Este post é um comentário que eu pensei em escrever numa publicação feita no Facebook pelo jornal Gazeta do Povo. Trata-se de um editorial sobre a situação do direito ao aborto no Brasil.
Preferi não publicar o meu pensamento na publicação da Gazeta para me privar dos comentários preconceituosos que poderiam chover na maior rede social do mundo - que também é o maior reservatório de bobos de todo o planeta.
Aqui estão as 10 linhas sobre a minha opinião e experiência pessoal com o tema aqui na Espanha (o editorial da Gazeta vem logo abaixo).
"Na minha opinião a mulher deve ter o direito a decidir. Moro na Espanha há 5 anos, estou grávida de 4 meses e através do sistema público de saúde me fizeram todos os testes para saber se o meu neném tem síndrome de down ou de edwards. São exames que não são feitos nem sequer pelo sistema privado (ou planos de saúde) aí no Brasil. Conversei com médicos em Curitiba que me explicaram que se trata de "exames muito caros" e que por isso normalmente não se realizam.
Caso essas provas dessem positivo eu teria o direito de escolher. Teria o direito de fazer um aborto "gratuito", ou seja, pago pelo sistema público de saúde espanhol - isto sim, até a 21ª semana de gestação. Também teria o direito de seguir com a gravidez se assim eu e meu companheiro desejássemos.
Isso significa que eu teria direitos. Eu escolheria e poderia decidir- como mãe, mulher e cidadã - o meu futuro e o futuro do meu bebê.
De todas as formas, fico feliz com a notícia que motivou a Gazeta a escrever este editorial - uma prova de que evoluímos como sociedade democrática - apesar da postura tão conservadora deste meio de comunicação."
Aqui está o tal editorial da Gazeta do Povo
A Eugenia avança:
Este post poderia ser publicado num desses sites sobre boas notícias. Porém, eu prefiro tratá-lo a partir do ponto de vista do acesso à cultura, pois uma livraria que oferece livros grátis não é apenas uma boa notícia, mas um projeto baseado em uma filosofia consciente e coerente com o que já foi a política cultural da Espanha. Utilizo o verbo no passado (foi) porque um dia chegou a crise, e com ela os políticos de direita e os recortes sociais.
Mas tudo bem. Mesmo que falem que os espanhóis são preguiçosos, eu acho que eles reagem muito bem à atual política, que se dedica a ir matando a melhor parte deste país: a igualdade - no acesso à informação, saúde, cultura, educação... Esses espanhóis, que organizam manifestações multitudinárias (só em Madrid já foram mais de 2 mil neste ano) contra cada recorte e mudança nas leis trabalhistas, também empreendem. A própria sociedade começa a realizar mudanças que o Estado já não é capaz de oferecer.
A ONG espanhola Grupo 2013 juntava livros para enviar à América Latina, quando conheceu uma livraria gratuita nos Estados Unidos: The Book Thing of Baltimore. E em Madrid nasceu a "Libros Libres" - livraria onde qualquer pessoa pode "comprar" quantos livros grátis quiser.
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Grátis e com sofá. O confortável mundo dos Libros Libres, no bairro de Chamberí, em Madri. FONTE: Clarin.com |
Mas como assim?
A Libros Libres recebe uma média de 50 doações por dia. Além disso, algumas editora souberam do projeto e doaram exemplares novos. Segundo os responsáveis, a livraria tem entre 5 e 10 mil livros disponíveis no local, além das diversas caixas no depósito.Para que o projeto seja sustentável a ONG conta com sócios que pagam 12 euros por ano e podem alugar filmes por 1 euro - ou comprá-los por 2. Mas paga quem puder, quanto e quando quiser, "o acesso sempre está aberto para quem necessite", dizem os responsáveis.
Parece sonho?
Com essa grana a ONG paga os 400 euros de aluguel do espaço em Madri, além do salário de quem trabalha nos finais de semana. Nos demais dias, o público é atendido por voluntários e livreiros do Grupo 2013.Só pra constar:
A ONG calculou que para se manter durante o ano de 2013, precisava de 365 sócios até o final de 2012. Em 20 dias a Libros Libres chegou a 155: "muitos sócios nos doam mais do que os 12 euros", explicam.A livraria conta com novelas, poesia, obras de teatro, literatura infantil e juvenil, catálogos de arte, fotografia, filosofia, política e textos jurídicos em perfeito estado.
Pra quem não sabe, a Espanha está atravessando a maior crise econômica da sua democracia: 50% dos jovens estão desempregados e o total do desemprego no país ultrapassa os 20%.
"Trata-se de uma receita para a crise: que as pessoas continuem lendo e que se forme um povo intelectual", dizem os responsáveis pela ONG.
Estado pra quê, né? Se os ativistas fazem coisas muito mais legais!
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O acesso à Internet na Espanha
Uma das coisas que eu mais gostei quando vim morar aqui, foi de me sentir uma desconhecida. Escutava a canção do Dylan, Like a Rolling Stone e cantava bem alto a parte que dizia: How does it feel, to be without a home, like a complete unknown, like a rolling stone?
