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Que não decidam por você

Este post é um comentário que eu pensei em escrever numa publicação feita no Facebook pelo jornal Gazeta do Povo. Trata-se de um editorial sobre a situação do direito ao aborto no Brasil.
Preferi não publicar o meu pensamento na publicação da Gazeta para me privar dos comentários preconceituosos que poderiam chover na maior rede social do mundo - que também é o maior reservatório de bobos de todo o planeta.
Aqui estão as 10 linhas sobre a minha opinião e experiência pessoal com o tema aqui na Espanha (o editorial da Gazeta vem logo abaixo).


"Na minha opinião a mulher deve ter o direito a decidir. Moro na Espanha há 5 anos, estou grávida de 4 meses e através do sistema público de saúde me fizeram todos os testes para saber se o meu neném tem síndrome de down ou de edwards. São exames que não são feitos nem sequer pelo sistema privado (ou planos de saúde) aí no Brasil. Conversei com médicos em Curitiba que me explicaram que se trata de "exames muito caros" e que por isso normalmente não se realizam.
Caso essas provas dessem positivo eu teria o direito de escolher. Teria o direito de fazer um aborto "gratuito", ou seja, pago pelo sistema público de saúde espanhol - isto sim, até a 21ª semana de gestação. Também teria o direito de seguir com a gravidez se assim eu e meu companheiro desejássemos.
Isso significa que eu teria direitos. Eu escolheria e poderia decidir- como mãe, mulher e cidadã -  o meu futuro e o futuro do meu bebê.
De todas as formas, fico feliz com a notícia que motivou a Gazeta a escrever este editorial - uma prova de que evoluímos como sociedade democrática - apesar da postura tão conservadora deste meio de comunicação."

Aqui está o tal editorial da Gazeta do Povo


A Eugenia avança:
Um novo retrocesso no reconhecimento da dignidade humana dos não nascidos foi dado no fim de agosto, quando o Tribunal de Justiça de São Paulo autorizou que uma jovem realize o aborto de um feto de 16 semanas. A criança não foi concebida em um estupro, nem é anencéfala: ela sofre de síndrome de Edwards, doença causada pela existência de um cromossomo extra e que provoca uma série de problemas de saúde para o portador; apenas uma minoria dos bebês com esse problema chega a nascer com vida; desses, 90% morrem ainda no primeiro ano.
A solicitação de aborto havia sido acertadamente recusada na primeira instância, mas o caso foi levado ao TJ-SP, onde o desembargador Ricardo Tucanduva concedeu a liminar permitindo a eliminação da criança, pois a jovem alegava que a continuação da gravidez colocaria a vida da gestante em risco – uma alegação no mínimo controversa, tratando-se de gestações de filhos com síndrome de Edwards. O desembargador justificou sua decisão afirmando que o artigo 128 do Código Penal, que trata do crime de aborto, deveria ser interpretado com “flexibilidade” por estar em vigor há cerca de sete décadas.
Diante da falta de literatura médica (atestada inclusive pelo Instituto Nacional de Saúde norte-americano) que comprove a ligação entre a doença no feto e o risco de vida para a mãe durante a gravidez, resta a forte suspeita de que a motivação para o aborto seria mesmo a própria doença da criança, e não possíveis ameaças à integridade física da jovem – até mesmo porque, em caso de risco de vida para a mãe, a autorização judicial nem seria necessária. Um caso semelhante já havia ocorrido em Goiás, no ano passado, com uma gestante de 41 anos que também recebeu permissão para abortar após o diagnóstico de que seu filho tinha a síndrome de Edwards. É assustador perceber que, mesmo sem haver certeza absoluta sobre a ameaça à vida da mãe, nos dois casos decidiu-se pela eliminação da criança.
Também percebe-se que, apesar de o artigo 128 do Código Penal não ter sofrido alterações no Congresso Nacional, o Poder Judiciário vem tomando para si a atribuição de legislar sobre o tema, abrindo brechas no sentido de tornar a legislação cada vez mais permissiva. Com a ADPF 54, julgada no início de 2012, o aborto de anencéfalos passou a ser aceito; agora, eliminam-se crianças com outras anomalias genéticas graves; a julgar pelo ritmo de aceitação da eugenia intrauterina, é possível imaginar um futuro no qual passe a ser legal negar o direito à vida de crianças diagnosticadas com outras doenças e deficiências menos graves.
Na realidade, a perspectiva pode ser ainda pior, pois a proposta de reforma do Código Penal em avaliação atualmente no Senado prevê a liberação do aborto, em qualquer momento da gestação, nos casos em que a legislação atual já não pune a prática, com o acréscimo de situações em que o feto padeça de “incuráveis anomalias que inviabilizem a vida extrauterina”; e, até a 12.ª semana de gestação, o aborto ficaria liberado “quando o médico ou psicólogo constatar que a mulher não apresenta condições psicológicas de arcar com a maternidade” – critérios puramente subjetivos e que, na prática, dão margem à legalização ampla da eliminação de nascituros. Em entrevista ao canal Globo News no início de setembro, o procurador Luiz Carlos Gonçalves, coordenador da comissão de juristas que elaborou o projeto de reforma do Código Penal, admitiu abertamente seu orgulho – e o de seus pares – em propor a legalização do aborto em termos tão amplos.
Além disso, segundo a proposta de Código Penal, nos casos em que a prática continua sendo crime, a pena deverá variar de seis meses a dois anos de prisão, contra os dois a quatro anos da legislação atual. Crimes ambientais contra animais silvestres ou de laboratório, no entanto, seriam punidos com prisão de dois a quatro anos. Uma legislação em que eliminar seres humanos ainda por nascer é uma falta considerada menos grave que a destruição de um ninho de pássaros revela, na melhor das hipóteses, uma falta de critério assombrosa – ou, na pior delas, um desprezo deliberado pela vida humana.
É fundamental que o Congresso rejeite a proposta de legalização do aborto feita pelos juristas coordenados por Gonçalves, e ao mesmo tempo também é urgente que o Poder Judiciário deixe de promover a eugenia e esticar a lei atual para além dos limites de sua interpretação. A vida dos seres humanos mais inocentes e indefesos precisa é de mais proteção, e não de novas ameaças movidas por uma mentalidade que só reserva o direito à vida aos “perfeitos” e “desejados”.

