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Dia Internacional da Mulher Trabalhadora

O Dia Internacional da Mulher já passou e apesar de ser um dia que nunca me chamou especial atenção, esse ano o 8 de março teve alguma relevância filosófica para mim. 


Notei que se trata de uma data importante lá no Brasil, vi muita gente comentando nas redes sociais e muitas marcas utilizando o argumento para fazer publicidade. 


Comecei a ver que o tom das declarações eram sempre parecidos: "Todos os dias são dias das mulheres", "Mulheres, vocês são lindas", "Vocês fazem nossa vida mais bonita"... muitos agiam como se fosse o dia dos namorados ou o dia das mães, e por outro lado, mulheres e meninas reforçavam que são elas que dão à luz, cozinham, lavam, passam e trabalham, e que, claro, por isso merecem o carinho e admiração de seus companheiros e da sociedade.

Na Espanha ouvi comentários como "e o dia do homem quando é? Se somos todos iguais....", e os dois únicos emails que recebi de parabéns começavam com "Feliz dia da mulher Trabalhadora", pois assim se chama o dia 8 de março por aqui.



Tamanha diferença me fez refletir e ter vontade de comentar nas publicações dos meus amigos do Facebook. Uma menina me etiquetou em um vídeo dedicado à beleza e sensualidade da mulher brasileira, "a mais bonita do mundo" (!!?).  Tive vontade de responder, mas me auto-censurei. Sabia que por mais suave que eu fosse, soaria a "feminazi" para a maioria das pessoas nas minhas listas de contatos. Então resolvi ser objetiva... e com um pouco de receio disse:


"Vale lembrar que o dia da mulher existe para homenagear àquelas que lutaram pela melhoria das nossas condições de vida e de trabalho, para que nós pudéssemos participar, com igualdade, na sociedade e no seu desenvolvimento.
No dia 8 de março a gente deve lembrar de continuar dando sentido aos nossos direitos e ao nosso trabalho.
Ganhar flor é legal, mas a gente merece mesmo é "respeito".
Sendo assim: Feliz dia Internacional da Mulher pra todo mundo :)"


Não falei sobre alguns grandes problemas da sociedade brasileira que poderiam ser debatidos nessa data: o sexismo, a violência sexual, a prostituição infantil, o maltrato contra a mulher, o maltrato psicológico, além de todos os preconceitos que enfrentamos no mercado de trabalho. Eu queria falar, mas não disse nada porque acho que a nossa sociedade não está preparada para debater esses temas com maturidade. Se no Dia Internacional da Mulher eu me metesse a propor um debate sobre a diferença salarial entre homens e mulheres no Brasil por exemplo, eu seria taxada, no mínimo, de chata.


Mas tudo bem. A gente sabe que o Brasil ainda é um país muito machista e sobre o machismo eu vou escrever por aqui em algum momento. Enquanto isso, resumo meus pensamentos sobre o 8 de março com essas duas fotos - também vistas no Facebook de meninas que moram por aqui:




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A baixa gastronomia. Da coxinha à morcilla.

