje é para a falar sobre música.
Tudo aquilo que eu conheci de melhor na Espanha, como recomendação para os leitores com ouvidos curiosos e ávidos de novidades. Claro, eu sou a melhor referência para isso (risadas!).

Nada melhor do que começar a falar sobre música no dia em que tenho uma alta carga de cafeína e açúcar no sangue. Un subidón, como dizem os espanhóis.

Tá calor! Sim, calor! Você que mora no Brasil talvez não saiba que aqui tava frio desde novembro do ano passado. Imagina? Pois finalmente eu tô de blusa de manga comprida e tô incômoda, suando, reclamando do clima, como faz todo chato, digo, curitibano que se preza. Lindo demais.


Dá vontade de tomar cerveja, de assumir meu lado mais volátil:
a veces estoy, mal, a veces estoy bien... 
Te doy mi corazón para que juegues con él!


...mais canalha:
yo estaba esperando que cantes mi canción
y que abras esa botella
y brindemos por ella
y hagamos el amor en el balcón


... e de dançar. Daquele jeito sabe? De quando é sexta-feira, quase uma da tarde. De quando soa como isso:
Iremos a un hotel, iremos a cenar
pero nunca iremos juntos al altar





Você pode gostar:
- Mais sobre música
Se vc gosta de seções:
- Expressões
- Coolritiba

PD. A intenção da "seção" de música é falar, de maneira erudita, séria e jornalística, de bons artistas e boas canções que conheci por aqui, Mas... qué coño?! Hoje é sexta-feira, tá calor e eu tô bêbada de café. bom fim de semana!

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A greve geral, os porteiros e as prostitutas

É a segunda greve geral que vivo na Espanha e dessa vez quase cheguei a vê-la, pois moro ao lado do trabalho e não uso o transporte público da cidade. Mas lembro muito bem da primeira - foi muito impactante para mim. Eu estava fazendo um curso fora da empresa onde trabalhava e tive que usar o metrô, que demorou muito para chegar. Os manifestantes faziam piquetes e senti um pouco de medo de que me dissesem alguma coisa por estar andando na rua, por não estar manifestando meu apoio a eles. Vi fábricas, lojas e restaurantes fechados e os trabalhadores segurando faixas e cartazes.

Naquela época eu trabalhava em um grupo de comunicação com postura bastante conservadora. Intereconomia era um dos alvos dos grevistas e naquele dia, o jornal La Gaceta nem sequer foi distribuído. Os piquetes impediram que os caminhões saíssem da gráfica.

Neste ano eu não posso dizer qual é o clima nas ruas, pois estou trabalhando e vendo tudo pela televisão. Não porque eu não apoie a greve, ao contrário: concordo com o quê os manifestantes e os trabalhadores dizem - apesar de estar contra os sindicatos.
Mas escrevo sobre a greve geral na Espanha porque é algo impressionante para uma pessoa que, como eu, vem de um país de apáticos que sempre diz que "sim" a tudo e não tem este espírito de coletividade para lutar pelos direitos de todos..

"O fracasso é um ponto de vista"

Esta manhã a oposição dizia que a greve foi um fracasso, com adesão de apenas 18 ou 20% da população. Você imagina uma manifestação na sua cidade em que 20% da população participe? Em Curitiba, cidade de onde venho, haveria mais de 50.000 pessoas na rua. Um amigo de lá me disse que na última manifestação contra a corrupção que ele foi não tinha nem 200 pessoas apoiando.

Por outro lado, os sindicatos dizem que mais ou menos 70% dos espanhóis aderiram à greve.

Foto publicada hoje no Twitter de @domigosanpedro, original de Gustavo Ribas. Mais e mais fotos aqui

Apesar de alguns distúrbios violentos e dos quase 60 presos (antes das 16hs), a greve é um direito e exercê-lo não está mal visto por aqui. Se respeita o "direito a fazer greve" ou o "direito a trabalhar" e isso foi uma das coisas que mais me chamaram a atenção. Na minha empresa, dias antes da greve, recebemos um e-mail do RH perguntando quem participaria da manifestação e quem trabalharia. Tudo bastante normal e sem pressão de nenhuma parte.

No Twitter, a apresentadora de um dos programas jornalísticos mais importantes do país, emitido pela televisão pública, explicava que hoje a TVE trabalhava com serviços mínimos: dois telediários emitidos ao longo do dia.

