Aconteceu de novo.... A Presidente Dilma estava em Madri na semana passada e o Brasil voltou à capa de todos os jornais do país. Abrindo a app do El País online, lá estava: Brasil, el país carioca decide....
Grrr! Outra vez!
Quando eu trabalhava como jornalista em um grupo de comunicação que insistia em chamar o Brasil de "país carioca", eu escrevi um post no meu falecido blog que gerou certa repercussão entre meus companheiros, e rendeu um orgulhoso primeiro lugar no Google para quem procurava por"País carioca".
Ressuscito o texto porque acho interessante a gente saber o pouco que eles conhecem sobre o nosso país por aqui. É normal, claro. Sei que tem muita gente que acha que os espanhóis comem paella e tomam sangria todos os dias. Infelizmente isso não é verdade :)
Esse foi o grãozinho de areia que eu tentei somar à desmistificação do nosso país. O link para o post original está aqui. Foi o primeiro e único que escrevi em dois idiomas.
Espero que gostem.
Brasil no es un "país carioca"
Ontem eu estava aqui trabalhando enquanto o pessoal combinava de sair. Daí meu chefe disse pra menina nova: "você vem, né?". Ela disse que não podia. Como ele insistiu, ela respondeu educadamente: "é que eu e a minha namorada temos um compromisso neste fim de semana".
Meu chefe é meio certinho e sei que ficou chocado, mas não disse nada. Só cometou comigo depois: "você viu?" e deu uma risadinha meio nervosa. Eu respondi pra ele que achei muito legal: "o que você queria, que ela mentisse?".
Na verdade, eu fiquei muito orgulhosa. Pela menina, pela namorada dela, pela minha empresa, e por saber que uma sociedade pode chegar a ser tão civilizada.
Um aplauso para todos.
A subida de preço da gasolina em Curitiba teve mais repercusão nas redes sociais do que a chegada do calor "insuportável" de 30º (!) na cidade sorriso.
Como decidi parar de reclamar no Facebook - para ser um pouco diferente das pessoas comuns -, transferi minha frustração-expatriada para este blog, onde comentarei com os meus caros não-leitores, o quê eu penso sobre o tal assunto:
... válido é reclamar da falta de qualidade do transporte público da cidade em vez de queixar-se do preço da gasolina.
Lembrem que o transporte público é público e exigir melhoras ao Estado é um direito (eu diria até mesmo "dever") do cidadão. O posto de gasolina é uma entidade privada de algum cara que quer ficar rico às custas de um Governo que não faz bem o seu trabalho. O posto não tem nenhuma razão para cobrar um preço justo pelo seu produto ou serviço.
É claro que você pode fazer uma reclamação no Procon.. mas você sempre vai ser vítima de um empresário oportunista - nenhum Procon pode nos salvar disso.
O sistema público sempre será público, e nosso. É a diferença entre "público" e "privado". Só por isso deveríamos nos apropriar dele para sempre - ou pelo menos enquanto somos obrigados a pagar os impostos que mantém - ou deveriam manter - estes serviços vivos.
Das coisas que mais gosto de morar aqui desse lado do mundo é de ter a opção de não ter um carro. Reforço: não tê-lo como uma opção e não por falta dela. E isso só acontece porque os cidadãos espanhóis exigem os seus direitos e fazem com que os políticos cumpram os seus deveres.
Bem mais simples do que exigir que o dono do posto te venda gasolina barata. Não deveria ser?
Este post é um comentário que eu pensei em escrever numa publicação feita no Facebook pelo jornal Gazeta do Povo. Trata-se de um editorial sobre a situação do direito ao aborto no Brasil.
Preferi não publicar o meu pensamento na publicação da Gazeta para me privar dos comentários preconceituosos que poderiam chover na maior rede social do mundo - que também é o maior reservatório de bobos de todo o planeta.
Aqui estão as 10 linhas sobre a minha opinião e experiência pessoal com o tema aqui na Espanha (o editorial da Gazeta vem logo abaixo).