Há alguns meses nasceu no Facebook o grupo "Curitiba - Baixa Gastronomia". Me uni quando ainda não eram nem 100 os membros registrados e aí fiquei como uma observadora, comentadora e apoiadora do movimento. Me parece genial que um grupo de pessoas se una para defender o valor do que existe de mais autêntico na culinária de um país. Hoje, além de ter um mapa onde os participantes podem marcar com um pin o endereço dos melhores bares, butecos e restaurantes da cidade, o BG também tem um blog em um jornal de Curitiba, onde desenvolve ainda mais as suas idéias puristas de defesa às "mesas boas, baratas e sem frescura da cidade".
Eu gostei tanto do grupo do BG, que no programa de rádio que colaboro falando sobre cultura digital (Cultura.es), apresentei a idéia junto com meu querido argentino Julian Irusta (link clicar em ver parte 1, executar a aplicação e ir direto pro minuto 20, mais ou menos), e não custa dizer que foi uma das minhas intervenções mais celebradas pelos ouvintes.
Aqui em Madri sinto saudades da comida da minha terra e nesses 3 anos namorando com o Alberto já o levei para degustar as maiores maravilhas da culinária brasileira. Desde moqueca baiana até churrasco gaúcho, barreado paranaense ou feijoada carioca. Mas para o meu espanhol, nada bate a boa e velha coxinha de frango. Ele ama, adora, delira com a coxinha.
No começo eu dizia: mas Alberto, isso é comida de rodoviária barata! "Me dá igual, me encanta". Me fez refletir. Querem que a gente pense que caviar é melhor do que coxinha ou que esgargott é melhor do que bauru. Mas não é. Isso se chama classismo, elitismo gastronômico. Não quero dizer que o x-salada do Beto Lanches é melhor do que o strogonoff de camarão do Ille de France. Só acho que cada um prefere o quê o seu paladar definir, que devemos ter a mente aberta, e não podemos classificar nem etiquetar as comidas e as culinárias por preço ou valor. Não podemos ter preconceito com a baixa gastronomia, porque mais baixa gastronomia do que a feijoada, não existe. E quem não gosta de feijoada?
Me identifiquei muito com o Baixa de Curitiba. Sempre adorei os butecos brasileiros e depois de algum tempo em Madrid, comecei a ter os meus.
Primeiro foi o Pepe. Um bar que servia a melhor fritura da cidade, quando eu ainda morava com o Feli, a Lore e o Zé numa zona perdida lá no norte de Madri.
Depois chegou a descoberta das orelhas de porco e eu andava pelo centro da cidade procurando as melhores tabernas que servissem essa iguaria histórica na culinária castelhana.
Quando me mudei com o Alberto, adotamos o Cortijo do Lorenzo como nossa segunda casa: boas tapas grátis com cada cerveja pedida. Como carro chefe, o Loren tem no cardápio os melhores huevos estrellados con patatas que já provei. Se trata de um prato de batatas com ovo frito, pimientos del padrón e jamón. É fantástico! O ovo tem que vir com a gema muito molinha, com o garfo e a faca você corta tudo e mistura tipo arroz com feijão. Uma bomba calórica de sabor insuperável!
Mas o melhor ainda estava por vir. Nos mudamos e ao lado da nossa nova casa eu encontrei a glória. Literalmente: o La Glória é o melhor refúgio da baixa gastronomia madrilenha. Nas palavras de um espanhol no Foursquare: "Tasca típica madrileña de esa especie en peligro de extinción donde se bordan los platos, las mollejas, los boquerones, el entrecot.... a precios asequibles".
Não tenho fotos das minhas visitas ao La Glória, mas garanto que os melhores pratos desse antro da Baixa são os callos (dobradinha), os judiones del huerto, o ovo cozido recheado com molho rosé e aspargos, as beringelas rebozadas e as mollejas.


Ainda perto de casa, no conceito: uma tapa grátis para cada bebida pedida- estratégia definitiva dos bares madrilenhos para te embebedar fácil, está o Nanis Vinateria. Do lado de casa e minha iguaria favorita da atualidade: a Morcilla de Burgos:
Na primeira foto uma porção de Cecina e outra de Morcilla - só para os fortes.
Na segunda a clarita con limón que minha irmã adora e as tapas grátis: azeitonas com azeite e mortadela quentinha.
O Nanis Vinateria. Um ponto de encontro das famílias do bairro.


O legal é que o conceito da Baixa gastronomia se repete em Curitiba, em Madri ou em Sevilha. 
Entrar em um refúgio da BG, é como um voltar à casa constante.