Por quê tudo isso? 

Existe uma motivação política que leva os Sindicatos a se posicionarem contra o governo. Mas os principais motivos da greve geral são as medidas austeras deste governo direitista com relação à política social do país (amigos residentes, me corrigam se eu estiver errada):
  1. Reforma Laboral
  2. Recortes na saúde pública
  3. Recortes na educação pública e diminuição dos salários de professores
  4. Possibilidade de privatição do Canal Isabel II, o serviço de água de Madri

Enquanto isso, a minha outra cidade, Curitiba, faz aniversário

São 319 anos e pelo menos os últimos 10, até onde minha memória alcança, são de desorganização, ignorância, marketing e corrupção. Tudo isso em uma cidade de quase 2 milhões de pessoas, onde muitos não têm acesso a serviços como saneamento básico e educação. Mesmo assim, o governo investe massivamente em publicidade para convencer todo mundo de que Curitiba é a Capital Ecológica, a Cidade Modelo do Brasil. Com tantos cartazes bonitos, os que têm educação e saneamento básico, parecem esquecer de que os demais são parte dessa mesma "cidade modelo".

Então, lá no "primeiro mundo brasileiro", só quem faz greve são porteiros e zeladores. Segundo a Gazeta do Povo, porteiros e demais funcionários dos condomínios de Curitiba pedem "reajuste de 15% e equiparação com os vencimentos dos profissionais do interior do estado". Como resposta, a presidente do Sindicato da Habitação e dos Condomínios, Liliana Ribas Tavarnaro, afirmou que não há condições para conceder reajuste, pois “condomínio não é empresa, não tem lucro”.

Enquanto a senhora Tavarnaro diz que condomínio não é empresa, a notícia que informa sobre a greve, acertadamente se refere aos zeladores e porteiros como profissionais e funcionários; portanto, pessoas que têm direito a exigir melhorias nas suas condições de trabalho - a escravidão acabou no Brasil lá por 1888 né? Mas parece que esqueceram de avisar à essa senhora que se ela não está disposta a pagar salários aceitáveis aos seus colaboradores, ela mesma pode abrir as portas do seu prédio e limpar o seu elevador. Tal e como fazem as pessoas nos países ela vai passar as férias com seu marido, achando tudo lindo, limpo e "exemplar".

Mas em Curitiba ninguém nem lê a notícia. Só se darão conta da greve quando não encontrarem ninguém para abrir as portas dos seus prédios. Na cidade modelo, quem não é modelo é invisível. Ou algum de nós vai se unir para apoiar a classe dos porteiros, que nem sequer são considerados funcionários pela própria presidente do Sindicato da Habitação e dos Condomínios?

 

E as prostitutas?

Na Europa, o direito à greve é utilizado até por aquelas que no Brasil são motivos de risadas, como as prostitutas. 

Ontem, as prostitutas de luxo fecharam as pernas e iniciaram um protesto para conseguir linhas de créditos às famílias carentes (!). Elas decidiram que não vão mais fazer sexo com banqueiros, com a intenção de "pressionar o setor" e querem que eles "cumpram suas responsabilidades sociais".

Os bancos, maiores responsáveis pela crise européia, parecem ter os seus dirigentes nos postos de trabalho pior vistos da atualidade. Ser filho da puta já não tem problema, elas têm dignidade.... e não a vendem para um banqueiro qualquer.


As prostitutas do "primeiro mundo" fecham as pernas e os porteiros da "cidade modelo" não abrem as portas. Enquanto isso, parte de Curitiba aplaude a sua própria hipocrisia e falta de educação, na celebração do seu aniversário.

Greve? O Brasil parece ter problemas chiques demais para se preocupar com política, recortes púbicos, direitos sociais ou educação. Na minha cidade no sul do sul do mundo, estão mais ocupados em exibir vídeos publicitários, enquanto deveriam estar lendo um livro para entender que criticar e se indignar é uma prova de amor muito maior do que maquiar problemas

Curitiba, orgulhosa de sua ascendência européia, não tem motivos reais para festejar seus 319 anos. Nossa modelo deveria aprender com  as prostitutas, com os porteiros e com os mais velhos (e a Espanha está dando exemplo hoje), que exigir dignidade, respeito e qualidade de vida para todos sim é um motivo para comemorar.