Quem quiser o link para o texto original, está aqui.


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A livraria de livros grátis

Este post poderia ser publicado num desses sites sobre boas notícias. Porém, eu prefiro tratá-lo a partir do ponto de vista do acesso à cultura, pois uma livraria que oferece livros grátis não é apenas uma boa notícia, mas um projeto baseado em uma filosofia consciente e coerente com o que já foi a política cultural da Espanha. Utilizo o verbo no passado (foi) porque um dia chegou a crise, e com ela os políticos de direita e os recortes sociais.

Mas tudo bem. Mesmo que falem que os espanhóis são preguiçosos, eu acho que eles reagem muito bem à atual política, que se dedica a ir matando a melhor parte deste país: a igualdade - no acesso à informação, saúde, cultura, educação... Esses espanhóis, que organizam manifestações multitudinárias (só em Madrid já foram mais de 2 mil neste ano) contra cada recorte e mudança nas leis trabalhistas, também empreendem. A própria sociedade começa a realizar mudanças que o Estado já não é capaz de oferecer.

A ONG espanhola Grupo 2013 juntava livros para enviar à América Latina, quando conheceu uma livraria gratuita nos Estados Unidos: The Book Thing of Baltimore. E em Madrid nasceu a "Libros Libres" - livraria onde qualquer pessoa pode "comprar" quantos livros grátis quiser.

Grátis e com sofá. O confortável mundo dos Libros Libres, no bairro de Chamberí, em Madri. FONTE: Clarin.com

Mas como assim?

A Libros Libres recebe uma média de 50 doações por dia. Além disso, algumas editora souberam do projeto e doaram exemplares novos. Segundo os responsáveis, a livraria tem entre 5 e 10 mil livros disponíveis no local, além das diversas caixas no depósito.