Essa fase já passou. São 5 anos, trabalhei muito e conheci muitas pessoas.
Tive a oportunidade de me inventar e de criar a minha história. Aqui ninguém nunca me tratou diferente por eu ser filha, prima ou neta de alguém. Além do mais, o conceito de "classes sociais" é bem diferente do que estamos acostumados no Brasil, o que faz com que tenhamos mais valor como pessoas, definitivamente.
Me senti livre.
Livre não só para ser quem eu queria, sem ninguém me dizendo o quê era certo ou errado, mas também para me rodear das pessoas que gostavam de mim do jeito que eu era.
Lembro quando fui me despedir da tia Neusa, minha sábia tia-avó que em 2007 já somava mais de 90 anos de idade:
- Como você está, filha? Animada?
- Estou um pouco assustada, tia... Com um pouco de medo.
- Medo? Medo do quê?
- Medo de que não gostem de mim, de ficar sozinha, de não ter amigos.
- Pois então, faça-se gostar.
A tia Neusa abriu um sorriso que nunca esqueci e todo o medo foi embora.
Toda essa liberdade me serviu para falar com quem eu quisesse, quando quisesse e como quisesse. Fiz amigos em barra de bar, na casa de outros amigos, no ônibus e na Internet.
Hoje li o post que a Bruna Castro escreveu no seu Abra a Janela: Converse com estranhos. Me fez pensar em todas as pessoas que eu conheci viajando dentro de um ônibus, comendo um sanduiche no parque ou pegando um avião. Fiz amigos, troquei confidências, dei beijo na boca em gente que nunca mais vi. Sempre aprendi muito com cada uma delas. Teve um cara que me deu uma ideia pra escrever um livro, outro que acabou me ajudando a conseguir o visto de estudantes que me permitiu estar aqui e gente que me fez entender o que é, realmente, sofrer preconceito por ser diferente.
Também tem os chatos: os inquisitores, os que falam sem parar, os que opinam demais sobre a sua vida. Nos dias em que eu tô curtindo o mau humor, sempre lembro deles e tento não falar com ninguém. Ou falo em outra língua, fingindo que sou de um país que eles não são e que por isso não podemos nos entender.
Numa dessas vezes, eu estava no avião indo pro Brasil e me sentei naqueles bancos gigantes do meio, que todo mundo odeia. Vi que todos os nipo-paulistas que estavam ao meu redor eram viajantes de primeira viagem e que me perguntariam de tudo.. desde se pollo é frango até como mudar o canal da televisãozinha do banco. Me fiz de gringa, ignorei as vovós fofinhas, respondi em espanhol pra aeromoça que falava em portugués e dormi. Dormi pesado e acordei com aquela linda senhorinha com olhos orientais e olhar brasileiro arrumando a coberta para tapar melhor minhas costas.
Sorri.
Me envergonhei. Me senti uma idiota! Nem podia dizer "obrigada".
Me dei conta de que nenhum mau humor é razão suficiente para perder a oportunidade de conhecer a uma grande pessoa - dessas que dão sentido às palavras do poeta que eu tanto gostava quando tinha 17 anos: "A vida é a arte do encontro, embora exista tanto desencontro pela vida".
E brindo os desconhecidos! Seres maravilhosos que dão asas à minha liberdade de ser quem eu mesma quero ser, sem rótulos nem embalagens.
Que bom é encontrar pessoas que pensam como você e sabem como explicá-lo melhor.
Um copy + paste de um artigo, publicado no El País, por Carla Guimarães - uma escritora baiana muito madrilenha que conheci em uma cafeteria da rua Fuencarral.
El regreso de Daisy
Se fue de Brasil por la falta de oportunidades. En España empieza a pasar lo mismo
No sábado, muitas pessoas ficaram horrorizadas com a palavra "resgate".
No domingo tinha fila pra comprar jornais na banca. Lá pelas 16hs desse
mesmo domingo, pouco tempo depois da declaração do Rajoy, a maioria das
pessoas esqueceu toda a história que eu contei e foram para os bares e
praças, vestidos de vermelho, com a cara pintada e a bandeira em mãos,
no auge do seu patriotismo, para gritar: "Yo soy
español, español, español" - algo como "eu sou brasileiro, com muito
orgulho..."![]() |
| Fonte: Pinterest do Julian |
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Morar em outro país é descobrir que uns argentinos fizeram uma versão quase tão boa quanto a original, para uma das suas músicas favoritas - e entender a transcendência de uma história que eu pensei que fosse só nossa, mas que na verdade é do povo, de qualquer povo.
Para eles nós somos só um bando de ladrões, de bichas e maconheiros. Mas não nos sintamos sozinhos... isso é comum em toda a América Latina. E é igualzinho nesta parte da Europa.