"Na minha opinião a mulher deve ter o direito a decidir. Moro na Espanha há 5 anos, estou grávida de 4 meses e através do sistema público de saúde me fizeram todos os testes para saber se o meu neném tem síndrome de down ou de edwards. São exames que não são feitos nem sequer pelo sistema privado (ou planos de saúde) aí no Brasil. Conversei com médicos em Curitiba que me explicaram que se trata de "exames muito caros" e que por isso normalmente não se realizam.
Caso essas provas dessem positivo eu teria o direito de escolher. Teria o direito de fazer um aborto "gratuito", ou seja, pago pelo sistema público de saúde espanhol - isto sim, até a 21ª semana de gestação. Também teria o direito de seguir com a gravidez se assim eu e meu companheiro desejássemos.
Isso significa que eu teria direitos. Eu escolheria e poderia decidir- como mãe, mulher e cidadã - o meu futuro e o futuro do meu bebê.
De todas as formas, fico feliz com a notícia que motivou a Gazeta a escrever este editorial - uma prova de que evoluímos como sociedade democrática - apesar da postura tão conservadora deste meio de comunicação."
Aqui está o tal editorial da Gazeta do Povo
A Eugenia avança:
Este post poderia ser publicado num desses sites sobre boas notícias. Porém, eu prefiro tratá-lo a partir do ponto de vista do acesso à cultura, pois uma livraria que oferece livros grátis não é apenas uma boa notícia, mas um projeto baseado em uma filosofia consciente e coerente com o que já foi a política cultural da Espanha. Utilizo o verbo no passado (foi) porque um dia chegou a crise, e com ela os políticos de direita e os recortes sociais.
Mas tudo bem. Mesmo que falem que os espanhóis são preguiçosos, eu acho que eles reagem muito bem à atual política, que se dedica a ir matando a melhor parte deste país: a igualdade - no acesso à informação, saúde, cultura, educação... Esses espanhóis, que organizam manifestações multitudinárias (só em Madrid já foram mais de 2 mil neste ano) contra cada recorte e mudança nas leis trabalhistas, também empreendem. A própria sociedade começa a realizar mudanças que o Estado já não é capaz de oferecer.
A ONG espanhola Grupo 2013 juntava livros para enviar à América Latina, quando conheceu uma livraria gratuita nos Estados Unidos: The Book Thing of Baltimore. E em Madrid nasceu a "Libros Libres" - livraria onde qualquer pessoa pode "comprar" quantos livros grátis quiser.
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Grátis e com sofá. O confortável mundo dos Libros Libres, no bairro de Chamberí, em Madri. FONTE: Clarin.com |
Mas como assim?
A Libros Libres recebe uma média de 50 doações por dia. Além disso, algumas editora souberam do projeto e doaram exemplares novos. Segundo os responsáveis, a livraria tem entre 5 e 10 mil livros disponíveis no local, além das diversas caixas no depósito.Para que o projeto seja sustentável a ONG conta com sócios que pagam 12 euros por ano e podem alugar filmes por 1 euro - ou comprá-los por 2. Mas paga quem puder, quanto e quando quiser, "o acesso sempre está aberto para quem necessite", dizem os responsáveis.
Parece sonho?
Com essa grana a ONG paga os 400 euros de aluguel do espaço em Madri, além do salário de quem trabalha nos finais de semana. Nos demais dias, o público é atendido por voluntários e livreiros do Grupo 2013.Só pra constar:
A ONG calculou que para se manter durante o ano de 2013, precisava de 365 sócios até o final de 2012. Em 20 dias a Libros Libres chegou a 155: "muitos sócios nos doam mais do que os 12 euros", explicam.A livraria conta com novelas, poesia, obras de teatro, literatura infantil e juvenil, catálogos de arte, fotografia, filosofia, política e textos jurídicos em perfeito estado.
Pra quem não sabe, a Espanha está atravessando a maior crise econômica da sua democracia: 50% dos jovens estão desempregados e o total do desemprego no país ultrapassa os 20%.