Para que o projeto seja sustentável a ONG conta com sócios que pagam 12 euros por ano e podem alugar filmes por 1 euro - ou comprá-los por 2. Mas paga quem puder, quanto e quando quiser, "o acesso sempre está aberto para quem necessite", dizem os responsáveis.


Parece sonho?

Com essa grana a ONG paga os 400 euros de aluguel do espaço em Madri, além do salário de quem trabalha nos finais de semana. Nos demais dias, o público é atendido por voluntários e livreiros do Grupo 2013.



Só pra constar:

A ONG calculou que para se manter durante o ano de 2013, precisava de 365 sócios até o final de 2012. Em 20 dias a Libros Libres chegou a 155: "muitos sócios nos doam mais do que os 12 euros", explicam.

A livraria conta com novelas, poesia, obras de teatro, literatura infantil e juvenil, catálogos de arte, fotografia, filosofia, política e textos jurídicos em perfeito estado.

Pra quem não sabe, a Espanha está atravessando a maior crise econômica da sua democracia: 50% dos jovens estão desempregados e o total do desemprego no país ultrapassa os 20%.

"Trata-se de uma receita para a crise: que as pessoas continuem lendo e que se forme um povo intelectual", dizem os responsáveis pela ONG.



Estado pra quê, né? Se os ativistas fazem coisas muito mais legais!


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O acesso à Internet na Espanha


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Os desconhecidos

Uma das coisas que eu mais gostei quando vim morar aqui, foi de me sentir uma desconhecida. Escutava a canção do Dylan, Like a Rolling Stone e cantava bem alto a parte que dizia: How does it feel, to be without a home, like a complete unknown, like a rolling stone?

Essa fase já passou. São 5 anos, trabalhei muito e conheci muitas pessoas.
Tive a oportunidade de me inventar e de criar a minha história. Aqui ninguém nunca me tratou diferente por eu ser filha, prima ou neta de alguém. Além do mais, o conceito de "classes sociais" é bem diferente do que estamos acostumados no Brasil, o que faz com que tenhamos mais valor como pessoas, definitivamente.

Me senti livre.
Livre não só para ser quem eu queria, sem ninguém me dizendo o quê era certo ou errado, mas também para me rodear das pessoas que gostavam de mim do jeito que eu era.

Lembro quando fui me despedir da tia Neusa, minha sábia tia-avó que em 2007 já somava mais de 90 anos de idade:
- Como você está, filha? Animada?
- Estou um pouco assustada, tia... Com um pouco de medo.
- Medo? Medo do quê?
- Medo de que não gostem de mim, de ficar sozinha, de não ter amigos.
- Pois então, faça-se gostar. 
 A tia Neusa abriu um sorriso que nunca esqueci e todo o medo foi embora.

Toda essa liberdade  me serviu para falar com quem eu quisesse, quando quisesse e como quisesse. Fiz amigos em barra de bar, na casa de outros amigos, no ônibus e na Internet.

Hoje li o post que a Bruna Castro escreveu no seu Abra a Janela: Converse com estranhos. Me fez pensar em todas as pessoas que eu conheci viajando dentro de um ônibus, comendo um sanduiche no parque ou pegando um avião. Fiz amigos, troquei confidências, dei beijo na boca em gente que nunca mais vi. Sempre aprendi muito com cada uma delas. Teve um cara que me deu uma ideia pra escrever um livro, outro que acabou me ajudando a conseguir o visto de estudantes que me permitiu estar aqui e gente que me fez entender o que é, realmente, sofrer preconceito por ser diferente.

Também tem os chatos: os inquisitores, os que falam sem parar, os que opinam demais sobre a sua vida. Nos dias em que eu tô curtindo o mau humor, sempre lembro deles e tento não falar com ninguém. Ou falo em outra língua, fingindo que sou de um país que eles não são e que por isso não podemos nos entender.