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Quando os elefantes sonham com a música

Ontem escrevi umas poucas linhas sobre o nosso ritmo: palavra-sentimento-sensação que nos identifica e nos une como brasileiros.


Mas tem muita gente que admira, sente e entende o ritmo brasileiro como nós. Pode ser que os extrangeiros abrasileirados não o dancem.. mas podem chegar a conhecê-lo até melhor do que a gente.


Foi aqui na Espanha que eu descobri o melhor programa de rádio de música Brasileira já ouvido! Aliás, foi aqui na Espanha que eu comecei a gostar de rádio de verdade, mas sobre isso eu vou escrever outro dia. Hoje, eu só quero deixar a recomendação do meu programa favorito, e que dá pra ser ouvido online: Cuando los elefantes sueñan con la música, da Radio 3.


http://www.rtve.es/alacarta/audios/cuando-los-elefantes-suenan-con-la-musica/cuando-elefantes-150212/1350227/

Música brasileira da melhor qualidade, informação e essa rara capacidade de fugir dos padrões de sempre. O programa viaja de Djavan à Hermeto Pasqual com toda a naturalidade do mundo.

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O Ritmo

Por mais coisas lindas, ritmos, canções, artistas e pessoas maravilhosas que existam por aqui, existe algo que os espanhóis, por mais abrasileiradas que cheguem a ter suas almas, jamais chegarão a ter:



(Especial atenção às palavras de abertura do vídeo. "(...) Na televisão de hoje em dia e na música, quanto menos conteúdo tiver, melhor... mas eu vejo que o público está carente de artistas que traduzam suas emoções". Grande Geraldo Azevedo.... isso é igualzinho na Espanha, no Brasil e na maioria de países do mundo. Obrigada velho Geraldo, por me recordar como é ter a alma leve e aquele brilho no rosto, com cheiro de praia, fruta e protetor solar).

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A baixa gastronomia. Da coxinha à morcilla.

Há alguns meses nasceu no Facebook o grupo "Curitiba - Baixa Gastronomia". Me uni quando ainda não eram nem 100 os membros registrados e aí fiquei como uma observadora, comentadora e apoiadora do movimento. Me parece genial que um grupo de pessoas se una para defender o valor do que existe de mais autêntico na culinária de um país. Hoje, além de ter um mapa onde os participantes podem marcar com um pin o endereço dos melhores bares, butecos e restaurantes da cidade, o BG também tem um blog em um jornal de Curitiba, onde desenvolve ainda mais as suas idéias puristas de defesa às "mesas boas, baratas e sem frescura da cidade".
Eu gostei tanto do grupo do BG, que no programa de rádio que colaboro falando sobre cultura digital (Cultura.es), apresentei a idéia junto com meu querido argentino Julian Irusta (link clicar em ver parte 1, executar a aplicação e ir direto pro minuto 20, mais ou menos), e não custa dizer que foi uma das minhas intervenções mais celebradas pelos ouvintes.
Aqui em Madri sinto saudades da comida da minha terra e nesses 3 anos namorando com o Alberto já o levei para degustar as maiores maravilhas da culinária brasileira. Desde moqueca baiana até churrasco gaúcho, barreado paranaense ou feijoada carioca. Mas para o meu espanhol, nada bate a boa e velha coxinha de frango. Ele ama, adora, delira com a coxinha.
No começo eu dizia: mas Alberto, isso é comida de rodoviária barata! "Me dá igual, me encanta". Me fez refletir. Querem que a gente pense que caviar é melhor do que coxinha ou que esgargott é melhor do que bauru. Mas não é. Isso se chama classismo, elitismo gastronômico. Não quero dizer que o x-salada do Beto Lanches é melhor do que o strogonoff de camarão do Ille de France. Só acho que cada um prefere o quê o seu paladar definir, que devemos ter a mente aberta, e não podemos classificar nem etiquetar as comidas e as culinárias por preço ou valor. Não podemos ter preconceito com a baixa gastronomia, porque mais baixa gastronomia do que a feijoada, não existe. E quem não gosta de feijoada?
Me identifiquei muito com o Baixa de Curitiba. Sempre adorei os butecos brasileiros e depois de algum tempo em Madrid, comecei a ter os meus.
Primeiro foi o Pepe. Um bar que servia a melhor fritura da cidade, quando eu ainda morava com o Feli, a Lore e o Zé numa zona perdida lá no norte de Madri.
Depois chegou a descoberta das orelhas de porco e eu andava pelo centro da cidade procurando as melhores tabernas que servissem essa iguaria histórica na culinária castelhana.
Quando me mudei com o Alberto, adotamos o Cortijo do Lorenzo como nossa segunda casa: boas tapas grátis com cada cerveja pedida. Como carro chefe, o Loren tem no cardápio os melhores huevos estrellados con patatas que já provei. Se trata de um prato de batatas com ovo frito, pimientos del padrón e jamón. É fantástico! O ovo tem que vir com a gema muito molinha, com o garfo e a faca você corta tudo e mistura tipo arroz com feijão. Uma bomba calórica de sabor insuperável!
Mas o melhor ainda estava por vir. Nos mudamos e ao lado da nossa nova casa eu encontrei a glória. Literalmente: o La Glória é o melhor refúgio da baixa gastronomia madrilenha. Nas palavras de um espanhol no Foursquare: "Tasca típica madrileña de esa especie en peligro de extinción donde se bordan los platos, las mollejas, los boquerones, el entrecot.... a precios asequibles".
Não tenho fotos das minhas visitas ao La Glória, mas garanto que os melhores pratos desse antro da Baixa são os callos (dobradinha), os judiones del huerto, o ovo cozido recheado com molho rosé e aspargos, as beringelas rebozadas e as mollejas.