Estatuto da Baixa Gastronomia, adaptado da definição dada pelo André Barcinski para "Culinária Ogra": http://bit.ly/jwCopf
1 - Não pode ter nome com “Chez” ou “Bistrô”
2 - A comida precisa ocupar ao menos 85% da área total do prato
3 – Não pode ter “chef”, e sim “cozinheiro”
4 – Não pode ter “menu”, e sim “cardápio”
5 – Algumas palavras proibidas nos cardápios: “nouvelle”, “brûlée”, “pupunha”, “espuma”, “lâmina”, “lascas” e “contemporânea”
6 – Não pode ter filiais
7 - Os garçons não podem ser modelos, manequins ou atores, com preferência para garçons velhos e feios
8 – Os garçons precisam passar no teste da colherzinha, que consiste em servir arroz com uma só mão, juntando duas colheres, sem derramar um grão sequer
9 – Não pode estar localizado no Batel
10 – Teste final: se o garçom, ao ser perguntando “o que é ‘El Bulli’?”, responder qualquer coisa que não seja “é onde eu sirvo o café”, o restaurante está eliminado.


Aproveito esse post para retomar uma ideia que trabalhava no meu antigo e falecido blog: a categoria "Coolritiba", uma curadoria muito pessoal das coisas, projetos e pessoas legais da minha cidade. A galera do Baixa, sem dúvidas, são parte disso.


Mais sobre as diferenças gastronômicas Brasil-Espanha, no Tãmbler.



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O acesso à Internet na Espanha

Em alguns países da Europa o acesso à Internet é considerado um "direito fundamental", acredita?

É sério. Por isso, todos os temas relacionados às Leis SOPA, PIPA e agora ACTA são importantes e tratadas diariamente pelos meios de comunicação. Logicamente eu acompanho com curiosidade, atenção e cuidado todas as notícias e com surpresa a pouca repercussão que elas têm no Brasil.

A votação da Lei Sopa foi notícia nas terras tupiniquins apenas uma ou duas semanas antes do blackout promovido pela Wikipedia e adotado por mais de 7 mil sites ao redor do mundo.

Da mesma maneira, o fechamento do site de hospedagem Megaupload foi uma notícia super relevante aqui no velho mundo. E continua sendo. Faz um mês que o site foi fechado (nesse momento eu faço o meu jabá) e um portal de informação financeira e econômica aqui em Madrid, me pediu para escrever um artigo sobre o quê aconteceu, o quê está acontecendo e o quê vai acontecer no mercado de conteúdo audiovisual e cultural pela Internet. Se você se interessa pelo tema, o link está aqui: Un mes sin Megaupload.



Se você ficou se perguntando: "Como assim, Internet direito fundamental"?


Pois olha: 
Na França isso aconteceu em 2009, quando o Conselho Constitucional da França decidiu que o acesso à internet era um direito humano fundamental. Segundo o Conselho, a publicação de opiniões na internet representa uma forma de liberdade de expressão.
Em junho de 2011 a ONU entendeu a mesma coisa. Mas o quê isso significa exatamente? Segundo o texto da ONU "os governos devem se esforçar para que a Internet seja amplamente disponível, acessível e "pagável" por todos. O acesso universal à Internet deve ser uma prioridade para os estados".

Os países mais desenvolvidos vão ainda mais longe: em 2009 a Finlândia decidiu que o acesso à internet banda larga (!) era um direito fundamental para os seus cidadãos.
Aqui em Madrid por exemplo, a maioria das praças públicas têm wi-fi grátis. Praticamente todos os restaurantes, cafeterias, bares e centros comerciais também. E no ano passado os ônibus públicos começaram a oferecer conexão gratuita pra todo mundo.


Duvida?
Então olha:

EMT é a Empresa Municipal de Transportes de Madrid


Eu já falei sobre o acesso à cultura nesse post lá no Tãmbler. Pode ser que você goste.

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A televisão na Espanha

Falar sobre a programação da tv de um país, é falar sobre um povo... da sua educação, do seu nível intelectual, cultural, social e também do seu grau de exigência para esses valores.