Numa dessas vezes, eu estava no avião indo pro Brasil e me sentei naqueles bancos gigantes do meio, que todo mundo odeia. Vi que todos os nipo-paulistas que estavam ao meu redor eram viajantes de primeira viagem e que me perguntariam de tudo.. desde se pollo é frango até como mudar o canal da televisãozinha do banco. Me fiz de gringa, ignorei as vovós fofinhas, respondi em espanhol pra aeromoça que falava em portugués e dormi. Dormi pesado e acordei com aquela linda senhorinha com olhos orientais e olhar brasileiro arrumando a coberta para tapar melhor minhas costas.
Sorri.
Me envergonhei. Me senti uma idiota! Nem podia dizer "obrigada".

Me dei conta de que nenhum mau humor é razão suficiente para perder a oportunidade de conhecer a uma grande pessoa - dessas que dão sentido às palavras do poeta que eu tanto gostava quando tinha 17 anos: "A vida é a arte do encontro, embora exista tanto desencontro pela vida".

E brindo os desconhecidos! Seres maravilhosos que dão asas à minha liberdade de ser quem eu mesma quero ser, sem rótulos nem embalagens.

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El regreso de Daisy

Que bom é encontrar pessoas que pensam como você e sabem como explicá-lo melhor.
Um copy + paste de um artigo, publicado no El País, por Carla Guimarães - uma escritora baiana muito madrilenha que conheci em uma cafeteria da rua Fuencarral.


El regreso de Daisy

Se fue de Brasil por la falta de oportunidades. En España empieza a pasar lo mismo


Hace un par de meses mi amiga Daisy tuvo una cita muy importante. Como si de un truco de magia se tratara, entró en el registro de la Calle Pradillo de Madrid como brasileña y salió como española. ¡Tachaaaan! Parece fácil, pero es un truco muy complicado. Fueron demasiados los años de espera para tener los mismos derechos que un ciudadano que nació aquí, a pesar de tener, desde hace mucho, las mismas responsabilidades. Minutos después de jurar fidelidad al Rey y a la Constitución, mientras miraba el noticiero de la tele tomándose un café en un bar cerca del registro, Daisy se percató de algo que la dejó sin palabras.
Cuando llegó a Madrid, fueron muchas las cosas que llamaron la atención de Daisy: la manera como la gente hablaba, muy alto y de forma muy directa, lo mucho que fumaban, hasta en los ascensores y en el metro, lo fuerte que sabía el café, incluso si lo pedías con leche, la inmensa cantidad de bares, casi todos con el suelo repleto de servilletas, huesos de aceitunas y colillas, y lo tímidos que eran los hombres, que tardaban siglos en ligar. Antes de venir, había visto la película Ay Carmela e imaginaba al hombre español como el soldado republicano que aparecía al principio de la cinta, preguntando a Carmela si podía calentarse las manos en su escote. Le encantó el descaro del soldado, influido seguramente por la soledad de la guerra o la ginebra. Los hombres que Daisy conoció tardaban tanto en dar el primer paso, que ella misma tenía que preguntarles si les apetecía calentarse las manos. En eso, todo hay que decirlo, los brasileños son más rápidos y ya vienen con las manos calientes.
Después de esta primera impresión, donde asentamos la mirada en las diferencias cotidianas y las hacemos mayores de lo que realmente son, poco a poco, Daisy empezó a darse cuenta de lo que era realmente diferente, y a apreciarlo. Por ejemplo: la inmensa clase media española, y esa sensación de que aquí las diferencias sociales no son tan grandes. La primera vez que llamó un fontanero a su casa y él la trató de igual a igual, Daisy se quedó anonadada. En Brasil no era así, el clasismo imperaba. Aquí casi todos se trataban de tú a tú, y eso significa algo más que el simple uso o desuso de ciertos pronombres personales. Otra cosa que le impresionó a Daisy fue el sistema público de salud. Hace no mucho tuvo que ser operada dos veces por una hernia. En Brasil, Daisy jamás confió en la salud pública, y la privada, después de dos cirugías y varios días hospitalizada, sangraría de tal manera su cuenta bancaria que su mejor opción sería morir en la mesa de operaciones. Pero lo que más le chocaba, sin embargo, era la sensación de seguridad. Que cualquier latinoamericano me corrija si me equivoco, pero eso de regresar a casa de madrugada caminando por las calles y que no te pase nada… Eso es un lujo. No está pagado con dinero. Bueno, sí lo está. Esto ocurre en España justamente porque la gente tiene una mejor división del dinero, no hay tanto en manos de tan pocos como pasa en Brasil.
También es cierto que Brasil cambió mucho en esos años. 30 millones de brasileños salieron de la pobreza, el país pasó de deudor a acreedor del Fondo Monetario Internacional y es actualmente la sexta economía mundial. Daisy nunca tuvo ínfulas nacionalistas, sino todo lo contrario. Consideraba el nacionalismo como algo negativo, que impedía a los brasileños ver el país como realmente era. Pero estaba claro para ella que las políticas sociales de los últimos gobiernos le permitieron volver a tener orgullo de un Brasil que la desterró por falta de oportunidades. Por eso, mientras veía el catastrófico noticiero de la tele española en el bar cerca del registro, Daisy pensó en Brasil y en España, en cómo han cambiado las cosas estos últimos años. Y encontró un símil entre los dos. Algo que le aterrorizó.
Hace 12 años, Daisy se fue de un país en crisis, gobernado por neoliberales que priorizaban las medidas económicas por encima de las sociales y que creían en un desarrollo dependiente de los países más ricos de la zona. Un país que llevaba a cabo una fuerte política de privatizaciones y que consideraba las inversiones en salud y educación como meros gastos públicos. Se creía y se decía que la administración privada sería más eficaz que la pública. Sin embargo, la misión de cualquier empresa privada es obtener beneficios, lo que en demasiadas ocasiones prevalecía sobre el bienestar de los ciudadanos. Daisy se fue de un país que ya no creía en su clase política y donde la corrupción imperaba impunemente, ya que muchos de los procesos judiciales a los corruptos, como se decía en Brasil: terminaban “en pizza”. Algo termina en pizza cuando se habla mucho, no se llega a ninguna parte y después, ya cansados, los interlocutores piden una pizza. Durante mucho tiempo Daisy creyó que el propio Brasil terminaría en pizza, y justamente por eso partió. Se fue de un país que no juzgó los crímenes cometidos durante la dictadura, dejando impunes las torturas y asesinatos sufridos por más de 20.000 presos políticos. Un país cuya ya escasa clase media desaparecía, absorbida por una galopante crisis social. Un país cuyo gran triunfo nacional era ganar mundiales de fútbol.