Ainda perto de casa, no conceito: uma tapa grátis para cada bebida pedida- estratégia definitiva dos bares madrilenhos para te embebedar fácil, está o Nanis Vinateria. Do lado de casa e minha iguaria favorita da atualidade: a Morcilla de Burgos:
Na primeira foto uma porção de Cecina e outra de Morcilla - só para os fortes.
Na segunda a clarita con limón que minha irmã adora e as tapas grátis: azeitonas com azeite e mortadela quentinha.
O Nanis Vinateria. Um ponto de encontro das famílias do bairro.


O legal é que o conceito da Baixa gastronomia se repete em Curitiba, em Madri ou em Sevilha. 
Entrar em um refúgio da BG, é como um voltar à casa constante.


Estatuto da Baixa Gastronomia, adaptado da definição dada pelo André Barcinski para "Culinária Ogra": http://bit.ly/jwCopf
1 - Não pode ter nome com “Chez” ou “Bistrô”
2 - A comida precisa ocupar ao menos 85% da área total do prato
3 – Não pode ter “chef”, e sim “cozinheiro”
4 – Não pode ter “menu”, e sim “cardápio”
5 – Algumas palavras proibidas nos cardápios: “nouvelle”, “brûlée”, “pupunha”, “espuma”, “lâmina”, “lascas” e “contemporânea”
6 – Não pode ter filiais
7 - Os garçons não podem ser modelos, manequins ou atores, com preferência para garçons velhos e feios
8 – Os garçons precisam passar no teste da colherzinha, que consiste em servir arroz com uma só mão, juntando duas colheres, sem derramar um grão sequer
9 – Não pode estar localizado no Batel
10 – Teste final: se o garçom, ao ser perguntando “o que é ‘El Bulli’?”, responder qualquer coisa que não seja “é onde eu sirvo o café”, o restaurante está eliminado.


Aproveito esse post para retomar uma ideia que trabalhava no meu antigo e falecido blog: a categoria "Coolritiba", uma curadoria muito pessoal das coisas, projetos e pessoas legais da minha cidade. A galera do Baixa, sem dúvidas, são parte disso.


Mais sobre as diferenças gastronômicas Brasil-Espanha, no Tãmbler.



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O acesso à Internet na Espanha

Em alguns países da Europa o acesso à Internet é considerado um "direito fundamental", acredita?

É sério. Por isso, todos os temas relacionados às Leis SOPA, PIPA e agora ACTA são importantes e tratadas diariamente pelos meios de comunicação. Logicamente eu acompanho com curiosidade, atenção e cuidado todas as notícias e com surpresa a pouca repercussão que elas têm no Brasil.

A votação da Lei Sopa foi notícia nas terras tupiniquins apenas uma ou duas semanas antes do blackout promovido pela Wikipedia e adotado por mais de 7 mil sites ao redor do mundo.