Eu escrevi no Tãmbler que a tv na Espanha é muito, mas muito ruim. Os telejornais são uma porcaria, parciais, superficiais, comprometidos com seus próprios interesses. As séries espanholas são feias, má produzidas, os roteiros são penosos. Só existe uma exceção: a televisão pública. Os demais programas de entretenimento têm um ar entre Silvio Santos, Gugu Liberato e Passa ou Repassa. Tudo é meio show de calouros, meio reallity, meio exagerado e fake. Os programas repetem formatos, enjoam e deixam claro que falta dinheiro. É a crise. Mas a culpa não é só dela... antes também era assim. Menos monótono, quem sabe. Mas era.

Para os interessados, meus amigos que trabalham no setor dizem que os programas aqui se dividem em 3 categorias: "amarillo", "rosa" e "blanco". Os amarelos são os sensacionalistas, os rosas, também conhecidos como "de corazón", são os de fofoca e os brancos são mais objetivos e procuram aportar conteúdo de qualidade.

Entre os amarelos e rosas se destacam (como não?) os reallitys e sobretudo o BBB, que esse ano estreiou sua 13ª edição (!!), com récode de audiência. Ultimamente o "ibope" do programa tem caído, o quê não é necessariamente uma boa notícia, pois os produtores amarelo-rosas da indústria televisiva espanhola não desistem. Os espectadores estão emocionados com o último lançamento:





Entre os participantes temos uma mãe que procura namorado para seu filho gay, uma ex prostituta que quer conquistar pacote gatinho + sogra e um monte de sogronas loucas para bater boca, lavar roupa suja e dizer palavrão na telinha.

Sim. Dizer: "a tomar por culo" na televisão espanhola, é normal. Mas tem coisa pior! Nesse tal de programa tem uma possível sogra que vetou o namoro do filho com uma candidata porque ela era negra. Sim, porque era negra. A coisa vai por esse nível.

Conto tudo isso porque reclamamos da tv brasileira. O quê quero dizer é que a televisão comercial e aberta é assim. E já disse que aqui existe uma única excessão; a tv pública. Você acharia normal ligar a TV Cultura e ver A Vida de Brian do Monty Python numa quarta feira qualquer? Deveria ser, né?
Aqui é. Ver a 1 ou a 2 normalmente é encontrar um copo d´agua no deserto. Um deserto quente, infinito e internacional.


(Mais? No Tãmbler!)

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"Brazilianism" no divã

Muita gente sabe como eu vim parar aqui, mas pouca gente sabe por que eu fiquei. Às vezes inclusive eu tenho essa dúvida. Graças a ela e à ansiedade que é parte de mim, esse ano comecei a fazer terapia.


Eu ia na psicóloga durante minha adolescência e lembro disso como uma das coisas mais legais que já fiz, mas relutava em fazer terapia com uma espanhola porque achava que ela não entenderia uma brasileira. Pensando um pouco, entendi que se a psicologia tivesse essas barreiras, as teorias de Freud ou Jung só funcionariam  nos países deles, né?


Então, eu comecei. Entre outras coisas, minha psicóloga e eu temos falado sobre as diferenças entre a minha cultura e a cultura que eu encontrei aqui.


Voltando ao princípio, eu fiquei na Espanha por causa de um espanhol. Aquela coisa de conhecer uma pessoa e acreditar que é o amor da sua vida e, como não existe força mais poderosa do que essa, minha vida agora está em Madri.


Acontece que viver com uma pessoa de um país diferente pode ser complexo. Quem é casado sabe que compartilhar a vida, a casa e a rotina com outra pessoa, tem momentos de altos e baixos. Cada um veio de uma família, teve uma formação e uma história... Imagine se essa pessoa nasceu em outro continente!


Então quando converso com a Mila (minha psaicow), volta e meia chegamos ao: eu acho isso e o Alberto acha assado.


O quê a Mila tá me explicando é que achamos o quê achamos, porque fomos "programados" para isso. Talvez nossos pais, tão liberais e modernos que são, não tenham nos ensinado as coisas tão daquele jeito... mas nos deram exemplos e nós vimos todo o nosso entorno atuando daquele jeito também. Então o daquele jeito, mesmo rejeitado por nós, estará conosco.