Se fue de un país en crisis, donde los  neoliberales  priorizaban las medidas económicas por encima de las sociales
De alguna manera, y sin saber muy bien cómo, al aceptar la nacionalidad española, Daisy pensó que estaba regresando a este mismo país.
Carla Guimarães es escritora, guionista de televisión y de cine.

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Resgatados pela Eurocopa

Mais do que crise ou recessão, as palavras do momento por aqui são "Resgate Económico". 
Rapidamente: o sistema bancário espanhol foi resgatado pelo Eurogrupo, com um financiamento em forma de empréstimo de €100 bilhões. A partir de agora, a Espanha está baixo supervisão, não só da Comunidade Européia, mas também do FMI. Deixamos de ser um país soberano, pelo menos economicamente e teremos que prestar contas periódicas à Comunidade Européia (recomendo o Blog da Karla Mendes, no Estadão).

Tudo isso aconteceu neste final de semana: o rumor apareceu na sexta-feira, apenas uma semana depois do presidente Mariano Rajoy garantir a todos os espanhóis, pela televisão, que a Espanha não seria resgatada. No sábado de manhã o Ministro da Economia deu uma coletiva de imprensa confirmando que tínhamos aceitado a "ajuda econômica oferecida pela Comunidade Européia". Luis de Guindos não utilizou a palavra "resgate" e insistiu - em outra palavras - que a Espanha tinha tido "muita sorte", já que a Comunidade Européia fez uma oferta irrecusável para apoiar a nossa economia. De Guindos também disse que Rajoy não falaria com a imprensa, pois o presidente estava viajando à Polônia para ver a estreia da Espanha na Eurocopa. Em plana crise. No meio do que muitos jornalistas chamaram de pior momento económico do país desde a Transição pós-Franco.