Da mesma maneira, o fechamento do site de hospedagem Megaupload foi uma notícia super relevante aqui no velho mundo. E continua sendo. Faz um mês que o site foi fechado (nesse momento eu faço o meu jabá) e um portal de informação financeira e econômica aqui em Madrid, me pediu para escrever um artigo sobre o quê aconteceu, o quê está acontecendo e o quê vai acontecer no mercado de conteúdo audiovisual e cultural pela Internet. Se você se interessa pelo tema, o link está aqui: Un mes sin Megaupload.



Se você ficou se perguntando: "Como assim, Internet direito fundamental"?


Pois olha: 
Na França isso aconteceu em 2009, quando o Conselho Constitucional da França decidiu que o acesso à internet era um direito humano fundamental. Segundo o Conselho, a publicação de opiniões na internet representa uma forma de liberdade de expressão.
Em junho de 2011 a ONU entendeu a mesma coisa. Mas o quê isso significa exatamente? Segundo o texto da ONU "os governos devem se esforçar para que a Internet seja amplamente disponível, acessível e "pagável" por todos. O acesso universal à Internet deve ser uma prioridade para os estados".

Os países mais desenvolvidos vão ainda mais longe: em 2009 a Finlândia decidiu que o acesso à internet banda larga (!) era um direito fundamental para os seus cidadãos.
Aqui em Madrid por exemplo, a maioria das praças públicas têm wi-fi grátis. Praticamente todos os restaurantes, cafeterias, bares e centros comerciais também. E no ano passado os ônibus públicos começaram a oferecer conexão gratuita pra todo mundo.


Duvida?
Então olha:

EMT é a Empresa Municipal de Transportes de Madrid


Eu já falei sobre o acesso à cultura nesse post lá no Tãmbler. Pode ser que você goste.

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A televisão na Espanha

Falar sobre a programação da tv de um país, é falar sobre um povo... da sua educação, do seu nível intelectual, cultural, social e também do seu grau de exigência para esses valores.

Eu escrevi no Tãmbler que a tv na Espanha é muito, mas muito ruim. Os telejornais são uma porcaria, parciais, superficiais, comprometidos com seus próprios interesses. As séries espanholas são feias, má produzidas, os roteiros são penosos. Só existe uma exceção: a televisão pública. Os demais programas de entretenimento têm um ar entre Silvio Santos, Gugu Liberato e Passa ou Repassa. Tudo é meio show de calouros, meio reallity, meio exagerado e fake. Os programas repetem formatos, enjoam e deixam claro que falta dinheiro. É a crise. Mas a culpa não é só dela... antes também era assim. Menos monótono, quem sabe. Mas era.

Para os interessados, meus amigos que trabalham no setor dizem que os programas aqui se dividem em 3 categorias: "amarillo", "rosa" e "blanco". Os amarelos são os sensacionalistas, os rosas, também conhecidos como "de corazón", são os de fofoca e os brancos são mais objetivos e procuram aportar conteúdo de qualidade.

Entre os amarelos e rosas se destacam (como não?) os reallitys e sobretudo o BBB, que esse ano estreiou sua 13ª edição (!!), com récode de audiência. Ultimamente o "ibope" do programa tem caído, o quê não é necessariamente uma boa notícia, pois os produtores amarelo-rosas da indústria televisiva espanhola não desistem. Os espectadores estão emocionados com o último lançamento:





Entre os participantes temos uma mãe que procura namorado para seu filho gay, uma ex prostituta que quer conquistar pacote gatinho + sogra e um monte de sogronas loucas para bater boca, lavar roupa suja e dizer palavrão na telinha.

Sim. Dizer: "a tomar por culo" na televisão espanhola, é normal. Mas tem coisa pior! Nesse tal de programa tem uma possível sogra que vetou o namoro do filho com uma candidata porque ela era negra. Sim, porque era negra. A coisa vai por esse nível.

Conto tudo isso porque reclamamos da tv brasileira. O quê quero dizer é que a televisão comercial e aberta é assim. E já disse que aqui existe uma única excessão; a tv pública. Você acharia normal ligar a TV Cultura e ver A Vida de Brian do Monty Python numa quarta feira qualquer? Deveria ser, né?
Aqui é. Ver a 1 ou a 2 normalmente é encontrar um copo d´agua no deserto. Um deserto quente, infinito e internacional.


(Mais? No Tãmbler!)