Quando vivemos em outro país, temos que ter esses "jeitos" muito bem identificados, para não corrermos o risco de não nos adaptar, de criar preconceitos, ou de não sermos felizes.


E por quê estou falando isso?


Porque esse processo está servindo para entender melhor a mentalidade do brasileiro, de onde eu vim e a maneira como pensamos.






Por isso publiquei essa imagem definindo o tal Brazilianism, ou Brasilianismo.  A Lua, que é curitibana e está há 5 anos na Austrália, compartilhou no Facebook e eu achei uma maneira muito bonita de entender e valorizar a maneira de ser e de viver do brasileiro. Nem melhor, nem pior. Apenas diferente.

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Formar-se para informar



Os nerds eram mal vistos nos anos 1990. Nos anos 2000 surgiram os
 Geeks, que nos anos 2010 se tornaram os donos do mundo. 

É verdade que muitos deles não estudaram. Zuckenberg, por exemplo, abandonou a faculdade antes de se formar. O Bill Gates 
tio da janlela e o tio da maçã também. Mas eles trabalharam muito, trabalharam sem parar, dedicaram a sua vida a um objetivo e compensaram a falta do diploma.


Todos tiveram uma
vida social difícil durante sua juventude.


Eu não estudei - e incluo isso na minha pequena lista de arrependimentos. Porém, acho que ainda posso recuperar o tempo perdido, e por isso tento reverter minha frouxa formação intelectual com muita leitura, cursos, palestras e, principalmente, me rodeando de gente que sim estudou e que por isso é mais inteligente que eu (obrigada Raul, Alberto, Claudinha, Ernesto, Sérgio, Adriane, Alex....)
E concordo com o que a foto diz: a maioria das pessoas não estuda no Brasil. As pessoas decoram para as provas, passam de ano, colam, fazem vestibular, pegam um diploma e vão trabalhar. 

Logo,
não inovam, não mudam, não transformam. Uma das coisas que aprendi por aqui é que todos esses processos estão relacionados ao estudo.

Seja ele formal, em uma escola ou universidade, ou informal, na sua casa, na mesa do bar, na leitura de um livro que te apaixone. 
Eu, informal que sou, optei pelo segundo caminho... essem dos incompreendidos, que lêem só o quê gostam, tomam vinho enquanto tentam escrever um livro, riem com amigos enquanto têm idéias para salvar o mundo ou que navegam por blogs para aprender novos pontos de vista.

E também discordo da foto
 quando trata o tema de maneira tão genérica. No Brasil tenho visto gente fantástica fazendo trabalhos incríveis, desenvolvidos com boas idéias, muito suor e uma base de estudos estruturada, seja ele do tipo que for.

Foto: reprodução do Tãmbler

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O futebol. Ou melhor: o Real Madrid x Barcelona

* Continuação do post publicado no blog do jornalista Napoleão Almeida
 
Não era a primeira vez que eu ia a um estádio de futebol. Muito pelo contrário, eu cresci indo aos jogos do meu time junto com o meu pai. Sei como nos sentimos no campo... a emoção de gritar Gol, a raiva do juiz, a cumplicidade com o torcedor ao lado.

Lembro-me da preparação: a cervejinha antes, o cigarrinho ou os amendoins durante, e a alegria – ou tristeza – depois. Mas nunca tinha ido ver a “outro” time que não fosse o Coxa.

Em janeiro de 2012 eu fiz isso. Fui a um dos maiores estádios do mundo, ver dois dos maiores clubes da atualidade jogando um clássico histórico: Real Madrid x Barcelona, no Santiago Bernabéu.




10 horas da noite: o horário mais tarde do mundo para se começar um jogo de liga oficial. Às 20 horas já estávamos lá, meus amigos madridistas e eu, para fazer um esquenta sentindo o ambiente. Até aí nada muda: gentarada, ruas fechadas para o trânsito e muita movimentação.