Claro que isso gerou histeria coletiva e o presidente teve que voltar láááááá da Polônia pra dar uma entrevista e uma explicação aos espanhóis. Depois, Rajoy voltou à Polônia para, como a maioria dos espanhóis, ver a Seleção Espanhola empatar com a Itália.

A teoria da conspiração diz que tudo já estava planejado. Eles já tinham calculado tudo minuciosamente e o anuncio foi feito, de propósito, um dia antes do começo da Eurocopa. Com isso, eles abafariam o caso e desviariam a atenção da população.

 


 No sábado, muitas pessoas ficaram horrorizadas com a palavra "resgate". No domingo tinha fila pra comprar jornais na banca. Lá pelas 16hs desse mesmo domingo, pouco tempo depois da declaração do Rajoy, a maioria das pessoas esqueceu toda a história que eu contei e foram para os bares e praças, vestidos de vermelho, com a cara pintada e a bandeira em mãos, no auge do seu patriotismo, para gritar: "Yo soy español, español, español" - algo como "eu sou brasileiro, com muito orgulho..."
Lembrei do Brasil. Vi todo aquele espetáculo com tristeza. Me uni à teoria da conspiração. Lembrei do Julian Irusta. Pensei nas grandes manifestações populares que vivi na Espanha e me perguntei se todos aqueles ativistas também tinham se esquecido do restate económico e da política. Torci pela Espanha e pensei que não podemos estar condicionados pelos governantes, que o povo é soberano e merece seu divertimento. Entendi que esta é a desculpa que usamos para nós mesmos.... E que tem coisas que não mudam entre um país e outro.

Fonte: Pinterest do Julian

Esta semana vi no Facebook de algum amigo a imagem que publico no final deste post - e dei "like". Vi a publicidade da Coca-Cola na TV e me pareceu de péssimo gosto. Fiquei indignada, fiz um discurso demagógico na mesa do almoço, perdi o apetite e dei piti - apenas poucos minutos antes de começar os Simpsons e da gente tomar nossa anestesia diária de risada. E logo pensei: merecemos.






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El tiempo no para

Morar em outro país é descobrir que uns argentinos fizeram uma versão quase tão boa quanto a original, para uma das suas músicas favoritas - e entender a transcendência de uma história que eu pensei que fosse só nossa, mas que na verdade é do povo, de qualquer povo.

Para eles nós somos só um bando de ladrões, de bichas e maconheiros. Mas não nos sintamos sozinhos... isso é comum em toda a América Latina. E é igualzinho nesta parte da Europa.



Importante comentar que Beirsuit Vergarabat não é, em absoluto, uma banda de uma só canção. Grande grupo formado nos anos 80, chegando ao êxito no final dos 90, eles misturam rock com outros ritmos latinos como o tango e a salsa, sempre mantendo firme um necessário discurso crítico à política e à sociedade. "El tiempo no para" é um dos seus trabalhos mais reconhecidos, mas não posso deixar de recomendar as belíssimas Mi Caramelo e Un Pacto.  
Cambiar el Alma e La Bolsa mostram a outra cara dos Beirsuit - uma das referências do rock argentino. Da mesma época em que o Brasil ouvia o coquetel Cazuza-Barão-Ultraje-Legião-Lobão-Titãs (quantos "ã" na quela época, né?) e outras pérolas.


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Os bares de Madrid e a Taberna dos Conspiradores

Uma das melhores coisas de morar em Madrid é a quantidade, variedade e qualidade dos bares que a cidade oferece

Antes da chegada da crise econômica que nos assola, Madrid contava com 14.658 bares: um para cada 415 pessoas. Isso fazia com que fôssemos o país com mais bares, restaurantes e cafeterias de toda a Comunidade Européia. Com a crise, muitos fecharam, mas o espanhol, pela sua própria cultura, não deixa de ir ali na esquina tomar sua cervejinha no final da tarde nem de sair pra jantar no final de semana.