Importante comentar que Beirsuit Vergarabat não é, em absoluto, uma banda de uma só canção. Grande grupo formado nos anos 80, chegando ao êxito no final dos 90, eles misturam rock com outros ritmos latinos como o tango e a salsa, sempre mantendo firme um necessário discurso crítico à política e à sociedade.
"El tiempo no para" é um dos seus trabalhos mais reconhecidos, mas não posso deixar de recomendar as belíssimas Mi Caramelo e Un Pacto.
Cambiar el Alma e La Bolsa mostram a outra cara dos Beirsuit - uma das referências do rock argentino. Da mesma época em que o Brasil ouvia o coquetel Cazuza-Barão-Ultraje-Legião-Lobão-Titãs (quantos "ã" na quela época, né?) e outras pérolas.
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Uma das melhores coisas de morar em Madrid é a quantidade, variedade e qualidade dos bares que a cidade oferece
Antes da chegada da crise econômica que nos assola, Madrid contava com 14.658 bares: um para cada 415 pessoas. Isso fazia com que fôssemos o país com mais bares, restaurantes e cafeterias de toda a Comunidade Européia. Com a crise, muitos fecharam, mas o espanhol, pela sua própria cultura, não deixa de ir ali na esquina tomar sua cervejinha no final da tarde nem de sair pra jantar no final de semana.À noite a Espanha é mágica. Todo mundo está na rua comendo, bebendo, fumando, gritando e dando risada. É uma das coisas que eu mais gosto daqui: as pessoas não ficam dentro de casa, a vida está nas ruas. Por causa da tal da crise, temos saído menos e dado preferência a lugares que oferecem bom preço e qualidade.
Nesse fim de semana fomos jantar na Taberna dos Conspiradores, um bar-restaurante extremeño que fica no Barrio de las Letras, zona boêmia bem no centro cultural da cidade, entre os Museus do Prado, o Reina Sofia e o Thyssen Bornemisza. Um lugar com decoração autêntica, sem firulas para turistas, nem luxo desnecessário. Um bar com comida boa, preço acessível e gente agradável.
A cultura extremeña é pouco conhecida internacionalmente e menos valorizada internamente do que deveria. Extremadura é uma comunidad autónoma (estado) que está ao sudoeste da Espanha, fronteira com Portugal. Sua capital, a cidade de Mérida, foi fundada em 25a.c. e declarada Patrimônio Cultural pela Unesco, graças à conservação de um importante conjunto arqueológico de construções romanas.
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| Teatro Romano em Mérida - Extremadura |
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| Palco do Teatro Romano de Mérida |
A Gastronomia Extremeña
Apesar desse "esquecimento" turístico, Extremadura é reconhecida nacionalmente pela qualidade da sua gastronomia, conservando algumas tradições rurais muito importantes, que lhe garantem variedade no cultivo e tradição nos cuidados com a terra.Devido à sua geografia, que une amenas temperaturas durante todo o ano, com a passagem de alguns dos principais rios do país, essa região conta com agricultura de qualidade, além de prestigiados produtos como queijo, mel, vinho, azeite, jamón de bellota e embutidos, que levam um selo de qualidade com denominação de origem - reconhecido e respeitado em toda Espanha.
Entre os pratos mais conhecidos da gastronomia extremeña estão as migas (parecido com a farofa, mas feito com farinha de pão), os buñuelos (tipo de empanado), variedades de preparos de arroz com partes do porco e embutidos, os pimientos rellenos (normalmente de bacalhau ou carne picada) e algumas carnes de caça, como lebre, veado ou perdiz.
Por tudo isso, eu recomendo a Taberna dos Conspiradores. Lá, a gente pode sair um pouco da Espanha tão repetida nos roteiros turísticos e nas caricaturas mais tradicionais, sem gastar muito dinheiro.
Para duas pessoas
| Uma chique salada de pato com abobrinha e figo confeitado, de primeiro prato |
| Buñuelos de bacalhau, de segundo |
| Carrillada (carne cozida no molho de verduras com vinho branco), para terminar |
Para quem está em Madrid, é um lugar muito recomendável. Para quem não está, fica a dica para quando puder vir.
Tendo em conta que estamos em tempos de crise, é importante ressaltar: o jantar nos saiu por menos de 20€ por pessoa e poderia ter sido bem menos se a gente não tivese pedido comida para três.
Tendo em conta a inflação dos preços na minha cidade natal, 37€ para duas pessoas jantarem e beberem é uma dica econômica. Para mim, é mais barato jantar bem em Madrid do que em Curitiba. Só para comparar, outro dia estive na capital do Paraná e pra tomar uma meia dúzia de cerveja e um par de caipirinhas num buteco da moda, pagamos, os mesmos Alberto e eu, nada mais nada menos do que R$ 79,00 - uns 30€ ao cambio do dia.
Editado 12/06, às 17hs
Recomendo dois sites para os amantes dos bares e delícias da gastronomia espanhola e/ou internacionais:
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