"Trata-se de uma receita para a crise: que as pessoas continuem lendo e que se forme um povo intelectual", dizem os responsáveis pela ONG.
Estado pra quê, né? Se os ativistas fazem coisas muito mais legais!
Mais posts:
O acesso à Internet na Espanha
Uma das coisas que eu mais gostei quando vim morar aqui, foi de me sentir uma desconhecida. Escutava a canção do Dylan, Like a Rolling Stone e cantava bem alto a parte que dizia: How does it feel, to be without a home, like a complete unknown, like a rolling stone?
Essa fase já passou. São 5 anos, trabalhei muito e conheci muitas pessoas.
Tive a oportunidade de me inventar e de criar a minha história. Aqui ninguém nunca me tratou diferente por eu ser filha, prima ou neta de alguém. Além do mais, o conceito de "classes sociais" é bem diferente do que estamos acostumados no Brasil, o que faz com que tenhamos mais valor como pessoas, definitivamente.
Me senti livre.
Livre não só para ser quem eu queria, sem ninguém me dizendo o quê era certo ou errado, mas também para me rodear das pessoas que gostavam de mim do jeito que eu era.
Lembro quando fui me despedir da tia Neusa, minha sábia tia-avó que em 2007 já somava mais de 90 anos de idade:
- Como você está, filha? Animada?
- Estou um pouco assustada, tia... Com um pouco de medo.
- Medo? Medo do quê?
- Medo de que não gostem de mim, de ficar sozinha, de não ter amigos.
- Pois então, faça-se gostar.
A tia Neusa abriu um sorriso que nunca esqueci e todo o medo foi embora.
Toda essa liberdade me serviu para falar com quem eu quisesse, quando quisesse e como quisesse. Fiz amigos em barra de bar, na casa de outros amigos, no ônibus e na Internet.
Hoje li o post que a Bruna Castro escreveu no seu Abra a Janela: Converse com estranhos. Me fez pensar em todas as pessoas que eu conheci viajando dentro de um ônibus, comendo um sanduiche no parque ou pegando um avião. Fiz amigos, troquei confidências, dei beijo na boca em gente que nunca mais vi. Sempre aprendi muito com cada uma delas. Teve um cara que me deu uma ideia pra escrever um livro, outro que acabou me ajudando a conseguir o visto de estudantes que me permitiu estar aqui e gente que me fez entender o que é, realmente, sofrer preconceito por ser diferente.
Também tem os chatos: os inquisitores, os que falam sem parar, os que opinam demais sobre a sua vida. Nos dias em que eu tô curtindo o mau humor, sempre lembro deles e tento não falar com ninguém. Ou falo em outra língua, fingindo que sou de um país que eles não são e que por isso não podemos nos entender.
Numa dessas vezes, eu estava no avião indo pro Brasil e me sentei naqueles bancos gigantes do meio, que todo mundo odeia. Vi que todos os nipo-paulistas que estavam ao meu redor eram viajantes de primeira viagem e que me perguntariam de tudo.. desde se pollo é frango até como mudar o canal da televisãozinha do banco. Me fiz de gringa, ignorei as vovós fofinhas, respondi em espanhol pra aeromoça que falava em portugués e dormi. Dormi pesado e acordei com aquela linda senhorinha com olhos orientais e olhar brasileiro arrumando a coberta para tapar melhor minhas costas.
Sorri.
Me envergonhei. Me senti uma idiota! Nem podia dizer "obrigada".
Me dei conta de que nenhum mau humor é razão suficiente para perder a oportunidade de conhecer a uma grande pessoa - dessas que dão sentido às palavras do poeta que eu tanto gostava quando tinha 17 anos: "A vida é a arte do encontro, embora exista tanto desencontro pela vida".
E brindo os desconhecidos! Seres maravilhosos que dão asas à minha liberdade de ser quem eu mesma quero ser, sem rótulos nem embalagens.