À noite a Espanha é mágica. Todo mundo está na rua comendo, bebendo, fumando, gritando e dando risada. É uma das coisas que eu mais gosto daqui: as pessoas não ficam dentro de casa, a vida está nas ruas. Por causa da tal da crise, temos saído menos e dado preferência a lugares que oferecem bom preço e qualidade.

Nesse fim de semana fomos jantar na Taberna dos Conspiradores, um bar-restaurante extremeño que fica no Barrio de las Letras, zona boêmia bem no centro cultural da cidade, entre os Museus do Prado, o Reina Sofia e o Thyssen Bornemisza. Um lugar com decoração autêntica, sem firulas para turistas, nem luxo desnecessário. Um bar com comida boa, preço acessível e gente agradável.

A cultura extremeña é pouco conhecida internacionalmente e menos valorizada internamente do que deveria. Extremadura é uma comunidad autónoma (estado) que está ao sudoeste da Espanha, fronteira com Portugal. Sua capital, a cidade de Mérida, foi fundada em 25a.c. e declarada Patrimônio Cultural pela Unesco, graças à conservação de um importante conjunto arqueológico de construções romanas.

Teatro Romano em Mérida - Extremadura

Palco do Teatro Romano de Mérida

A Gastronomia Extremeña

Apesar desse "esquecimento" turístico, Extremadura é reconhecida nacionalmente pela qualidade da sua gastronomia, conservando algumas tradições rurais muito importantes, que lhe garantem variedade no cultivo e tradição nos cuidados com a terra.

Devido à sua geografia, que une amenas temperaturas durante todo o ano, com a passagem de alguns dos principais rios do país, essa região conta com agricultura de qualidade, além de prestigiados produtos como queijo, mel, vinho, azeite, jamón de bellota e embutidos, que levam um selo de qualidade com denominação de origem - reconhecido e respeitado em toda Espanha.

Entre os pratos mais conhecidos da gastronomia extremeña estão as migas (parecido com a farofa, mas feito com farinha de pão), os buñuelos (tipo de empanado), variedades de preparos de arroz com partes do porco e embutidos, os pimientos rellenos (normalmente de bacalhau ou carne picada) e algumas carnes de caça, como lebre, veado ou perdiz.

Por tudo isso, eu recomendo a Taberna dos Conspiradores. Lá, a gente pode sair um pouco da Espanha tão repetida nos roteiros turísticos e nas caricaturas mais tradicionais, sem gastar muito dinheiro.

Para duas pessoas

Duas claras con limón, uma taça de vinho extremeño - gentilmente acompanhados de uma excelente tapa (porção) de arroz com frango e embutidos de porco (morcilla, chistorra e linguiça). "Gentilmente acompanhado" significa: por conta da casa.

Uma chique salada de pato com abobrinha e figo confeitado, de primeiro prato
Buñuelos de bacalhau, de segundo
Carrillada (carne cozida no molho de verduras com vinho branco), para terminar
Os pratos vieram nessa ordem e - na verdade - eu teria parado já na salada e o Alberto, nos buñuelos. Quero dizer que os pratos eram grandes e além de saborosos, bem servidos.

Para quem está em Madrid, é um lugar muito recomendável. Para quem não está, fica a dica para quando puder vir.

Tendo em conta que estamos em tempos de crise, é importante ressaltar: o jantar nos saiu por menos de 20€ por pessoa e poderia ter sido bem menos se a gente não tivese pedido comida para três.

Tendo em conta a inflação dos preços na minha cidade natal, 37€ para duas pessoas jantarem e beberem é uma dica econômica. Para mim, é mais barato jantar bem em Madrid do que em Curitiba. Só para comparar, outro dia estive na capital do Paraná e pra tomar uma meia dúzia de cerveja e um par de caipirinhas num buteco da moda, pagamos, os mesmos Alberto e eu, nada mais nada menos do que R$ 79,00 - uns 30€ ao cambio do dia.



Editado 12/06, às 17hs
Recomendo dois sites para os amantes dos bares e delícias da gastronomia espanhola e/ou internacionais:
Eu conheço um lugar
Comer con los ojos

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