Fomos a uma rua lateral buscar uma cerveja. Justo quando voltávamos, o ônibus do Real Madrid chegava passando no meio da galera. Bengalas vermelhas, bombas e gritos de “Puta Barça” com muita fumaça e nervosismo no ar. Depois meu amigo me confessou que ali era o lugar onde os “ultras” se reuniam. Sim, eles também existem por aqui e são bastante radicais.


Mas a violência terminou por ali.  Entramos no estádio e nos preparamos para o começo do show.
Sim, do show. Quando você vai a um evento desse porte, já sabe o quê te espera. Não é à toa que encontrei entradas de até 1.000€ sendo vendidas pela internet. A minha custou 50€ (preço especial para profissionais do setor) e seguramente ninguém se arrependeu.

É assim: você chega ao estádio e ao entrar já fica impactado: o Santiago Bernabéu suporta quase 86 mil pessoas (!) e é tão grande que chega a dar vertigem. A infra-estrutura é absolutamente incrível, com um gramado brilhante e um sistema de calefação especial, que não nos deixou sentir o frio de 5ºC.

Mas vamos ao que interessa: o futebol
Não adianta... nós já não temos o melhor futebol do mundo. Temos a maior tradição em mundo e podemos ter o melhor campeonato – por ser o mais emocionante. Mas viver uma experiência como um Madrid x Barça faz você perceber que as coisas por aqui estão em um outro nível.
O futebol europeu não se resume a "ópio do povo". O futebol aqui é negócio – maduro e rentável
O evento começa com uma canção de Plácido Domingo – em lugar de um provável Michel Teló no Brasil. A polarização política é clara mesmo em um esporte tido como alienante por definição – o Barcelona é uma equipe Catalã, região tradicionalmente separatista, e o Real Madrid era a equipe de Franco, ditador espanhol. Só com isso, o prato da polêmica já está servido.
Fora de campo, com algumas exceções, vemos uma sociedade civilizada
Não existe fosso em volta do gramado, algo que o Grêmio já está implantando em sua nova arena, e não vi polícia federal, apenas seguranças privados. É claro que a torcida é exigente, mas ninguém joga pilha e nem copo na cabeça dos outros. Aliás, duas filas atrás da minha, estava um casal com a camisa do Barcelona. Nos estádios europeus, apesar de existirem pequenas áreas reservadas para os visitantes, muitos deles se misturam com torcedores da outra equipe.
Dentro de campo, um jogo muito agressivo, de corpo a corpo direto, velocidade e passes objetivos
Cada toque é como um corte preciso de um cirurgião profissional. Por exemplo, só vi o Cristiano Ronaldo errar um único passe durante todo o jogo.

E a partida foi assim: um primeiro tempo do Real Madrid com um gol de Cristiano Ronaldo, uma reação rápida do Barcelona e um segundo tempo de violência brutal vinda dos merengues nervosos. O jogo acabou em 1 x 2 aumentando as críticas ao técnico do Real, que é questionado há algum tempo pelos torcedores e pela imprensa. O português Mourinho prepara uma surpresa diferente para cada jogo e nunca sabemos que time vai entrar em campo. Falta entrosamento.

Uma estratégia contrária ao Barcelona que leva anos jogando o mesmo futebol. Não importa a partida, o adversário ou o lugar, sempre sabemos o que vamos ver: o Messi metendo gols, o Xavi fazendo seus passes milagrosos, Puyol brigando como um Golias na defesa, e o toque de bola mais bonito da atualidade. Talvez você ache que não seja o mais bonito, mas, com certeza é o mais eficiente.

O que o Barcelona faz é o futebol por definição. Todos se apoiam e jogam juntos. O resultado é a vitória frequente. O Barça nos ensina o que é o espírito de equipe. Os Blaugranas nos ensinam o que é o futebol... tanto que o Xavi saiu de campo aplaudido do estádio do seu arqui-rival.

“Que levem Mourinho e nos tragam Deus! Isso é um banho, como Deus manda!” foi o que eu ouvi na arquibancada. É o que os torcedores do Real estão falando do cara que era considerado o melhor treinador do mundo, até conhecer o Barcelona.